Brasil: O medo das ruas e o terror da mudança.


“O povo quer ver a Copa do Mundo. O futebol, assim como carnaval, está na cultura do brasileiro e os gastos de R$ 8 bilhões na reforma dos estádios são pequenos diante dos juros da dívida, que consomem esse montante em duas semanas. e acho que seria um erro da moçada achar que isso (protestos) vai granjear apoio popular.” (Frase atribuída a João Pedro Stédile – MST)

Valho-me da frase dita por João Pedro Stédile, sabidamente uma das maiores expressões do do MST – Movimento dos Sem Terra, a quem, justamente por pertencer ao MST, nutro respeito, para tecer alguns comentários e fazer também algumas observações sobre o momento atual de nossa experiência política, militância organizada e efervescência popular.

Temos que considerar o contexto do que foi dito, mas, também temos que considerar o local de onde foi e está sendo dito. Os acontecimentos de junho passado pegaram todos os “líderes” e estudiosos dos movimentos sociais de surpresa. Nós, ligados aos movimentos sociais, ficamos até mais que surpresos. Eu mesmo, á época, escrevi um pequeno texto com o título “COMO PODEM IR ÀS RUAS SEM NÓS” (AQUI) onde quis falar justamente dessa ideia fixa de alguns líderes dos movimentos sociais, sindicais, partidos que se constituíram historicamente como esquerda, de que eles são os únicos portadores das verdades sobre as mudanças. Não pode haver nada que perpasse o movimento das bases sem que isso tenha antes sido devidamente examinado por aqueles e aquelas que se julgam vanguardistas e brilhantes analistas da conjuntura. A este grupo lembro: até aqui erraram. Os governos ditos populares do Lula e da Dilma não fizeram as reformas estruturais e o povo, especialmente a juventude foi às ruas contrariando todas as análises.

Stédile comete também dois equívocos quase inadmissíveis a qualquer analista político de nosso tempo. O primeiro é considerar que carnaval e futebol, especialmente copa do mundo, são ainda festas populares. Há tempos que nenhum nem outro fazem parte oficialmente do calendário popular como tal. O carnaval popular passa longe da Manquês de Sapucaí e os pobres efetivamente não são chamados ou não lhes é nem será permitido participar presencialmente dos jogos da copa. O preço de um ingresso para o jogo final chegará a R$ 1.980,00 segundo a própria FIFA (Veja aqui). Para o desfile das escolas do grupo “A” do Rio de Janeiro chega a R$ 948,00 (AQUI). Ora, não creio que estes sejam valores “populares”.

Quero trazer à memória o conceito de “contra-revolução preventiva” e os meios atuais empregados pela força de coerção, repressão e consentimento no sentido de garantir a hegemonia do poder dominante, conceito, creio eu, muito conhecido por quem pensa e ajuda a construir uma massa crítica que seja capaz de garantir e conduzir o processo de construção de um projeto de governo popular. Não há, pois, nenhuma ironia quanto a citação de Florestan Fernandes, mesmo sabendo que tal pensador dá nome à escola de formação de quadros e militância do próprio MST e diversos outros movimentos, localizada em São Paulo. Aliás, diga-se de passagem, escola que oferece uma formação sólida, engajada e é exemplo e modelo, não só para o Brasil mas, para toda a América Latina e outras partes do mundo.

Com a ‘situação sob controle’, a defesa a quente da ordem pode ser feita sem que os ‘organismos de segurança’ necessitem do suporte tático de um clima de guerra civil, embora este se mantenha, através da repressão policial-militar e da ‘compressão política’. Em consequência, a contrarrevolução preventiva, que se dissipa ao nível histórico das formas diretas de luta de classes, reaparece de maneira concentrada e institucionalizada, como um processo social e político especializado, incorporado ao aparato estatal. (1)

Se a simples possibilidade de haver manifestações populares contra a copa do mundo de futebol oferece subsídio para este tipo de debate, às vezes até mais acalorados, é sinal de que efetivamente o povo nas ruas, em grande medida, ameaça concretamente o poder como tal. Certamente que não há ilusões quanto a possibilidade de inviabilizar e impedir concretamente que se realizem os jogos , nem portanto, a copa mesma. A “moçada” entretanto, sabe que os olhos do mundo estarão voltados para o Brasil neste momento é ,pois, um excelente momento para tornar mundialmente pública a insatisfação popular quanto a ausência de reformas estruturais combinado com medidas de caráter mitigador e até populista que visam manter as massas em permanente estado de dependência e temor quanto ao futuro, caso haja movimento em sentido contrário ao que prega os atuais detentores do poder do Estado.

O que é isso se não uma parte da arquitetura da “contra-revolução preventiva”? Ademais, todas as manifestações de rua foram e estão sendo reprimidas com extrema violência sem que partidos e movimentos sociais consigam, ainda que superficial e timidamente que fosse, intervir no sentido de denunciar e até evitar que se estabeleça um “estado de guerra civil” e confronto permanente. Claro está que as forças contra revolucionárias, presentes na base de sustentação do governo e, creio infelizmente que até dentro do Partido dos Trabalhadores, estão diuturnamente trabalhando para evitar que se construa qualquer resistência fora dos espaços institucionais historicamente canalizadores do que seria a “vontade popular”. É exatamente por não se tratar de uso de espaços institucionais que o movimento das ruas soa como uma possibilidade real de mudança e como alento àqueles que ainda sonham com um país justo, plurietnico e pluri nacional.

Mudanças que esperávamos para melhoria da vida de milhões não vieram, mas, vieram mudanças que distanciaram ainda mais o cidadão comum do poder, desdenha, faz chacota, escarneia e debocha, essas sim. Exemplo tenho aos montes. Dias antes de eclodirem as manifestações de rua, líderes indígenas de todas as regiões do Brasil e de diversos povos, ocuparam o plenário da Câmara dos Deputados para impedir que fossem votadas medidas que atentavam contra seus direitos e flagrantemente anticonstitucionais. Dentre tais medidas merece destaque a PEC – Proposta de Emenda Constitucional, 215, que retira do poder executivo e transfere para o poder legislativo a responsabilidade para com a demarcação das terras indígenas, entre outras medidas. O que na prática significa paralisar indefinidamente todos os processos de demarcação em curso e retroceder em outros tanto. Como resposta a ação dos povos indígenas a direção da casa alterou significativamente as normas de ingresso naquela que chamam debochada e cinicamente de “casa do povo”.

De qualquer forma, é uma forçação de barra atribuir às massas apenas a responsabilidade pelo descrédito de partidos, sindicatos e líderes religiosos e políticos que, não raramente se confundem e se apoiam mutua e descaradamente. Não imagino uma sociedade brasileira sem os partidos, sem religiões, sem sindicatos, sem o Congresso, mas, certamente as mudanças que a sociedade espera não virá por estes meios. Virá apesar deles.

O músico Benito de Paula já dizia, em referência ao desdém para com a vontade popular: “se cobrir vira circo e se cercar vira cadeia…” E então, o que temos preferido, o circo ou a cadeia?

Como já deixei claro, não me dirijo ao Pedro Stédile,que como disse reconheço a trajetória e apenas tomo suas declarações como mote para escrever a um amplo seguimento que insiste, apoiando-se em declarações infelizes como essas, em responsabilizar as massas e as bases atribuindo-lhes os fracassos que são antes daqueles que se encontram no poder, mesmo que por razões insistentemente ditas nobres. É simples: se as massas vão às ruas, resta provado que os interesses não estão subjugados a um evento que outrora fora popular como a copa do mundo. Ou, de outro lado, caso não hajam manifestações, resta igualmente provado que o povo ainda tem no futebol e na copa um alento e uma boa dose de uma merecida “cachaça”. Por um ou por outro, seja feita a vontade popular. Não é possível pensarmos um projeto popular sem que confiemos nas bases e na própria autonomia popular.

Vivemos uma gravíssima crise política que brota de uma profunda crise e inversão de valores e mesmo de sujeitos da transformação. Antes da ascensão do que muitos chamam de governo popular, os militantes das causas sociais se impacientavam com a excessiva paciência das bases. Agora a situação parece se inverter. As bases estão impacientes e os militantes lhes oferecem o freio como instrumento de luta. Como explicar isso? Como posso pedir ainda mais paciência aos jovens?

Todas as vezes que oferecemos alguma crítica, recebemos como resposta não a sincera vontade de acertar e até corrigir rumos, mas recebemos a acusação quase imbecilizante de que somos e estamos a serviço de uma “direita” sempre a espreita para retomar o poder, como se algum dia ela tivesse saído de lá. Basta que olhemos para a base de sustentação do governo para percebermos quem realmente é que está no comando.

Lembrando o ex-presidente, “nunca na história deste país” se mercantilizou tanto as relações sejam elas no campo político, social, cultural, religioso, ambiental… Nunca se atacou tanto e espoliou tanto os territórios indígenas,quilombolas, pesqueiros e de outras comunidades tradicionais. O desmonte da legislação para favorecer o agronegócio, mineradoras, madeireiras e toda sorte de mercadores inescrupulosos da natureza ganha status de crime contra a humanidade.

A desgraça campeia no meio rural onde nem mesmo a demagógica reforma agrária burguesa avançou. E ainda há quem renomeie a falácea por um pomposo e até demagógico também título de “reforma agrária popular”. Como vamos esperar por uma reforma agrária popular se o movimento de rua é tido, no mínimo como inconsequente. Ademais, reforma agraria só pode ser feita pelo Estado que é detentor dos meios para tal, não cabendo portanto, responsabilizar nem incumbir o povo de algo que não lhe cabe. A nós cabe apenas, neste caso, justamente irmos às ruas para exigir que se faça as reformas necessárias, incluindo a agrária.

Estamos às vésperas do Congresso Nacional do MST em comemoração à sua brilhante trajetória de 30 anos. Espero sinceramente que o movimento possa avaliar suas relações com o poder e encontrar o melhor caminho para fazer avançar a luta. Que possamos seguir gostando de futebol e carnaval mas sem nos imbecilizar, afinal, a revolução sonhada virá com muita festa e um grande carnaval daqueles que finalmente celebrarão a liberdade.

Nota: (1) Florestan Fernandes, A revolução burguesa no Brasil. Ensaio de interpretação sociológica. 2ª ed. Rio de Janeiro, Zahar, 1975, p. 347

Autor: Lindomar Padilha – indigenista e coordenador do CIMI – Conselho Indigenista Missionário região Amazônia Ocidental – Rio Branco, ACRE.

O blog de Lindomar merece consulta diária por pesquisadores, alunos, imprensa e interessados nas questões indígenas. http://lindomarpadilha.blogspot.com.br/

Fonte: http://port.pravda.ru/cplp/brasil/12-02-2014/36219-medo_ruas-0/