Os S-300 russos e sua influência na conferência de paz sobre a Síria.


S300 SAM

A noticia más sensacional dos últimos días é o fornecimento da primeira partida de mísseis anti-aéreos russos S-300 a Síria. Segundo a prensa, Rússia vai continuar as entregas.

Não é que os S-300 previnam a ameaça de um ataque aéreo da OTAN, semelhante ao que a aliança lançou contra a Líbia em 2011. A propósito, o ataque não seria lançado necessariamente pelas forças da OTAN. Bem poderiam ser as turcas ou, digamos, sauditas… Mas agora o preço de tal operação (ainda quando sejam derrubados tão somente os mísseis de cruzeiro e não aviões pilotados) seria distinto.

Estes últimos dias tem ocorrido vários acontecimentos diretamente relacionados com a iniciativa russo-estadonidense de convocar uma conferência de paz para a Síria. O assunto segue sendo enredado. São desconhecidos os personagens que participariam e não há segurança de que as conversações realmente aconteçam. Em torno à convocatória sucedem muitas coisas que há um ano, quando Genebra acolheu a primeira edição da conferência sobre a Síria, tinha parecido inverosímil.

As grandes potências não desejam ser espectadores passivos dos acontecimentos protagonizados pelas monarquias arábicas cujas finalidades muito se distanciam de ser claras. Mas é uma questão a parte.

O roteiro líbio não se repetirá

Desde logo, as noticias sobre o fornecimento dos S-300 representam muitas interrogações: Quando esses mísseis entrarão em serviço operacional? Quem serão os operadores? Mas mesmo que se trate de um gesto simbólico, deveria ser assumido com suma seriedade.

Dando este passo, a Rússia pretende justificar-se e recuperar seu prestigio depois da guerra na Líbia. Naquela conjuntura bastou o embaixador russo renunciar ao veto no Conselho de Segurança à resolução sobre a zona de exclusão aérea sobre a Líbia para que neste país ocorresse o que, afortunadamente, até agora não ocorreu na Síria. Logo, Moscow exclamava indignada que a haviam enganado…

Rússia voltou a adotar uma postura firme, a qual não tardou em beneficiar-lhe, ante todo no Oriente Médio. Quem pensou que a Rússia havia se degradado e era um país de segunda que não podia influir na situação regional – a saber, Catar e Arábia Saudita que, sem vacilar, minavam um regime após outro na área- agora mudou de idéia.
Seria ingênuo confiar nas vantagens maiores, as obtidas já constituem um avanço.

Mas, que contribuição poderiam trazer os S-300 ao término da guerra civil na Síria que se livra, antes de nada, em cidades em forma de guerrilha e operações antiterroristas? Pelo visto, nenhuma, porque uma coisa é a guerra propriamente dita, e outra, muito distinta, os meandros nas relações entre as grandes e pequenas potências em relação a Síria.

Tirando as conclusões certas da guerra do Iraque

Nas épocas passadas, os principais atores da confrontação global eram a URSS e os EUA, ou, em termos mais amplos, Oriente-Ocidente. A confrontação teve por cenário terceiros países: em vez da Síria, os combates transcorreram no Vietnam, na Angola, em Mozambique, no Afeganistão…

Em todos os casos, a situação se assemelhava muito a da Síria: a oposição armada que contava com uma forte ajuda desde o exterior, se empenhava em derrotar o regime existente, sem que importasse muito a orientação política do regime no poder e da oposição.

O que se importava era o próprio esquema de conflitos ao que Moscow e Washington se atinham estritamente. Forneciam armas a seus protegidos, sem entrar em colisões diretas.

Agora tudo é distinto. Rússia e EUA continuam cooperando no âmbito da iniciativa avançada pelos chefes de ambos os departamentos diplomáticos, Serguei Lavrov e John Kerry com o objetivo de convocar urgentemente a conferência sobre o arranjo na Síria.

As vezes, se escutam censuras recíprocas. Moscow, por exemplo, critica a Washington por não haver podido (leia-se, não ter desejado) sentar a oposição Síria à mesa da negociações. Enquanto o Kremlin cumpriu seus compromissos: a delegação de Damasco está pronta para sair, e consta de candidaturas concretas e aprovadas.

Mas são coisas secundárias. A julgar pelas características gerais, a situação é bastante curiosa. Ao parecer, todos afirmam que a convocatória da conferência é impossível, que a oposição não viria e os EUA não exerce influência alguma sobre ela. Porém, Moscow e Washington conduzem o assunto e inclusive concordaram que a conferência (se chegar a convocar-se) de novo se celebraria em Genebra.

Já temos dito que Moscow procura justificar-se por sua atitude ante a guerra da Líbia. E ativamente coopera com Washington. Mas, vejamos o que acontece nos EUA, deixando de lado a retórica belicosa sobre a zona de exclusão como variante bem provável.

A este respeito poderíamos argumentar um espaçoso artigo publicado em The Washington Post que versa sobre os assim chamados “falcões liberais”, uma categoria importantíssima de políticos e analistas para os EUA. Convêm recordar que não só os republicanos, que logo passariam a denominar-se neoconservadores sob o mandato de George Bush, planejavam e desatavam guerras. Não menos agressivos foram os democratas que agravaram a situação na Iugoslávia (bem parecido ao que sucede na Síria) até os bombardeios de Belgrado.

Nesse contexto, escreve o periódico, se observam resquícios e controvérsias, antes de tudo, porque a triste experiência (dos republicanos, mesmo isso tendo pouca importância) no Iraque e no Afeganistão dissuade de aventurarem-se na Síria. E, por último, o próprio presidente Obama evidentemente não quer imolar vidas humanas e desperdiçar dinheiro na aventura síria. EUA já sofreu sensíveis baixas na Líbia, mesmo sendo sua participação nas hostilidades não muito ativa. O problema é que os EUA não tem cunhado ainda uma nova ideologia que lhes permita anunciar abertamente: tanto nós como o Ocidente em conjunto nos temos posto continuamente do lado dos fundamentalistas.

No Afeganistão (na época da URSS), em Kosovo e na Líbia. Ao invadir o Iraque geramos uma nova onda de extremismo islâmico no Oriente Próximo, contribuindo para que o Irã se ascendesse em potência regional. E perdemos a influência na área. Já é hora de renunciar a ajuda ao Catar e aos sauditas a recompor o mapa político do Oriente Próximo. Esperamos que nosso próprio projeto concretize uma nova política para esta região.

Desde cedo, é uma situação perigosa. É como se uma estivesse em cima de um monte coberta de gelo, correndo o perigo de deslizar-se em qualquer direção. Semelhante situação não ajudará a parar a guerra na Síria. Impõe-se a seguinte interrogação: suponhamos, as grandes potências apenas intentem recuperar sua influência no Oriente Médio. E os demais, aqueles que apoiam às autoridades sírias ou à oposição, o que fazem?

A quem favorece o passar do tempo

No momento, a Arábia Saudita, o Catar, a Turquia e demais amigos da oposição, mesmo a falar muito, não fazem nada. Mostram um moderado interesse até a situação no coração da UE, onde a aliança galo-britânica procurou o levantamento do embargo para poder fornecer armas à oposição. Os demais países europeus preferem manter-se à margem de semelhantes aventuras.

Falando das conversações, diremos que a oposição Síria residente no exterior, tem se reunido estes dias na Turquia. Os partidários do presidente Bashar Assad e mantenedores da paz celebraram num destes dias seu encontro em Teerã.

O Irã informa haver recebido um convite verbal para assistir à conferência de paz em Genebra. Ele porém, por enquanto nada pode dizer com certeza sobre quem viria à capital helvética.

Suponhamos que a conferência não chegue a celebrar-se. Sendo assim, a quem favoreceria a passagem do tempo? Permitam-me citar um único fator, a informação, que há um ano não foi de todo Permitam-me citar um único fator, a informação, que há um ano não existia em absoluto. Uma investida midiática global teve efeitos colossais, o que dá testemunho das guerras dos últimos anos, inclusive a da Líbia. Mas jamais a oposição teve que combater durante um período tão longo.

É sugestivo que as notícias sobre as atrocidades cometidas pelo regime sírio e a oposição se dividam aproximadamente na proporção 50:50, ou seja, representam, pelo visto, o estado real de coisas.

Do exposto acima conclui-se que já é hora de convocar uma conferência de paz, ou anunciar que o conflito sírio é um ajuste de contas entre os países do Oriente Médio, enquanto os outros não fazem senão pôr tropeços. Ou seja a verdade, a temos entendido desde há muito tempo.

Autor: Dmitri Kósirev

http://sp.rian.ru/opinion_analysis/20130531/157203202.html