A Rússia da Europa à Asia.




Nos últimos 400 anos quase todos os acontecimentos cruciais para a Rússia sucederam ao longo de suas fronteiras européias. Isso explica a lógica do eurocentrismo para a conciência russa. No século XXI, no entanto, o centro do mundo já não está no Atlântico, mas no Pacífico. Hoje em día para ser grande potência tem que se fazer presente nessa região, tal como nos mares Báltico ou Mediterrâneo há 300 anos.
Para a Rússia é uma situação extraordinária. Pela primera vez em muitos séculos sua vocação histórico-cultural européia não coincide com as diretrizes prioritárias de seu desenvolvimento político-econômico, que hoje apontam ao Oriente.



Tão pouco é lógico que três quartos da população russa viva em sua parte européia enquanto três quartos de seu território está na Àsia.



Europa, cada vez mais distante.



O anúncio de que o encontro da Rússia e da União Europeia (UE), planejada para dezembro próximo, foi adiado para finais de janeiro ou talvez mais, passou quase desapercebido.



Há alguns anos, parecía que as relações da Rússia com a Europa unida eram de importancia prioritária para o país euroasiático. A Europa representa um exemplo de modernização, encarna o destino histórico-cultural da Rússia e corresponde a mais da metade do comércio russo. Na segunda metade dos anos noventa Moscow insistiu em que fossem celebrados encontros bienais com a UE, o que se supunha uma exceção para Rússia, pois a UE nunca havia organizado reuniões tão frequentes nem com EUA, nem com China, nem com África, nem com Ucrânia. A agenda da UE com Moscow parecía tão cheia e promissora que esses frequentes contatos de alto nível se consideravam imprescindíveis. A meados dos 2000 a motivação pelos encontros começaram a dimunuir de ambas partes. Aos burocratas custava cada vez mais inventar que questões iriam debater e que documentos deviam firmar. Os conflitos seguiam pendentes, enquanto iam se esgotando os temas de interesse comum capazes de resultar em uma cooperação frutífera.



Hoje em día a colaboração parece uma farsa, marcada em especulações sobre vistos e discusões sobre os direitos das minorias sexuais. As relações econômicas, estas se mantêm a nivel intergovernamental bilateral.



No entanto, nem a Europa nem a Rússia renunciaram os encontros, pois significaria o reinicio das relações. Sendo assim a desculpa tem sido bastante trivial: no momento, as partes estão muito ocupadas…



Até onde olham Moscow e Bruxelas.



A Europa tem intenção de reconstruir suas relações com os EUA no momento em que atravessa uma crise interna.



Tarefa nada fácil. Está claro que seus propósitos de converter-se em um centro independente de influência internacional tem fracasado e hoje não tem outro remédio que voltar a discutir com os EUA as condições de seu paternalismo sobre a Europa, esta vez no marco da zona transatlântica de livre comércio. Ao mesmo tempo, o escândalo de espionagem por parte dos EUA provoca cada vez mais irritação na Europa, mesmo sem nada poder fazer a respeito.



A Rússia, por outro lado, visa a outra parte. Nas últimas três semanas o presidente Putin recebeu em Moscow o primeiro ministro da Ìndia; visitou Vietnam e Coreia do Sul; o chefe de Governo russo viajou à China a frente de uma grande delegação e os ministros de Assuntos Exteriores e Defesa, pela primeira vez na história, celebraram uma reunião no formato 2+2 com seus homólogos japoneses.



Mudança de rumo.



A partir de 2009, na Rússia se fala muito da necessidade de elaborar uma estratégia asiática que promova a Rússia na zona Asia-Pacífico e impulsione o desenvolvimento dos territórios russos ao leste dos Urais.



Desde então foi celebrado o APEC (Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico), que ativou a diplomacia russa na Ásia e foi criado um ministério especial para o Extremo Oriente.



É preciso aproveitar o desenvolvimento da Ásia para dinamizar a parte oriental russa e, dentro da Rússia, revalorizar a Sibéria e o Extremo Oriente. Precisamente a Sibéria e o Extremo Oriente serão o espaço onde aparecerão as ricas perspectivas de cooperação econômica não só com os vizinhos asiáticos, senão também com a Europa e os EUA.



Para atrair a essa região recursos humanos os métodos anteriores já não servem, é necessário um programa integral que a par com os incentivos econômicos inclua a promoção do Extremo Oriente russo a fim de que não se perceba como uma periferia abandonada.



Certo é que até o momento se trata de passos bem mais simbólicos, e as vezes, como o caso do encontro, bastante caros. Entretanto, o tempo dirá.



O gigante se desperta.



Por enquanto a Ásia se encontra em uma situação de incerteza. Ainda não aprendeu a ser líder da política mundial. Nesta zona há futuras potências que ainda não sabem como aproveitar sua força, e muitas delas estão ocupadas em conflitos entre si. Nesta etapa de consolidação a Ásia necessita da Rússia como um fator de estabilidade, protagonista político independente que mantem relações construtivas com todas as principais forças e contribui a manter o equilíbrio entre eles. É por isso que os líderes russos são bem-vindos em Pequim e em Tóquio, em Hanói e em Jacarta, em Seul e em Cingapura.



Mas isso não será assim sempre. Se a Rússia não mostrar iniciativa e dinamismo a Ásia pode formar-se sem sua participação. E então já será a Ásia quem ditará as normas, e os russos vão ter que adaptar-se a elas.



Também o projeto de União Euroasiática no espaço pós-soviético deve ser projetado para o Oriente. O presidente Vladimir Putin já falou sobre o assunto num artigo eleitoral que deu início a integração euroasiática. E não resta dúvida de que a idéia de um grande espaço econômico, desde a Europa até o Extremo Oriente, tem muito mais sentido que a luta contra a UE pela Ucrânia ou os países da antiga periferia soviética.



Autor: Fiodor Lukiánov



Fonte: http://sp.ria.ru/opinion_analysis/20131115/158553247.html