A imprensa ocidental escreve sobre o regresso da diplomacia aos tempos da Guerra Fria.


A imprensa ocidental escreve sobre o regresso da diplomacia aos tempos da Guerra Fria, quando os destinos dos outros países eram decididos em Washington e em Moscou. Contudo, na opinião dos peritos, esse paralelismo não é aplicável, apesar das semelhanças serem evidentes.

Tal como há meio século, a Rússia e os EUA iniciaram de fato, à margem de todos os outros, negociações para a procura de vias de regularização da crise na Ucrânia. É certo que os analistas ocidentais reconhecem que as outras formas não estão produzindo resultados. Na opinião deles, na Europa não existe uma figura que possa falar em nome dos países europeus sobre essa questão importante. Os europeus têm primeiro de ter uma oportunidade para se entenderem. Sem dúvida que, quando falamos de políticas duras, a Europa é um conceito abstrato.

Os Estados Unidos compreendem que têm de interagir com os russos, sublinham os peritos ocidentais. Washington já não pode impor simplesmente o resultado final, ao contrário do que sucedia nos anos 90, quando era frequente isso acontecer. Entretanto os norte-americanos não querer que a crise continue. Daí a sua disponibilidade para o diálogo, apesar de o presidente Obama pronunciar duras declarações, franzindo a sobrancelha para Moscou.

Está acontecendo aquilo que já tinha sido previsto pelos peritos mais previdentes: os norte-americanos estão se habituando gradualmente ao novo equilíbrio de poder, considera o editor principal da revista Rússia na Política Global (Rossia v Globalnoi Politike) Fiodor Lukianov:

“Eles já estão se habituando ao novo estatuto da Crimeia e ao fato de uma recuperação e uma renovação da Ucrânia não estarem para breve. E também à circunstância de mesmo os conflitos mais graves, em condições que impossibilitam uma guerra, se transformarem em uma rotina diplomática. Simplesmente não existe outra forma. Em diplomacia o mais terrível é quando uma das partes se sente encurralada e derrotada. Nesse caso, têm início os atos impulsivos. Mas se todos pensarem que obtiveram algum sucesso – então ainda bem!”

Entretanto cada uma das partes poderá interpretar os acontecimentos da forma que lhe for mais favorável. Na esfera da política pública Washington, por exemplo, está convencido que apenas o peso dos seus argumentos e a ameaça do endurecimento das sanções terão impedido a Rússia de invadir a Ucrânia. Essa tese também foi amplamente difundida pela mídia ocidental. É possível que esse tipo de fantasias tenha o direito de existir. O importante é não permitir uma escalada da tensão na Europa Oriental.

Em certa medida, as relações russo-americanas se tornaram mais racionais, apesar de o fator da crise ucraniana dever continuar presente ainda durante muito tempo, considerando que as relações entre Estados evoluem com muita inércia. Elas não podem ser mudadas de uma vez. Quando as coisas começam se alterando, já são precisos esforços bastante grandes para regressar à linha anterior.

O mais importante no desenvolvimento de quaisquer relações (inclusive na arena da política externa) é a confiança como resultado da consciência que o parceiro é responsável pelo que diz. É muito importante que ambas as partes entendam desde o início o que se pode fazer e o que não se pode. Mas se as regras mudam durante o próprio jogo, a confiança se vai perdendo.

Foi o que aconteceu com as relações entre a Rússia e os EUA depois de os norte-americanos terem ultrapassado por várias vezes, no calor do momento, os limites do admissível, considera Fiodor Lukianov. De certa forma, na opinião dele, a atual situação é pior que a existente durante a Guerra Fria clássica:

“Claro que durante a Guerra Fria não havia qualquer confiança. Se tratava de um confronto estrutural e sistemático. Mas havia um aparelho de entendimento mútuo. Todos entendiam que havia um certo embrulho propagandístico. Entretanto qualquer palavra a mais ou um passo errado poderiam desencadear uma cadeia de consequências que seria impossível travar.”

Neste momento isso não existe. Hoje não há regras bem definidas como nessa altura. O mais importante é que se cria a sensação que aquilo que antes era um embrulho ideológico, hoje se torna essencial. As constantes sobreposições de discursos sobre a democracia, liberdade de escolha, paz e estabilidade, acabam por confundir tudo. O nível de incompreensão mútua está aumentando.

Acontece também, certamente, aquilo que não existia durante a Guerra Fria – a personalização. O sentimento de ódio pessoal. Entretanto o presidente Putin foi demonizado de uma forma que nunca foi usada nem com Brezhnev, com Khruschev ou mesmo com Andropov.

No meio de todo esse frenesim nós atravessamos uma ilusão de reviver o passado. Claro que existe um terceiro fator que distingue claramente a atual situação da que se vivia há 30 anos e que é a China. Dela dependem cada vez mais coisas, ano após ano.

Vivemos certamente um tipo completamente diferente de relações russo-americanas das que existiam durante os anos da Guerra Fria. Isso torna ainda mais estranho o fato de Moscou e Washington voltarem a ser os únicos a assumir uma responsabilidade estratégica.

Resumindo, os destinos do mundo voltam a depender da Rússia e dos EUA. A história fechou mais um círculo. Gostaríamos de pensar que este é um movimento em espiral e que ambas as grandes potências, que definem a agenda geopolítica, iniciarão um novo capítulo nas relações bilaterais com base no respeito de ambas pelas linhas vermelhas que em caso algum deverão ser transpostas.1

Cooperação entre Rússia e OTAN é necessária não somente à Rússia

No encontro dos chefes dos serviços diplomáticos de 28 países-membros da Aliança do Atlântico Norte foi anunciado que a OTAN quer continuar a colaborar com a Rússia no Afeganistão mas irá congelar por três meses todas as demais formas de “cooperação militar e civil concreta” com Moscou.

O representante oficial do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Alexander Lukashevich, declarou que esta decisão não vai beneficiar ninguém e que a situação criada provoca um efeito de déjà vu.

Realmente, não é pela primeira vez que a Aliança recorre a esta retórica ameaçadora. O mundo já ouviu algo semelhante depois do conflito com a Geórgia por causa do ataque desta última contra a Ossétia do Sul em 2008. Naquela ocasião,e a OTAN suspendeu por três meses a colaboração com Moscou mas a seguir restabeleceu-a na íntegra. Aliás, desta vez existem certas peculiaridades, ou seja, a atividade excessiva e simultânea da Aliança e do seu líder real, os EUA, na Europa Oriental, no espaço da CEI e, especialmente, na Ásia Central. Tem-se a impressão de que Washington interpreta os êxitos geopolíticos da Rússia como um insulto pessoal e como um desafio à sua hegemonia mundial.

Os Jogos Olímpicos de Sochi, o impedimento da operação militar na Síria, um certo progresso no tocante ao programa nuclear iraniano e a criação da Aliança Econômica da Eurásia viraram um osso atravessado na garganta dos estrategistas ocidentais e eles anseiam por uma revanche que sirva de lição para todos. A “espoleta” que deu início à fase ativa da confrontação com Moscou foi a recuperação pela Rússia da Crimeia, o seu território histórico. Uma das causas verdadeiras, mas cuidadosamente camufladas, são os problemas financeiros da Aliança. Eis a opinião a este respeito do presidente do fundo Novaya Evraziya (Nova Eurásia) Andrei Kortunov:

“A maioria dos membros da Aliança não cumpre o compromisso, assumido anteriormente, de destinar no mínimo 2% do seu PIB para a defesa. Além disso, a Aliança está um tanto desmoralizada, visto que os últimos anos tornaram evidente a sua ineficiência no Afeganistão e numa certa medida também na Líbia. Neste último caso, a operação não foi tão bem sucedida como os estrategistas ocidentais esperavam. É preciso ter também em conta que nos países da Europa Central existe a tendência de pânico e as forças da direita aproveitam-se disso. Há quem afirme que a Rússia vai invadir logo amanhã os países bálticos e que por isso é preciso consolidar com urgência a segurança.”

Eis os planos concretos da OTAN que já estão em fase de realização: pretende-se incorporar a Armênia, o Azerbaijão e a Moldávia nos projetos da aliança de aquisição de armas e de elevação do seu potencial militar. Os dirigentes da Aliança querem que os exércitos destes três países se tornem compatíveis com os padrões da OTAN a fim de conseguir um trabalho conjunto eficiente. Erevan, que leva a cabo a política de amizade com Moscou, já declarou que não pretende ampliar os formatos de cooperação com o bloco ocidental.

Na cúpula da OTAN em Bruxelas foi também resolvido elevar o nível de capacidade de defesa dos próprios países da Aliança no contexto da crise ucraniana, assim como o poderio militar da Ucrânia. O Pentágono analisa a possibilidade de envio de mais um navio de guerra para o mar Negro e já solicitou à Romênia a permissão de aumentar o número dos seus militares e dos aviões numa das bases situadas neste país. O número de caças estacionadas nos países bálticos foi duplicado.

A intensificação da tensão e as previsões apocalípticas a respeito da Rússia, não passam do biombo destinado a manter o controle da Aliança sobre regiões inteiras e, inclusive, ampliar a zona deste controle. No entanto a parceria entre a OTAN e Moscou é garantia da segurança global em vista da ameaça global do terrorismo, crescimento do extremismo e do radicalismo religioso no Norte da África e no Próximo Oriente e, finalmente, em vista do problema do Afeganistão. Eis a opinião do doutor em ciências políticas Vladimir Shtol:

“O programa de colaboração entre a Rússia e a OTAN sempre foi um dos fatores mais importantes no plano de consolidação da segurança europeia e internacional. E hoje não existe realmente uma variante melhor no plano do modelo ou da concepção. Por outro lado, é preciso compreender que a Rússia de hoje não é o país dos princípios da década de 90 – é um outro jogador, com outras ambições e tendências. A julgar por tudo, a direção da OTAN não consegue mudar de opinião e compreender que a situação geopolítica geral no mundo está mudando e que estas mudanças não seguem a via de ampliação das possibilidades dos americanos e da Aliança, mas, sim, a via de surgimento de novos centros de força e que este último papel é desempenhado pela Rússia, a par da China.”

Está claro que, cedo ou tarde, as paixões irão amainar. O que importa é cuidar de que antes que isso aconteça não sejam dados passos imprudentes, capazes de exercer influência negativa sobre o equilíbrio frágil que se consegue manter no mundo.2

[1] Autor: Serguei Duz – Fonte: Voz da Rússia
[2] Autor: Ilia Kharlamov – Fonte: Voz da Rússia