Por que é de importancia vital à Federação Russa cuidar do Oriente Médio?


158139844Situação atual na Síria.

O acordo de EUA e Rússia para por sob controle internacional e destruir o arsenal químico sírio não põe fim ao conflito na Síria, composto por problemas muito mais graves que o das armas químicas.

O país vive uma escalada de violência étnica e sectária que ameaça parti-lo em pedaços. Continua o conflito entre a maioria sunita (que se supõe ser 74% e é o núcleo da oposição síria) e os alauitas (que são 11% e apoiam o regime do presidente sírio, Bashar Assad). Ao mesmo tempo, os salafitas (wahabies ou islâmicos radicais) lutam contra os partidários do movimento islâmico moderado, sufí.

A maioria dos curdos, que constituem 10% da população Síria, são também sunitas. Enquanto, as comunidades curdas perseguem seus próprios objetivos, pois o chamado ‘problema curdo’ é um fenômeno transnacional, de grande importância na Turquia, Irã e Iraque. Neste contexto, a crise na Síria, assim como sua possível desintegração, pode ter repercussões negativas não só no Oriente Médio mas também em ouapós regiões, inclusive a Rússia.

Esta não é a única razão por que Moscow mantem sua firme posição sobre a Síria. As autoridades de Rússia estão contra a imposição da democracia e das alegadas intervenções humanitárias sem a respectiva autorização do Conselho de Segurança da ONU. Moscow não está disposta a reconhecer o ‘excepcionalismo’ estado-unidense, proclamado por Obama.

É evidente que a Rússia tem interesses econômicos e geopolíticos no Oriente Médio e na Síria em particular: além de negócios, está o uso do porto sírio de Tartus, única base naval da Armada russa no Mediterrâneo desde os tempos da União Soviética.

Na encruzilhada

Os acontecimentos que se desenrolam no mundo islâmico são de grande importância para Moscow, já que os caminhos do Oriente e do Ocidente se cruzam na cultura russa. Segundo o Kremlin, a interação do islã e do cristianismo afeta ao país, já que a muçulmana é a segunda religião mais difundida na Rússia. A maior parte dos muçulmanos russos habitam no  Cáucaso e próximo do rio Volga.

Até há pouco tempo, a ameaça proveniente dos islâmicos russos se associava com a Chechênia. Após o atentado perpetrado durante a maratona de Boston no passado 15 de abril, cujos supostos autores foram os irmãos Tsarnáev, de origem chechena, vários especialistas retomaram a explicação sobre a conduta dos chechenos por suas ideias separatistas, como foi nos anos noventa, e responsabilizaram a Rússia de contribuir com o terrorismo ao recorrer à força em repetidas ocasiões. Porém desde os tempos da guerra na Chechênia a situação no Cáucaso mudou. Agora o islã radical desempenha um papel muito mais importante. E os extremistas islâmicos não se concentram mais na Chechênia nem na região do Cáucaso, sua influência cresce no delta do rio Volga e no mar Cáspio.

Atualmente a Rússia se prepara para os Jogos Olímpicos de Inverno, que se celebrarão na cidade russa de Sochi em 2014. Não será uma simples competição desportiva, trata-se de um projeto de especial importancia Rússia e para o presidente Vladimir Putin.

Segundo ele, este evento demostrará a capacidade da Rússia pós-soviética e seu crescente papel no cenário internacional. Os Jogos Olímpicos de 2014 poderão enfatizar o êxito da política aplicada por Putin para superar o caos em que se viu atolado o país após a desintegração da URSS.

A diferença de outras sedes de Jogos Olímpicos, tais como Pequim, Londres ou Vancouver, a Segurança de Sochi é muito mais vulnerável. Os islâmicos do Cáucaso ameaçam desde 2007 perpetrar atentados em Sochi às vésperas ou durante os Jogos Olímpicos.

Embora muitos especialistas não prestem grande atenção à organização ‘Emirado do Cáucaso’ que opera na Rússia por sua capacidade operacional, este grupo terrorista ocupa o terceiro posto entre os movimentos yihadistas internacionais após aqueles que atuam no teatro de operações afegão-paquistanês e no Norte da África.

Os islâmicos do Cáucaso participam na guerra civil na Síria e muitos deles são militantes do ‘Emirado do Cáucaso’. Esta formação desempenha um importante papel entre os yihadistas estrangeiros que ajudam a oposição Síria a combater contra Bashar Assad. O grupo principal de mercenários estrangeiros, ‘Kataib al-Mujahirin’ (KaM), encabeçado por Omar Al-Shishani, de origem chechena e supostamente eliminado em setembro passado, incluía mais uns 100 oriundos mais do Cáucaso.

Voluntários do Cáucaso do Norte formaram, segundo se supôs em setembro, um novo grupo, ‘Al-Muhajireen’, que atuava no norte da Síria. Antes, em agosto passado, vários meios de comunicação do Tartaristão (república da Federação Russa, às margens do Volga) informaram sobre a participação de seus cidadãos no conflito sírio do lado da oposição.

O primeiro diretor adjunto do Serviço Federal de Seguridade (FSB) da Rússia, Serguei Smirnov, estimou há um mês que uns 300 ou 400 cidadãos da Rússia participam no conflito sírio. “Isto terá sua repercussão e representa uma séria ameaça”, disse Smirnov numa roda de imprensa celebrada na Organização de Cooperação de Shanghai (OCS).

Além disso, nada pode garantir que os inimigos de Assad e os alauitas substituam a atual ditadura na Síria por um sistema democrático.

A partir desses critérios, a crescente influência do islamismo no Oriente Médio pode extender-se à Rússia, onde grande parte da população é muçulmana, e a países onde a população muçulmana predomina e que tem uma fronteira comum com a Rússia, tais como Azerbaidjão ou Cazaquistão.

O Cáucaso e a bacia do Volga são vitais para a segurança nacional e a identidade política da Rússia e é por isso que todas as razões expostas obrigam ao Kremlin mostrar máxima cautela.

Autor: Serguei Markedonov – doutor em História e professor convidado do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington, nos Estados Unidos.

Fonte: http://sp.ria.ru/opinion_analysis/20131011/158287992.html