Para saber o que realmente está acontecendo na Ucrânia.


É raiva nesta corrupção grotesca e desigualdade. A estagnação econômica e a pobreza na Ucrânia trouxe muitos ucranianos comuns a juntar-se aos protestos.
Com mais de 25 mortos e centenas de feridos na Quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2014, a violência em Kiev e outras cidades da Ucrânia parece estar desemaranhando-se em uma guerra civil sangrenta. Enquanto este caos vinha sendo travado na Ucrânia, os meios de comunicação imperialistas ocidentais tiveram um dia de campo com um script bem ensaiado como durante as revoluções árabes, distorcendo e alterando os eventos segundo os seus interesses e objetivos escusos, e quase completamente fazendo vista grossa ao envolvimento de neo-fascistas nos vigilantes Euromaidan com seus slogans de extrema-direita, os incidentes de tortura, linchamentos e espancamentos de moradores de rua. Esta é uma história que ouvimos de uma forma ou de outra muitas vezes, em particular durante a Revolução Laranja da Ucrânia apoiada pelo Ocidente, mas é apenas um esboço se comparado à realidade.

Em tempos normais, há uma tendência entre a pessoa comum em aceitar relatórios pelo valor nominal sem fazer um esforço para compreender mais profundamente ou analisar o que realmente está acontecendo com todas as suas complexidades. Em um artigo recente no The Independent, Patrick Cockburn escreveu, “a diferença na luta entre os manifestantes e o governo na Ucrânia em comparação com aquelas na Turquia e na Tailândia é que em Kiev eles podem esperar o apoio dos Estados Unidos e da União Européia como pode o governo da Rússia. A oposição recebeu uma esmagadora boa cobertura da televisão e jornais ocidentais, retratando a luta como hostilidade entre os cidadãos ucranianos e um governo repressivo. A versão noticiada na televisão sobre os protestos tem pouco tempo para coisas complicadas como o papel das forças externas ou a competição entre oligarcas e a família governante.

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Compreensivelmente, é a frase “F *** a UE” que vazou da conversa telefônica entre Victoria Nuland, a principal diplomata dos EUA para a Europa e Geoff Pyatt, o embaixador dos EUA para a Ucrânia, que tem atraído a atenção… estes altos funcionários norte-americanos viam-se a si mesmos como determinando quem deve formar um futuro governo ucraniano”.

O novo rumo dos acontecimentos na Ucrânia veio em 16 de janeiro, após a Rada (Parlamento ucraniano) introduziu leis anti- protesto destinadas à criminalização dos manufestantes, que foram apoiadas pelo Presidente Viktor Yanukovich e o seu Partido de Regiões, bem como pelo Partido Comunista da Ucrânia. Essas leis foram aprovadas sem qualquer debate.As exigências para a Ucrânia aderir à UE é de fato um reflexo distorcido de um desejo de mudança entre as massas – um desejo de escapar das condições desesperadoras enfrentadas pela população ao longo dos últimos 25 anos de governo dos oligarcas, ex- burocratas e criminosos que dirigem o país com efeitos devastadores como o fechamento massivo de fábricas, a venda de serviços de utilidade pública para a UE, os EUA e a Rússia. Como na Rússia, a Ucrânia foi destruída pela terapia de choque neoliberal e a privatização generalizada dos anos pós-soviéticos. Mais da metade da renda nacional do país foi perdida em cinco anos e a economia ainda não se recuperou. Desde os anos 1990, o Ocidente tem tentado explorar a falha histórica entre a língua russa falada em grande parte no leste da Ucrânia e ao sul (onde o Partido Comunista ainda comanda um apoio significativo), e a Ucrânia a oeste tradicionalmente nacionalista.

A hipocrisia da burguesia européia é típica. Tentavam chegar a um acordo com Yanukovich e seu premier Azarov, oferecendo empréstimos de austeridade, como parte de um caminho, liderado por alemães, para abrir a Ucrânia para as empresas ocidentais. Foi a rejeição de Viktor Yanukovich da opção da UE e a aceitação da oferta de Putin de um empréstimo de 15 bilhões de dólares que provocou os protestos. Na Rússia, esta oferta generosa de Putin vai prejudicar saúde, educação, direitos dos trabalhadores, levar a mais privatização e ao desmantelamento de tudo o que resta das conquistas sociais da era soviética. No entanto, estão os líderes da UE realmente preparados para romper com o Kremlin e com a Gazprom?

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A dependência da Alemanha em matérias-primas russas é vital para a sua economia. Capitalistas europeus querem o gás e o petróleo russo, o acesso ao mercado ucraniano e os trabalhadores para a exploração, enquanto que a elite russa tem seus próprios projetos para a Ucrânia.

Na Ucrânia, a interferência imperialista é parte de um jogo muito maior. A administração Obama tem afirmado categoricamente que os seus interesses estratégicos estão centrados em outras partes do mundo, e isso fez o sistema de defesa antimísseis de Bush planejado para o Leste europeu ter uma menor prioridade. Ao mesmo tempo, Putin está destinado a desempenhar um papel maior, aproveitando-se do declínio da influência dos EUA e as divisões que surgiram no âmbito dos poderes da Europa Ocidental.

Yanukovich é um representante das oligarquias orientais, os proprietários das minas de carvão na região de Donbass. Ele esteve procurando a melhor oferta, o problema agora é que a União Europeia tem muito pouco a oferecer. Quando os líderes “pró- ocidentais” assumiram o cargo depois de 2004, a política econômica implementada deles não era muito diferente da de Yanukovich. Não existem princípios envolvidos aqui, apenas interesses diferentes. É por isso que um compromisso entre Yanukovich e os líderes da oposição mais “razoáveis” ainda é uma possibilidade, o que deixaria os extremistas reacionários de direita que se congelam nas ruas. No entanto, isso continuaria a ser um frágil acordo, pois a Ucrânia ainda seria um campo de batalha entre os proxies de diferentes potências que disputam seus interesses escusos. É a Ucrânia no caminho a balcanisação?

A idéia de um colapso entre o Leste e o Oeste do país é campanha publicitária. A balcanisação da Ucrânia seria criminosa, movimento reacionário que devastará a qualidade de vida das massas. Os funcionários ucranianos estão em um estado de permanente pobreza e destituição, restando como único escape a emigração a outro país.

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Os salários estão em queda livre e a crise industrial está se espalhando para as regiões orientais. A agricultura foi praticamente destruída nas províncias da Galicia e Volhynia. A indústria no Leste é dependente de mercados russos e seria esmagada pela concorrência da UE. Um negócio com a UE destruiria sobretudo o mercado interno do país, com produtos alemães e poloneses inundando-o, enquanto uma União Aduaneira com a Rússia promoveria produtos russos. As massas já experimentaram os efeitos desastrosos de estreitos laços econômicos com a Rússia. A Ucrânia na União Europeia seria igualmente um pesadelo para as massas, como demonstra claramente a situação atual na Romênia, Polônia e todos os outros países do antigo bloco soviético.

Por outro lado, os líderes do Partido Comunista da Ucrânia, que colaboraram nos crimes de Yanukovich ao longo dos anos, tem feito um enorme desserviço à classe trabalhadora, identificando o comunismo como uma força política que não tem outra alternativa para posar para o atual regime e simplesmente faz uma ala da elite máfia. A classe trabalhadora vai aprender com a experiência que ela deve propor a si mesma a tarefa de emergir como uma força política independente e de luta contra os regimes capitalistas devastadores na Ucrânia que tem mergulhado seu povo na miséria.

Autor: Lal Khan – Fonte: http://www.dailytimes.com.pk/opinion/23-Feb-2014/what-is-really-happening-in-ukraine