Teria a Rússia ensinado aos EUA como desatar o “nó sírio”?


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No sábado, as delegações russa e norte-americana conseguiram em Genebra cumprir os objetivos que lhes foram colocados pelos respetivos chefes de Estado, para o estabelecimento de uma supervisão internacional sobre o arsenal de armas químicas na Síria, declarou o ministro das Relações Exteriores russo Serguei Lavrov no final das negociações com o seu homólogo estadunidense John Kerry. O ataque norte-americano contra a Síria, que ainda há pouco parecia inevitável, provavelmente já não terá lugar.

A oportunidade para uma solução pacífica da crise síria surgiu na segunda-feira (09 de setembro). Nesse dia, durante uma coletiva de imprensa em Londres, o secretário de Estado dos EUA John Kerry deixou escapar com uma dose de sarcasmo: “O regime de Assad poderá evitar um ataque militar se entregar todas as suas armas químicas à comunidade internacional durante a próxima semana”. Mais tarde, muitos observadores, incluindo a mídia norte-americana, sugeriram que o chefe do Departamento de Estado tinha feito essa declaração sem contar que ela pudesse ter sérias repercussões. Mas ele foi ouvido em Moscou e, no fim do mesmo dia, no MRE russo foi realizada uma coletiva de imprensa extraordinária. Nela Serguei Lavrov pronunciou uma declaração que provavelmente irá entrar nos manuais como um ponto de viragem na história do conflito sírio.

“Nós apelamos à liderança síria para que esta não só concorde com a colocação sob supervisão internacional dos locais de armazenagem das armas químicas, mas também com a sua posterior destruição, assim como com a sua plena adesão à Organização para a Proibição das Armas Químicas.”

A reação síria não se fez esperar. Damasco confirmou imediatamente que estava disposto a abandonar as suas reservas de armas químicas se isso permitisse evitar um ataque norte-americano. A declaração nesse sentido foi proferida pelo ministro das Relações Exteriores da Síria Walid Muallem que se encontrava na altura na Rússia.

“Eu declaro que a República Árabe da Síria saúda a iniciativa russa, que vai ao encontro da preocupação do regime sírio com a vida do seu povo e a segurança do seu país, assim como pela nossa confiança na sensatez da liderança russa que quer evitar um ataque norte-americano contra o nosso povo.”

Já no dia seguinte, a Rússia entregou aos EUA um plano para uma regularização faseada do problema sírio. O primeiro passo nesse sentido seria a adesão da Síria à Organização para a Proibição das Armas Químicas. O segundo seria a informação por Damasco da localização dos paióis e das fábricas de substâncias tóxicas. O terceiro passo seria o acesso dos inspetores internacionais a essas infraestruturas. Finalmente, o último ponto desse plano: a decisão sobre como, quem e onde irá destruir as armas químicas. Os próprios sírios gostaram desse plano e pouco depois declararam oficialmente a sua adesão à Convenção sobre a Proibição das Armas Químicas. Quanto aos pormenores da transferência dos arsenais químicos sírios para supervisão internacional, eles começaram a ser discutidos na sexta-feira em Genebra por Lavrov e Kerry. As negociações decorreram sob o manto da confidencialidade.

Já durante o dia de sábado, as partes acordaram o plano de atuação específico. O ministro das Relações Exteriores da Rússia Serguei Lavrov e o secretário de Estado dos EUA John Kerry informaram os jornalistas nas declarações finais que tinha sido obtido um acordo de princípio. A Rússia e os EUA acordaram que a Síria apresente durante a semana uma lista exaustiva do seu armamento químico e que, mais tarde, todo o seu arsenal químico será destruído. Kerry sublinhou que para atingir esse objetivo serão necessários relatórios, medidas atempadas e transparência. O chefe da diplomacia russa Serguei Lavrov referiu que foi atingido o objetivo traçado na reunião realizada entre os presidentes Vladimir Putin e Barack Obama à margem da cúpula do G20 em São Petersburgo. “Conseguimos, em grande medida, deixar de lado a retórica irrelevante e concentrarmo-nos numa coordenação profissional das vias práticas para a solução das questões levantadas pela colocação sob supervisão internacional do arsenal químico sírio e das perspectivas do seu desmantelamento”, sublinhou Lavrov. Os acordos obtidos são apenas o início do caminho para a completa liquidação das armas químicas sírias.

As abordagens acordadas não referem, evidentemente, qualquer uso da força ou quaisquer sanções automáticas. Quaisquer violações terão de ser provadas de forma clara e inequívoca no Conselho de Segurança da ONU.

Na comunicação aos jornalistas também foi referido que a Rússia e os EUA irão procurar que se complete a destruição do arsenal sírio de armas químicas até meados de 2014. Os inspetores deverão entrar em território sírio até novembro. As medidas punitivas concretas a aplicar aos culpados do uso de armas químicas serão discutidas adicionalmente no Conselho de Segurança da ONU.

Autor: Artiom Kobzev

Fonte: http://portuguese.ruvr.ru/2013_09_14/Russia-mostrou-aos-EUA-como-se-pode-desatar-o-no-sirio-9269/