União Européia e EUA querem criar uma nova Ucrânia no modelo ocidental de colônia.


A chefe da diplomacia da UE, Catherine Ashton, chega com urgência hoje a Kiev a fim de “discutir questões da estabilização política e da prestação de assistência econômica à Ucrânia”.

Cabe notar que Ashton nunca se responsabilizou pela política econômica e financeira comunitária. Mas, a julgar por declarações procedentes de Bruxelas, Washington e Londres, tem em vista um desejo comum de consolidar o saldo positivo do golpe de estado e exportar a revolução para o leste do país e para a Crimeia. Ao mesmo, se iniciou uma nova espiral da campanha anti-russa, aliada à “denúncia” de “maquiavélicos desígnios” de Moscou.

Ao que parece, Ashton foi enviada a Kiev para vigiar e prevenir eventuais “desvios à norma” no processo de montagem de uma nova Ucrânia. E tal perigo realmente existe. Esta montagem vai se realizando a ritmos vertiginosos que não deixam margem para a legitimidade, a constitucionalidade, a objetividade e a verdade. Para não falar da opinião da maioria da população das regiões do leste da Ucrânia. Uma única coisa é certa: ao leme da nova Ucrânia se colocará a ex-premier, Yulia Tymoshenko.
Sindicalista português avisa a Ucrânia

No entanto, é difícil prever hoje futuros cenários no que toca à contenção de ânimos radicais sem entrar em brigas e conflitos com seus correligionários e adversários, sustenta Pavel Svyatenkov, ilustre politólogo russo.

“Agora uma coisa é absolutamente certa – Tymoshenko irá apoiar todas as reivindicações do movimento pró-europeu Euromaidan para dominar e colocar-se à frente da onda revolucionária. Além disso, tudo dependerá do acordo de associação com a UE e de um crédito do FMI prometido. Se o acordo for assinado e o crédito for concedido, Tymoshenko terá uma possibilidade de manobra limitada entre a Rússia e o Ocidente, visto que a economia ucraniana se encontra à beira de um colapso. É evidente que, neste contexto, o governo dependerá de fontes de financiamento, ou seja, daqueles que lhe paguem o dinheiro”.

Um novo “refrão” que se ouve nas declarações mais recentes emitidas por Washington, Londres e Bruxelas é “não admitir uma intervenção militar russa” (!?) e “um fracasso da ajuda econômica” devido aos esforços de Moscou. Na verdade, tais planos não existem, mas a adjunta do presidente dos EUA para a segurança nacional, Susan Rice, advertiu já que “tal intrusão seria um grave erro”. O chanceler britânico, William Hague, disse em uníssono que a ingerência russa teria agravado a situação na Ucrânia. Ressalvou ainda não “saber nada de uma reação da parte da Rússia”.

Entretanto, alguns políticos britânicos e norte-americanos consideram ser possível convidar Moscou para a participação no “projeto ucraniano”. Neste caso, é difícil adivinhar o que querem dizer tais declarações ambíguas, astuciosas e vagas.

Como será possível encarar a sério tal hipótese se, mediante um dos primeiros decretos, o parlamento ucraniano legitimou, de fato, a proibição do uso da língua russa? No fim-de-semana passado, os deputados invalidaram a Lei de Línguas Regionais, adotada em julho de 2012. A partir dai, a nível oficial, deverá ser usado, única e exclusivamente, o idioma ucraniano. A UE não protestou contra isso. Nem enviou protestos após as declarações do líder do partido Svoboda (Liberdade), Oleg Tyagnibok, sobre “a necessidade de se livrar do poder dos russos e judeus”.

Segundo estimativas do Instituto Internacional de Sociologia, com sede em Kiev, o idioma russo tem sido utilizado em casa por 43-47% da população do país. As regiões de Crimeia, cidades de Dnepropetrovsk, Donetsk, Zaporozhie, Lugansk, Nikolaev, Odessa e Carcóvia são consideradas unilinguísticas, com 74-96% de falantes russos.

Ora, renunciar ao russo que serve de um vínculo de comunicação regional na Ucrânia seria o mesmo que na Bélgica, por exemplo, proibir a fala da língua francesa, sendo essa a língua materna para os 40% dos belgas. Curioso perguntar que destino teria o antigo primeiro-ministro belga, atual presidente da UE, Herman Van Rompuy, se ele atrevesse a dar um passo desses?

Uma eventual cisão da Ucrânia não será causada pela Rússia, mas sim poderá ocorrer por culpa dos elementos ultra-radicais e da oposição, reputa Bogdan Bezpalko, vice-diretor do Centro de Estudos Ucranianos e Bielorrussos.

“Tal será possível, se a nova direção da Ucrânia conduzir uma política radical anti-russa e anti-regional. Se o novo governo admitir o menosprezo por valores e símbolos mentais existentes nas regiões ucranianas”.

Para “remodelar” a Ucrânia, à UE convém chamar à razão a ala oposicionista radical e filtrar os ultranacionalistas, separando-os do resto da oposição. Tal é um parecer de muitos analistas na Europa e nisso consiste a principal tarefa colocada perante Ashton.

“Seja qual for um desfecho, seria absurdo portar-se na Ucrânia como se este país fosse uma “entrada de cavalo” no processo de transformações na Rússia. Seria bom e correto deixar tais ideias ao juízo da história. Convinha entender que tal reação dolorosa da Rússia tem tido, ao menos em parte, todos os fundamentos. O líder máximo, eleito legitimamente, foi afastado do poder. Entre os revolucionários  abundam as pessoas que defendem princípios políticos hediondos. Em última análise, a Rússia e a Ucrânia, não obstante os regimes e conjunturas políticas atuais, têm sido países irmanados com as relações bilaterais seculares”, escreve hoje o periódico The Guardian.1

Situação na Ucrânia ameaça interesses da Rússia

O primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, caraterizou a situação atual na Ucrânia como perigosa para os interesses nacionais da Rússia.

Conforme relata a agência de notícias Interfax, o primeiro-ministro acrescentou que Moscou estava seriamente preocupada com a vida e a saúde de seus funcionários na Ucrânia.

Medvedev observou que está foi a razão para a retirada do embaixador russo na Ucrânia, Mikhail Zurabov. “Nosso embaixador na Ucrânia foi convocado para consultas. Isto significa que a situação no país não está clara. Há uma ameaça aos nossos interesses e à vida e saúde dos nossos cidadãos, que se encontram na embaixada”, disse Medvedev.2

[1] Autor: Andrei Fedyashin – Fonte: http://portuguese.ruvr.ru/2014_02_24/EU-e-EUA-procuram-montar-uma-nova-Ucr-nia-0263/

[2] Fonte: http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_02_24/Medvedev-situa-o-na-Ucr-nia-amea-a-interesses-da-R-ssia-4668/