A política dos EUA para Rússia, Síria, Israel e palestinos em uma só palavra: delírio.


EUA reavaliarão seu papel em negociações de paz no Oriente Médio.

Medidas tomadas por israelenses e palestinos nos últimos dias dificultam acordo, diz Kerry.

O secretário de Estado americano, John Kerry, disse nesta sexta-feira, 4, que Washington avaliará se continua liderando as negociações de paz no Oriente Médio. O alerta foi feito depois de israelenses e palestinos terem tomado medidas nos últimos dias que dificultam a chegada a um acordo.

“É hora de enfrentar a realidade. Isso nunca foi um esforço desmedido. Precisamos avaliar exatamente que passos iremos tomar”, disse Kerry durante visita ao Marrocos. “Se pode facilitar, apoiar, empurrar, mas são eles quem devem tomar as decisões.”

A frustração de Kerry, que deveria negociar até o fim do mês um acordo de paz veio a público depois de Israel expandir seus assentamentos em Jerusalém Oriental e a Autoridade Palestina tentar expandir o reconhecimento a um Estado independente nas Nações Unidas. O governo israelense também suspendeu a libertação de prisioneiros palestinos prevista para a semana passada.

O secretário se encontrou com Netanyahu em Israel na segunda-feira e com Abbas na Jordânia na semana passada, mas cancelou uma viagem para a região na quarta-feira depois de os palestinos afirmarem que buscariam maior reconhecimento dentro das Nações Unidas (ONU).1

John Kerry fora da realidade.

Durante uma viagem ao Oriente Médio, em novembro, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, disse que a região caminhava para fantásticas conquistas graças à diplomacia americana. No Egito, afirmou: “O projeto de democracia, pelo que eu sei, está sendo posto em prática”. Na Síria, disse que uma conferência de paz substituiria o regime de Assad por um governo de transição. E o conflito palestino-israelense estava prestes a alcançar um acordo final no mês de abril.

Alguns apressaram-se em elogiar Kerry por suas ousadas ambições, afirmando que ele estava dotando a inerte política externa do governo Obama de capacidade de visão e de energia. Outros, eu entre eles, acharam que ele estava delirando.

Quatro meses se passaram e, infelizmente para Kerry e para os interesses dos EUA, o veredicto é que ele estava de fato delirando. O Egito é dominado por um general autoritário. As conversações de paz com a Síria implodiram logo depois de começar. Agora, Kerry tenta impedir o colapso do diálogo de paz, que pende por um fio.

Podemos afirmar que nada disso se dá por culpa de Kerry. O general Abdel Fatah al-Sissi sequestrou a prometida transição política do Egito. Binyamin Netanyahu não parou com as edificações na Cisjordânia. E Mahmoud Abbas recusou-se a reconhecer Israel como um Estado judeu. Tudo isso é verdade. No entanto, Kerry apoiou os vilões o tempo todo.

A começar pelo Egito, onde o Departamento de Estado sustentou a ficção segundo a qual o golpe contra o governo eleito de Mohamed Morsi pretendia “restaurar a democracia”. No dia 12 do mês passado, Kerry: “Estou extremamente esperançoso de que, dentro de pouco tempo, poderemos avançar”. Doze dias depois, um tribunal egípcio sentenciou à morte 529 membros da Irmandade Muçulmana. Quarenta e oito horas mais tarde, Sissi apareceu na TV para anunciar sua candidatura à presidência.

Kerry não se mostrou menos crédulo a respeito de Vladimir Putin. Tendo assumido o cargo em maio com objetivo de intensificar o apoio aos rebeldes sírios para “modificar os cálculos de Assad”, Kerry mudou abruptamente o rumo após uma visita ao Kremlin. Rússia e EUA “cooperariam para tentar implementar” uma transição para o regime de Assad. “Nosso entendimento é muito semelhante”, disse.

Não era. Durante os nove meses seguintes, Putin, que abomina a mudança de regime apoiada pelos EUA, enviou armas a Damasco. Quando a conferência de paz em Genebra finalmente começou, a Rússia – num gesto que não surpreendeu ninguém, com exceção de Kerry – apoiou a afirmação de Assad de que as negociações deveriam se limitar a combater o “terrorismo” e não um governo de transição.

Chegamos assim ao lodaçal que são as conversações de paz no Oriente Médio, que Kerry abraçou como uma causa pessoal, embora o governo Obama já tivesse falhado na intermediação de um acordo entre Netanyahu e Abbas.

Kerry gastou uma enorme quantidade de tempo com Israel e os territórios palestinos, convencido de que conseguiria fazer com que chegassem a um acordo. Como era de se prever, isso não aconteceu. Os líderes não mudaram um milímetro em relação às posições que defendiam e Abbas rejeitou os termos que Kerry tentava incluir na proposta.

O secretário respondeu à primeira crítica que fiz a ele numa entrevista ao jornal Politico: “Eu perguntaria: qual é a alternativa?” Bom, a alternativa é tratar o Oriente Médio por aquilo que realmente é.

Reconhecer que os generais do Egito estão instalando novamente uma ditadura e, portanto, a ajuda americana não poderá ser reiniciada. Rever a possibilidade de ressuscitar e defender os verdadeiros democratas do Egito. Admitir que o regime de Assad não cairá, a não ser que seja derrotado no campo de batalha e adotar uma estratégia que permita derrotá-lo. Admitir que uma paz abrangente palestino-israelense é impossível agora e empreender, em condições mais modestas, um trabalho de preparação para um futuro Estado palestino.

Em suma, deixar de lado os delírios. 2

[1] Fonte: AP e REUTERS / O Estado de S.Paulo – http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,eua-reavaliarao-seu-papel-em-negociacoes-de-paz-no-oriente-medio,1149329,0.htm

[2] Tradução de Anna Capovilla – Autor: Diehl Jackson – Fonte: O Estado de S.Paulo: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,kerry-esta-fora-da-realidade,1148765,0.htm