BRICS podem mudar a ordem mundial.


01.05.2011
Celso Amorim
 Os líderes (no caso do Brasil, o líder) dos cinco países emergentes, com a adesão da África do Sul, agora faz parte dos países do BRIC, estiveram reunidos em Sanya, na China em 14 de abril passado. A entrada da África do Sul para o grupo é bem-vinda, a fim de ter incluído a África. A crescente importância da África no cenário internacional já não é contestada.
Celso Amorim, na CartaCapital
 Evidentemente, os pessimistas profissionais continuam a apontar as diferenças de interesses entre os membros dos BRICs, o que resulta, na verdade, em desconforto com a criação deste grande espaço de cooperação entre os países que até recentemente eram considerados subdesenvolvidos.
 O mundo está testemunhando o surgimento dos BRICS, com uma mistura de esperança (taxas de divisão) e medo (de compartilhamento de decisões). Com a ascensão dos BRICs, está acabando a temporada  em que duas ou três potências ocidentais, membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, podem se reunir em uma sala e sair de lá aparentemente falando em nome da “comunidade internacional”. 
 Eu tive a oportunidade de participar nos primeiros movimentos que deram origem ao BRIC (então sem o “S”). Ou, para usar uma terminologia que estou tomando emprestado da filosofia, a passagem do BRIC se tornando de uma realidade “em si mesmo”, identificado pelo analista de mercado, Jim O’Neill, a uma “realidade para si mesmo.”
 Demorou quatro ou cinco anos para que esses países assumissem a sua identidade como grupo. O primeiro passo foi o convite do Ministro das Relações Exteriores Russo Sergei Lavrov, para os ministros das relações exteriores dos quatro países para reunir fora do campo da Assembleia Geral da ONU. A reunião teve pouca estrutura. A interação, mesmo se houve alguma, foi restrita ao ministro russo e a mim.
 No ano seguinte, tomei a iniciativa de convidar meus colegas para um almoço de trabalho na residência oficial da nossa representante permanente junto da ONU, Maria Luiza Viotti. Foi durante esta reunião que foi tomada a decisão, inicialmente examinado com alguma reserva pela China, de convocar uma reunião a ser mantida em um país – não como um mero anexo à agenda pesada dos ministros durante as reuniões de Assembléia Geral.
 Assim, em maio de 2008, a primeira reunião formal do BRIC foi realizada na fria cidade russa de Ekaterinburg na fronteira da Europa com a Ásia, com uma declaração final, ainda em nível ministerial apenas. No ano seguinte, realizou-se uma reunião, mais uma vez na Rússia, a primeira cúpula dos líderes.
 Em suma, os líderes dos países do BRIC já não têm dúvidas sobre a importância da reunião para discutir a cooperação entre eles sobre questões de interesse global, finanças, comércio, energia, alterações climáticas.
 Na Líbia, o desejo de encontrar uma solução “por meios pacíficos e diálogo” foi reafirmada. Mais genericamente, referindo-se ao Oriente Médio e África, foi reiterado que o uso da força deve ser evitado.
 Como observou o comentarista do Financial Times, Gideon Rachman (apesar de eu discordar de sua análise da motivação), a intervenção anglo-franco-americana na Líbia pode ser o último “Hurrah!” do que ele chama de intervencionismo liberal. Lembrando que Brasil, Índia, Rússia e China se abstiveram da resolução que autorizou “todas as medidas necessárias” para estabelecer a zona de exclusão aérea e “proteção” da população civil, disse Rachman, “as potências econômicas em ascensão estão céticas sobre o conceito”.
 Além disso, se o Conselho se reúne novamente sobre o assunto, é provável que a África do Sul, calouro em Brics considere as posições mais recentes da União Africana, e siga os seus novos companheiros de grupo. Isso deixaria a coligação que apoiou o uso da força, dependente de um único voto para quem pretende tomar medidas adicionais.
 Bem… quais são as consequências de tudo isto? O fato é que com ou sem a reforma do Conselho de Segurança não será mais possível durante um longo tempo que um pequeno grupo de poderes Ocidentais decretem o que é a vontade da comunidade internacional. Da mesma forma não é mais possível para o G-7 (G-8, do ponto de vista econômico, é uma ficção) ditar as regras que o Fundo Monetário Internacional  terá, inclusive o Banco Mundial ou a OMC.
 É evidente que, enquanto o Conselho de Segurança não for efetivamente reformado, tudo será mais complicado e as grandes potências vitoriosas da Segunda Guerra Mundial, especialmente os Estados Unidos, continuarão a negociar o apoio da Rússia e da China, através de concessões, como fez sobre a adoção de sanções contra o Irã. No entanto, a tarefa se tornará cada vez mais difícil.
 A emergência dos BRICs no formato atual é uma verdadeira revolução no equilíbrio mundial, que se torna mais multipolar e mais democrático. Às vezes, as revoluções (quero dizer, as verdadeiras, naturalmente) precisam de tempo para institucionalizar.