A guerra pela ucrania apenas começou.


Unidade ucraniana dependerá de eleição limpa, inclusão dos russos do leste e firmeza; se esporte de Putin é luta livre, não devemos jogar badminton.

Não há nada que Kiev possa fazer para restaurar seu controle sobre a Crimeia. A luta agora é pela Ucrânia oriental. Se a Ucrânia como um todo, incluindo o leste, participar de eleição presidencial limpa em 25 de maio, ela poderá sobreviver como país independente (sem a Crimeia).

Somente um ingênuo poderia sustentar que os grupos pró-Rússia trabalhando para produzir o caos em cidades como Donetsk e Kharkov não são apoiados por Moscou. Seria igualmente ingênuo fingir que não há temores reais na Ucrânia oriental. Para começar, convém abandonar os rótulos “ucranianos étnicos” e “russos étnicos”. Eles não significam quase nada. O que há é uma mistura fluida e complexa de identidades nacionais, linguísticas, civis e políticas.

Há quem se considere russo. Há quem viva suas vidas na Rússia, mas também se identifique como ucraniano. Há famílias de origem mista, com pais e avós que se deslocaram pela antiga União Soviética. A maioria delas preferiria não ter de escolher. Numa sondagem em fevereiro, apenas 15% dos entrevistados na região de Kharkov e 33% de Donetsk desejavam que a Ucrânia se unisse à Rússia.

Na mesma sondagem, a cifra para a Crimeia foi 41%. Mas, depois, tome-se um mês de radicalização política e tomada de controle pelos russos, com canais em língua ucraniana arrancados da TV. Somem-se as intermináveis reportagens em língua russa sobre um “golpe fascista” em Kiev. Subtraiam-se os tártaros e ucranianos que vivem na Crimeia, grande parte dos quais boicotou o referendo. Tempere-se com uma grande pitada de fraude eleitoral. Pronto, 41% viraram 97%. Em momentos traumáticos como esse, identidades mudam e se cristalizam repentinamente, como um composto químico instável ao qual se adiciona um catalisador. Ontem, você era iugoslavo; hoje, um sérvio ou croata furibundo.

Tudo que for feito na e para a Ucrânia nas próximas semanas deve ser calculado para manter essa combinação de identidades do Estado em transformação. Pouco antes da espantosa fala de ontem do presidente Vladimir Putin, outro discurso foi transmitido num canal ucraniano. Falando em russo, o premiê interino Arseniy Yatseniuk disse que “pelo bem de preservar a unidade e a soberania da Ucrânia” o governo está preparado para conceder “os mais amplos poderes” às regiões de predominância da fala russa.

Isso incluiria dar a cidades o controle de suas próprias forças policiais e de tomar decisões sobre educação e cultura. Eles deveriam também apoiar o russo como segunda língua oficial nessas áreas. Não deveriam descartar a conversa sobre federalização só porque Moscou também a apoia. Deveriam desejar ardentemente que haja um candidato pró-Rússia na eleição presidencial e fazer de tudo para que a eleição seja livre e limpa, incluindo cobertura da mídia em russo e ucraniano – diferentemente do referendo na Crimeia.

O Ocidente pode respaldar isso de várias maneiras, inundando o lugar de monitores eleitorais. Governos ocidentais devem cuidar para as autoridades ucranianas terem dinheiro para pagar as contas. Podem aumentar as apostas. Podem tornar mais atraente a oferta de relações no médio e longo prazo com a UE. Podem ameaçar Moscou com sanções piores do que as atualmente impostas e não somente se Putin levar suas forças identificadas ou não a outros locais da Ucrânia oriental.

Chegou a hora de falar francamente com oligarcas ucranianos como Rinat Akhmetov, que é tão poderoso como qualquer instituição estatal na Ucrânia oriental. Discreta, mas firmemente, é preciso lhes mostrar a cenoura e o porrete: um futuro róseo para seus negócios na economia mundial se ele ajudar a Ucrânia a sobreviver como Estado independente; estrangulamento financeiro e intermináveis processos judiciais se não o fizer. Se o esporte de Putin é a luta livre, não podemos nos limitar ao badminton.

Não queremos sugerir que o que houve na Crimeia não importa. Em seu discurso, Putin enumerou hits reveladores do unilateralismo americano e das contradições do Ocidente, mas o que ele fez coloca em risco os fundamentos da ordem internacional. Ele agradeceu à China pelo apoio, mas será que Pequim gostaria que os tibetanos se separassem após um referendo?

Ele lembrou a aceitação soviética da unificação alemã e apelou aos alemães para apoiarem a unificação “do mundo russo” que, aparentemente, inclui todos os falantes de russo. Com uma retórica mais típica de 1914 do que de 2014, a Rússia de Putin é hoje uma potência revanchista.

Autor: Timothy Garton Ash – professor de estudos europeus na Universidade de Oxford.

Tradução de Celso Paciornik

Fonte: O Estado de São Paulo