A ameaça iraniana de ataque contra Israel fez Obama recuar.


Na visão do Irã e do Hezbollah, seria uma guerra devastadora, mas a única forma de preservar a integridade síria.

Teerã se preparou para lançar ofensiva militar contra Israel caso americanos atacassem a Síria, afirma membro de grupo xiita.

O recuo de Barack Obama com rela;’ao a um ataque à Síria e o plano russo de desmantelamento das armas químicas começaram a tomar corpo numa visita a Teerã do subsecretário da ONU para Assuntos Políticos, o diplomata americano Jeffrey Feltman, dia 26.

Segundo um alto funcionario do grupo xiita Hezbollah, o chanceler iraniano, Javad Zarif, avisou que, se a Síria fosse bombardeada pelos EUA, o Irã atacaria Israel. De acordo com a fonte, Feltman, que até junho de 2012 era secretario-assistente do Departamento de Estado para o Oriente Médio, foi tentar convencer o Irã a não reagir a um ataque limitado contra seu aliado, mas não conseguiu. Em vez disso, o Irã ofereceu a saída do banimento das armas químicas.

No dia seguinte à visita de Feltman, o novo presidente iraniano, Hassan Rouhani, escreveu no seu twitter: “O Irã pede à comunidade internacional que use todo o seu poder para prevenir o uso de armas químicas em qualquer lugar do mundo, especialmente na Síria”. Rouhani lembrou que o Irã foi vítima de armas químicas na guerra contra o Iraque (1980-88).

Era a senha para a solução apresentada na segunda-feira pela Rússia, que também foi avisada de que o Irã e o Hezbollah atacariam Israel, em caso de intervenção americana. De acordo com a fonte ouvida pelo Estadão, o regime iraniano estipulou como prioridade para o Hezbollah – por ele patrocinado – defender o regime sírio, cuja queda poderia ser precipitada pela intervenção dos EUA.

A perda de um aliado na Síria, e sua substituição por um regime sunita sob influência da Arábia Saudita, rival regional do Irã, é tida como uma ameaça existencial pela teocracia iraniana, segundo o funcionário do Hezbollah .

O grupo xiita tem entre 3 mil e 4 mil combatentes na Síria, disse a fonte (Samir Haddad, do Observatório Sírio dos Direitos Humanos, estimou esse número em 5 mil). Hassan Nasrallah, o líder do Hezbollah, costuma ir à Síria, motivar suas tropas. “Ele foi a Qusair”, exemplifica, referindo-se à cidade cristã no oeste da Síria, ocupada pela frente Nusra, ligada à Al-Qaeda, e retomada em junho pela Síria, com ajuda da milícia xiita.

O Hezbollah está treinando civis na Síria engajados nos Comitês Populares de Defesa, seguindo o modelo iraniano dos Haras e Taabia, que são milícias de apoio ao regime. “O exército sírio está aquartelado, não está lutando”, explicou. “A maioria dos soldados é sunita, e não obedece ordens de enfrentar os rebeldes (também sunitas na sua maioria).”

Daí a importância de a Síria atacar Israel: o Exército sírio se uniria de novo, contra esse tradicional “inimigo comum”. Segundo o funcionário, que, como todos no Hezbollah, não está autorizado a dar entrevistas sobre questões militares que envolvem a Síria, Bashar Assad em princípio não queria atacar Israel. O Irã deu um ultimato, avisando que, juntamente com o Hezbollah, atacaria Israel, com ou sem participação síria. “Mesmo que vocês não ataquem, eu vou atacar “, teria garantido Assad.

Na visão do Irã e do Hezbollah, seria uma guerra devastadora, mas a única forma de preservar a integridade síria.

“O Hezbollah está muito bem armado para essa guerra”, disse o funcionário. “Em 2006 (na guerra contra Israel), tínhamos foguetes katiushas, que batiam numa parede e caiam no chão. Agora, temos mísseis que derrubam um prédio inteiro.”

Com US$ 1 bilhão doado pelo Irã, o Hezbollah reconstruiu os bairros xiitas devastados pelos bombardeios israelenses em Beirute, no vale do Bekaa e no sul do Líbano. Ele estima que o grupo tenha 50 mil combatentes (metade do efetivo do exército brasileiro).

O Hezbollah recebe armas e ajuda financeira pela via terrestre, passando pelo Iraque – cujo governo também é pró-iraniano – e pela Síria. Mas o funcionário disse que esta não é a razão principal para defender o regime de Assad: “O Irã consegue enviar ajuda para o Hamas, na faixa de Gaza”. Na visão do Hezbollah, o problema da queda de Assad é a instalação de um regime sunita na Síria, hostil à teocracia xiita do Irã.

Segundo o funcionário, todos os 15 integrantes do conselho que assiste o líder do Hezbollah, Nassan Nasrallah, concordam que a milícia deve atacar Israel se os EUA intervirem na Síria. “Mas o plano russo é bom, porque preserva o regime de Assad sem a necessidade de uma guerra, da qual todos sairiam perdendo.”

Autor: Lourival Sant’anna – enviado especial a Beirute.

Fonte: Publicado em 15/09/2013 no Jornal O Estado de São Paulo.