Manobras militares russas: Guerra ou política?


“Quero chamar a atenção para as difíceis condições e os terrenos desconhecidos em que os militares tiveram de atuar. É evidente que nessas condições nunca se poderia cumprir tudo a 100%. Claro que não abateram todos os alvos, mas demonstraram uma elevada capacidade de combate e prontidão para atingir as metas que lhes foram apresentadas”, Vladimir Putin, citando que os objetivos foram praticamente alcançados.

Aquilo a que o Presidente assistiu em Tsugol foi apenas parte de um teste-surpresa em larga escala à prontidão das Forças Armadas. Os militares consideraram estas manobras como as maiores desde o fim da URSS. Elas estão a decorrer em várias regiões da Sibéria e do Extremo Oriente com a participação de um total de mais 160 mil militares, cerca de 5 mil veículos blindados, 130 aviões e helicópteros, assim como de 70 navios da Frota do Pacífico.

Na opinião dos peritos, a zona não foi escolhida ao acaso: as regiões pouco povoadas do Extremo Oriente e de Zabaikalie têm vizinhos fortes e ambiciosos. A realização aqui de grandes manobras militares é mais uma maneira de recordar aos nossos parceiros que esses territórios têm uma importância estratégica para a Federação Russa e que esta irá desenvolvê-los e defendê-los.

Os possíveis desafios militares na região foram comentados pelo perito militar Alexander Perendzhiev:

“Existem ameaças potenciais. Elas são, em primeiro lugar, as pretensões territoriais por parte do Japão em relação às nossas ilhas Curilhas. Claro que o Japão ainda não exibe a sua força militar para recuperar as ilhas militarmente, mas isso não significa que tal não possa acontecer no futuro. O segundo aspeto é a gravidade da situação na península coreana, onde os acontecimentos se podem desenvolver em diferentes direções.”

A China é considerada como um parceiro nosso, mas também a ela, segundo Perendzhiev, não será demais recordar que a Rússia é uma forte potência militar. Além disso, para esta região foram propositadamente deslocadas grandes quantidades de tropas. Só por si, isso foi uma verificação do funcionamento das unidades ferroviárias, da aviação militar de transporte e da marinha.

Segundo refere o perito, muitos vizinhos da Rússia, e não só no Extremo Oriente, estão a aumentar o seu potencial militar. Esse fato é muito mais importante que quaisquer declarações políticas. As maiores manobras da mais recente história do país demonstram claramente que a Federação Russa é um protagonista da geopolítica mundial que deverá ser tomado em consideração.[1]

Analistas militares continuam comentando as manobras que decorreram na semana passada na Sibéria e no Extremo Oriente da Rússia. Muitos observadores estrangeiros qualificaram os exercícios como uma ostensiva “demostração de músculos” e um sinal da preocupação da Rússia com as ameaças vindas da China e do Japão.

Na realidade, as manobras não tiveram nada a ver com receios de Moscou. A direção russa tenta analisar os resultados da reforma militar, que decorre no país desde 2008, e elaborar novos métodos de controle da instrução das tropas.

As manobras, nas quais, para além de tropas do Distrito Militar Oriental, participaram também forças do Distrito Militar Central, tiveram por missão inspecionar de surpresa a prontidão combativa. A primeira inspeção deste tipo foi efetuada em fevereiro de 2013, estendendo-se a tropas dos Distritos Militares Central e Meridional. Na altura, a direção do Ministério da Defesa declarou que inspeções repentinas de ações militares de grandes unidades serão regulares. Em março último, foi inspecionada de modo igual uma parte das tropas do Distrito Militar Meridional, acantoada na região do mar Negro. Em maio, uma inspeção foi efetuada nas tropas do Distrito Militar Ocidental.

Altos dirigentes do Ministério da Defesa e do país participaram de todas as inspeções. Uma parte do cenário das manobras foi dedicada ao controle do sistema de comando. As ordens de iniciar os exercícios foram dadas pelo presidente Vladimir Putin.

As manobras do Distrito Militar Oriental também correspondem a essa prática. Ao mesmo tempo, em comparação com outras inspeções, elas se distinguem pelo número de militares que participaram delas. As manobras precedentes contaram com a participação de um número de militares relativamente pequeno, não mais de 7-9 mil homens. Foram verificados em primeiro lugar o sistema de comando e de comunicações, os transportes e a mobilidade das tropas.

Conforme foi declarado desde o início por dirigentes militares russos, a prática de inspeções repentinas da prontidão combativa irá continuar, envolvendo todas as Forças Armadas. As inspeções vêm sendo realizadas à medida de acumulação da experiência. No caso referido, a inspeção decorreu em conformidade com um programa alargado, sendo combinada desta vez com os exercícios que habitualmente decorrem no verão no Extremo Oriente.

As inspeções de surpresa têm por tarefa treinar as tropas e avaliar os resultados das reformas das Forças Armadas da Rússia. Estas reformas visam substituir as tropas de mobilização, capazes de efetuar ações militares só após a mobilização de um grande número de reservistas, por forças mais compactas de prontidão permanente. O objetivo principal da reforma militar foi aumentar o número das forças capazes de começar a cumprir imediatamente missões de combate. Por isso está clara a razão pela qual a direção russa opta nomeadamente por tais formas de manobras.

O Distrito Militar Oriental é a maior da Rússia pelo território. Aqui são instaladas consideráveis infraestruturas e acantoado um grande agrupamento de tropas. Naturalmente, a Rússia empreende medidas para mantê-las em condições adequadas. Ao mesmo tempo, está previsto que estas tropas possam efetuar ações militares em outras regiões. Assim, unidades do Distrito Militar Oriental participaram ativamente de ações militares no Cáucaso do Norte.

Na Região da Ásia-Pacífico há alguns focos de instabilidade e é bastante alta a probabilidade de uma crise militar com consequências imprevisíveis, conforme testemunham os recentes acontecimentos na península da Coreia.

Os planos militares russos levam em consideração estes fatos. Ao mesmo tempo, no momento atual, a Rússia não vê quaisquer ameaças por parte de quaisquer potências, não estando envolvida em conflitos regionais, enquanto seu litígio territorial com o Japão tem um caráter prolongado, sendo pouco provável que possa levar a uma confrontação militar.[2]

Fontes:

[1] http://portuguese.ruvr.ru/2013_07_17/Manobras-no-Extremo-Oriente-guerra-ou-politica-0039/ :: Autor: Vlad Grinkevich

[2] http://portuguese.ruvr.ru/2013_07_24/Grandes-manobras-russas-e-a-situacao-na-Asia-9022/ :: Autor: Vassili Kashin