Limpeza étnica de armênios: não interessa quem é a vítima, mas sim o algoz.


Uma limpeza étnica de armênios ocorre no Oriente Médio. Por que ninguém liga?

O Oriente Médio, especialmente a região entre o Egito a Turquia, passando pelo Líbano, Síria e o que hoje é Israel e Palestina, incluindo partes do Iraque, foi uma das regiões mais espetaculares e cosmopolitas da história mundial no início do século 20, nos tempos do Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell. Uma época em que judeus, armênios, cristãos ortodoxos árabes, gregos, muçulmanos sunitas e xiitas, além de uma série de denominações cristãs como os melquitas, maronitas, assírios siríacos ainda coexistiam no Mediterrâneo Oriental.

Aquele mundo, infelizmente, acabou. Por uma série de motivos históricos e guerras, Alexandria se transformou em uma megametrópole atrasada do terceiro mundo. Beirute, Bagdá e agora Aleppo foram destruídas em guerras civis. Damasco pode ser a próxima. Jaffa virou um bairro de Tel Aviv.

Os judeus do mundo árabe não existem mais. Tentei achar alguns em Damasco e Beirute anos atrás, mas fracassei. As pessoas de origem judaica que vivem no Líbano são jornalistas, acadêmicos, diplomatas e funcionários de ONGs que nasceram nos EUA ou na Europa e estão no país como expatriados. Nenhum é nativo do Líbano. Há, claro, raros vivendo nestes países, mas não há mais uma congregação. As sinagogas, como a reconstruída Magen David de Beirute, servem apenas como um monumento de uma outra época. Uma pena, pois aqueles judeus eram tão libaneses, sírios, iraquianos e egípcios como qualquer cristão ou muçulmano.

Os próximos da lista podem ser os armênios. Vítimas de um genocídio cometido pelos Otomanos na região da Anatólia em um episódio lamentavelmente não reconhecido pelos EUA, Brasil e Israel, mas reconhecido pelo Líbano, Argentina e França, eles buscaram refúgio no Líbano, na Síria e no que hoje é Israel e Palestina. Em muitos casos, imigraram para Buenos Aires, Los Angeles e São Paulo.

No Líbano, concentram-se principalmente em Burj Hamoud ou em bairros como Mar Michail. Em Jerusalém, tem o seu quadrilátero na cidade velha. Na Síria, viviam muito bem e compunham uma proeminente classe média em Aleppo até o início da guerra civil. Com os ataques dos rebeldes, sendo alguns deles extremistas islâmicos ligados à Al Qaeda, muitos armênios precisaram fugir ou construíram milícias para lutar ao lado das forças de Assad. De longe, seria covardia nossa julga-los se estão corretos ou errados de aliarem ao regime.

Além de Aleppo, muitos armênios se concentravam na pequena cidade costeira de Kassab, na fronteira com a Turquia. Eram apenas 2 mil habitantes. Até agora, estavam imunes ao conflito. Mas rebeldes da oposição os expulsaram. Assim como os judeus foram expulsos no passado. Estes armênios tiveram de deixar sua cidade em busca de refúgio em outras áreas controladas pelo regime na costa, como Latakia e Tartus. E, com, com a limpeza étnica deles pelos rebeldes da oposição (será que McCain, aliado dos rebeldes, falará algo?) mais uma parte do Oriente Médio cosmopolita morreu com a expulsão deles.

O mundo não dá bola, especialmente o chamado Ocidente. Claro, o cenário seria diferente se Assad, Putin ou o Irã fossem os responsáveis pela expulsão dos armênios. Imaginem a gritaria internacional. Mas o que aprendi, cobrindo o Oriente Médio, é que não interessa quem é a vítima, mas sim o algoz.

Os países árabes condenam enormemente quando Israel mata um palestino. Podem estar corretos. Mas são hipócritas quando o regime de Bahrain mata outros árabes, ou quando o regime do Marcehal Sissi comete massacres nas ruas do Cairo. Portanto o problema é Israel (ou Assad) ser o algoz, não os palestinos (ou civis sírios) serem as vítimas. Um sírio morto pela oposição (e são dezenas de milhares) não recebe a mesma atenção internacional que um sírio morto pelo regime (também são dezenas de milhares).

Cristãos, se fossem mortos pelas mãos de inimigos como Assad, Putin, Irã ou Hezbollah, seriam alvo de ajuda de todas as partes do mundo ocidental. Mas como são aliados (ou associados, pois muitos não gostam do regime, mas temem ainda mais a oposição) dos russos, do regime sírio e do de Teerã, não veem ajuda nenhuma e são ignorados. Afinal, o mundo não está nem um pouco preocupado que os armênios, os cristãos árabes e os muçulmanos alauítas são mortos e podem virar monumentos do passado como a sinagoga de Beirute.

O Oriente Médio era muito, mas muito melhor, quando Alexandria, Aleppo, Beirute e Bagdá eram mais cosmopolitas do que Paris, Londres e Berlim.

Autor: Gustavo Chacra – comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

Fonte: Estadão