Uma lição de história.


Na ópera trágica que assistimos na Ucrânia, é difícil entender as frases, acompanhar as peripécias. Durante três meses, jornalistas e políticos nos dizem que toda a Ucrânia “está com fome da Europa” e os revoltosos heroicos, pró-europeus e democráticos da Praça Maidan não tinham outros rivais a não ser os policiais e soldados do regime do presidente Viktor Yanukovich.

Dois dias após o triunfo dos democratas de Maidan, porém, eis que em algumas regiões da Ucrânia a revolta de Kiev é denunciada como “fascista” e multidões esperam a luz de Moscou. Assim, mais uma vez, observamos que a história, quando a política a expulsa pela porta, ela entra pela janela. Na realidade, a Rússia é filha da Ucrânia. No século 9.º, Kiev forjou um Estado povoado de tribos da estepe eslava que ameaçavam os nômades da Ásia Central. Esse Estado, chamado “Rus”, aproxima-se da Europa. É cristão de rito bizantino e tem um intercâmbio comercial com Bizâncio e com a Europa. Três séculos mais tarde, em 1240, essa primeira Ucrânia, ao mesmo tempo russa e europeia, é aniquilada pelos mongóis. Kiev desaparece.

A região se fragmenta em três grupos etnolinguísticos. A noroeste. os russos brancos. Ao sul, os ucranianos. Esses dois grupos ficam na esfera de influência da Lituânia, reunida à Polônia no século 14 sob a monarquia dos Jaguelões. O terceiro grupo, a nordeste de Kiev, reúne os grandes russos atraídos para o Principado de Moscou, que inicialmente era um feudo dos mongóis, mas que pouco a pouco se separou deles.

Nesse momento, a Ucrânia desmembrada adquire forma: de um lado, a oeste, reina a monarquia dos Jaguelões, que respeita as minorias e as aristocracias locais. Do outro lado, a leste, um principado ligado a Moscou e subjugado por czares violentos, entre os quais o mais célebre foi Ivã, o Terrível.

E, como nesses tempos obscuros a religião é a base das comunidades, em breve, haverá no espaço ucraniano duas igrejas. De um lado, a ortodoxa, de tradição eslava e russa, a religião das massas. De outro, nascida em 1596, uma igreja que pratica o rito ortodoxo, mas reconhece Roma e a autoridade do papa. Em outros termos, uma igreja nas mãos de Moscou, outra voltada para o Ocidente.

Na mesma ocasião surge um novo ator no drama: os cossacos, guerreiros que detestam qualquer autoridade. Eles mesmos adotam um comportamento ao mesmo tempo democrático, militar e libertário. Detestam o absolutismo dos czares e não querem ser servos. No entanto, não estão próximos da Ucrânia polonesa, que estabelecerá para eles um tipo de autonomia.

Em 1648, ocorre uma revolta na Ucrânia sob o impulso de um cossaco exaltado, Bogdan Khmelnitski, que foi obrigado a se aliar com Moscou. Seis anos depois, a Ucrânia tem de decidir seu futuro, ou seja, volta-se para a Rússia, liga-se à Polônia ou é absorvida pelo Império Otomano. Os ucranianos juram fidelidade à Rússia, mas a lua de mel é breve.

Foi preciso demarcar uma linha ao longo do Rio Dnieper. A oeste, a Polônia. A leste, o império dos czares. Essas fronteiras são cicatrizes na carne de um país e jamais se apagam completamente. Concluindo o percurso cossaco. A grande Catarina, no século 17, conquista a Crimeia, que hoje é o principal foco explosivo da Ucrânia. Depois, vem a Revolução Bolchevique e, em 1932, a fome que alguns afirmam ter sido organizada por Stalin. Balanço: 4 milhões de mortos.

Enfim, quando a União Soviética naufraga nas águas mortas da história, em 1991, a Ucrânia conquista sua independência. Na verdade, este é um artigo severo, um pouco universitário, mas me parece útil ter a energia de lê-lo para compreender melhor as figuras que se defrontam numa das mais perigosas crises da era pós-soviética.

Tradução de Terezinha Martino.

Autor: Gilles Lapouge – Fonte: – O Estado de S.Paulo