Desgastados de guerras, EUA assumem papel embaraçoso.


Os Estados Unidos, por meio do seu secretário de Estado e do seu presidente, respectivamente, prometem uma resposta militar “incrivelmente limitada” ao ataque com gás toxico perpetrado contra centenas de crianças sírias pelo presidente Bashar Assad e então garantem que os “militares dos Estados Unidos não causarão nenhum arranhão” e em seguida se retirarão.

A Grã-bretanha abandona seu principal aliado numa hora decisiva. A União Europeia está dividida, a Alemanha se cala, A França vacila, e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) está ausente. Se houver outros pilares da aliança transatlântica, por favor me informem.

Vladimir Putin penetra então no vazio ocidental, estimulado pelo comentário desastrado feito em Londres, por John Kerry (que ele próprio aparentemente rejeitou) e de repente a Síria de Assad promete ceder e permitir a supervisão internacional das armas químicas cuja existência anteriormente negara.

Os Estados Unidos cansados de guerra, agarraram-se à tênue oferta da Síria e entregam a mediação à Rússia; a votação do Congresso sobre a ação militar, que o presidente Obama provavelmente perderia, é indefinidamente adiada; num embaraçoso pronunciamento em horário nobre Obama aproveita para dizer que os ditadores “contam com a indiferença do mundo” quando cometem atrocidades – e então ele, bem, por enquanto, tomará o “caminho diplomático”.

Comércio rentável de armas ocorrendo nos bastidores da crise síria, não informado nas notícias da sua tv.

Tem sido difícil decifrar a mensagem sobre a Síria do governo cambaleante de Obama, desde o devastador ataque de Assad com armas químicas, no dia 21.

Como outro ex-embaixador americano observou: “Se esses sujeitos construíssem automóveis, vocês não comprariam nenhum”.

Agora é possível que Assad, que abusa de subterfúgios e massacres, entregue seu gás mostarda e todo o restante do seu arsenal, assine a Convenção sobre as Armas Químicas, aperte a mão de Putin e volte à sua guerra civil, depois de engolir a declaração de Obama de que não acredita que deveria “tirar outro ditador pela força”.

Sem garantias

Talvez Putin, que fez uma justificativa calorosa da lei internacional, recupere-se de sua ressaca líbia e permita que a resolução do Conselho de Segurança elaborada pelo Ocidente enquadre o acordo com base no Capítulo 7 da Carta da ONU, que admite a intervenção militar caso a Síria não o cumpra. Sem essa ressalva, qualquer acordo não teria o menor sentido. Se isso ocorrer, Obama terá conseguido sair do buraco que cavou para si próprio e algo terá sido ganho. Duvido muito. Essa apressasda decisão me faz lembrar da farsa encenada durante a guerra da Bósnia, que implicava que os sérvios entregariam “todo” o seu armamento pesado à ONU a fim de evitar ataques aéreos – para depois voltarem a bombardear Sarajevo.

Uma porta-voz do Departamento de Estado acertou em cheio quando descreveu de início a proposta de Kerry como meramente “retórica”, porque “não se pode confiar que este brutal ditador, notório por brincar levianamente com os fatos, entregará as armas químicas”.

A incerteza desde o ataque com gás tóxico destacou a falta de liderança dos EUA durante todo o conflito sírio. A causa justa dos rebeldes que combatem a tirania implantada há 43 anos pela família Assad nunca rcebeu a ajuda de armas; e quando os radicais islamitas entraram na Síria, sua presença, foi usada para justificar a própria falta de ação do Ocidente que havia favorecido sua chegada.

A visão de um presidente que traça uma linha vermelha para os ataques químicos e depois diz: “Não fui eu quem estabeleceu a linha vermelha” (foi o mundo); que permitiu que Kerry justificasse energicamente a ação militar e depois nunca mais se manifestasse; que transfere a responsabilidade ao Congresso, mas parece feliz com o fato de o Congresso voltar a se reunir mais de uma semana depois; que observa que, “há cerca de 70 anos, os EUA eram a âncora da segurança global”, e depois declara: “Os EUA não são a polícia do mundo” – tudo isso assinala um momento em que os EUA voltam-se para si mesmos, deixando o mundo sem sua âncora.

O presidente refletiu o estado de espírito dos EUA. Quase dois terços das pessoas entrevistadas acham que os EUA não deveriam assumir um papel de liderança ao tentar resolver conflitos externos, segundo uma recente pesquisa realizada pelo New York Times/ CBS News.

A defesa de um principio apoiado por uma força incrível tornou os EUA a âncora da segurança global desde 1945, e libertou centenas de milhares de pessoas. Obama optou por um crescente isolacionismo. Sua vacilação se pareceu mais com uma aquiescência a uma mudança de poder global.

Em Berlim, que sobreviveu como cidade livre por causa de uma linha vermelha traçada pelos americanos, a mudança foi notada. Também foi notada em Teerã, Moscow, Pequim e Jerusalém.

Uma carta dirigida pelo dr. Tewes Wishmann de Heidelberg à revista Der Spiegel sobre o uso de gás na Síria, dizia: “Nossos filhos nos perguntarão o que fizemos contra esse assassinato em massa, assim como nós perguntamos aos nossos pais a respeito do nazismo. Então, teremos de baixar o nosso olhar e calar”.

Autor: Roger Cohen – Tradução de Ana Capovilla.

Fonte: Jornal ‘O Estado de São Paulo’, 14/09/2013.