O caso Snowden revela o conflito de ego e auto-afirmação entre Rússia e EUA.


O mais curioso no caso de Edward Snowden, acusado de espionagem nos EUA e a quem a Rússia concedeu asilo político temporário, é que a maioria dos cidadãos russos e norte-americanos essencialmente, pensam o mesmo.

E mais, quando os ânimos estiverem apaziguados, perceberão que nossos países, graças ao ex-agente da CIA, coincidem em um âmbito muito relevante: o dos valores.

Uma punhalada nas costas?

Para começar, há muita gente, tanto nos EUA como na Rússia, que não quer saber nada de um tal Edward Snowden que fugiu a China, vazou segredos dos serviços especiais norte-americanos e logo passou 38 dias preso no aeroporto moscovita. Mas alguns seguem com atenção as peripécias do ex-agente e as fases do escândalo que provocou entre Moscow e Washington.

Este escândalo cresceu de maneira notável em apenas um dia, posterior à decisão do Kremlin de conceder asilo político ao ex-técnico da CIA.

Os Estados Unidos advertiu que valoriza a “utilidade” do encontro bilateral em Setembro. O porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, assegurou que Washington está “extremamente decepcionado” pela decisão de Moscow e advertiu que a Administração norte-americana valiriza “a utilidade” do encontro bilateral que o presidente Barack Obama mantem com o presidente russo, Vladmir Putin, na Rússia na reunião do G-20.

O senador democrata por Nova Iorque, Charles Schumer, foi o mais expressivo em suas críticas a Rússia. “A Rússia tem nos apunhalado pelas costas, e cada dia que ao senhor Snowden lhe é permitido vaguear livremente, o punhal se afunda mais”, disse Schumer, o democrata ‘número três’ do Senado, num comunicado.

O senador John McCain, famoso por sua postura intransigente com a Rússia, levou a situação para mito perto do absurdo ao manifestar quanto se diferencia a etapa atual das relações russo-norteamericanas da anterior, na época da Guerra Fria.

Graças a McCain

“Há tempo que necessitávamos um enfoque mais realista às relações com a Rússia”, insistiu McCain, quem rotulou o asilo de Snowden como “uma bofetada a todos os norte-americanos” e um “intento premeditado de molestar os EUA”.

O senador republicano John McCain, ex-candidato nas eleições presidenciais de 2008, declarou que Washington deve agora ampliar a ‘lista Magnitski’ (uma série de funcionários russos sancionados pela suposta implicação na morte em 2009 do advogado Serguei Magnitski em prisão preventiva), concluir o desenvolvimento do escudo anti-mísseis na Europa, acelerar o ingresso da Geórgia na OTAN e apoiar a oposição russa.

Mas isso é precisamente o que Washington vem fazendo há muitos anos, primeiro com George Bush, logo com Bill Clinton e, finalmente, com o presidente atual e sempre com escassos resultados.

Mas as ameaças de McCain demostraram melhor que qualquer outra declaração que Washington não sabe como atuar ante esta situação e intenta comportar-se como uma potência temível e todo-poderosa.

Ao mesmo tempo, o Kremlin tão pouco expressa um grande júbilo pela presença de Snowden no país. Não é o mesmo que quando o ex-espião britânico George Blake, conhecido por ter sido um agente duplo ao serviço da União Soviética, conseguiu em 1966 culminar uma espetacular fuga do cárcere britânico onde cumpria uma longa sentença por traição e espionagem, para escapar para a URSS.

Então os serviços secretos soviéticos cantaram vitória. Agora, os russos sonham desfazer-se de Snowden o quanto antes, já que os seus segredos não interessam e nada foi feito para desacreditar a Inteligência dos EUA.

A maioria dos políticos russos estão de acordo com seus colegas norte-americanos: Um agente que vaza segredos dos quais tem acesso por causa das suas funções não é nenhum herói. Pode considerar-se como tal por uns poucos revolucionários radicais que estão contra o Estado em geral.
Em outras palavras, a situação atual não tem nada a ver com a época da Guerra Fria, quando tudo o que prejudicava os EUA beneficiava a URSS. Agora estamos vivendo uma guerra fria ao contrário. A única coisa que faz falta é que todo o mundo se dê conta disso.

Como conseguir isso? Falando claramente. Tanto os russos como os norte-americanos, deveriam reconhecer sua visão do problema em torno a Snowden coincidem, mas a solução do mesmo se enfrenta um obstáculo de atitudes claramente hostis daqueles que, como McCain ou alguns políticos russos, adoptam injustificadamente uma postura agressiva com respeito a Rússia ou EUA.

O preço que pagam os EUA

Neste sentido, talvez a questão mais interessante seja por que Moscow não quis entregar Snowden à Justiça dos EUA. A resposta a esta pergunta destaca o principal problema dos Estados Unidos no mundo atual: o país busca elaborar uma nova postura em conformidade à nova situação no mundo, mas não consegue por que sua imagem está demasiadamente prejudicada ante a comunidade internacional.

Sendo assim, entregar Snowden significa ceder ante a pressão dos Estados Unidos, reconhecer sua própria impotência e perder o prestígio, o capital político mais valioso.

Há mais de dez anos neste mundo é mais benéfico ser um estado independente que depender ainda que seja de um aliado tão potente como os EUA. Em Washington isso é compreendido perfeitamente porém a Administração norte-americana se vê incapaz de superar o próprio legado, exemplificado pelas pressões e pela exigência à justiça tailandesa para extraditar para os Estados Unidos um suposto traficante de armas, o cidadão russo Victor Bout.

Autor: Dmitri Kosirev

Fonte: http://sp.rian.ru/opinion_analysis/20130806/157731378.html