A questão não é apenas Obama, EUA já influi menos em outros países.


Os EUA precisam se unir e promover alterações internas se quiserem ter a influência necessária para reconstruir outros países.

Ultimamente tem havido um festival de comentários lamentando a política externa covarde de Barack Obama. Se ao menos tivéssemos um presidente que montasse cavalos sem camisa, lutasse com tigres ou abocanhasse um pedaço de um país vizinho, nós nos sentiríamos mais seguros. Vossa Excelência, eu me levanto em defesa – parcial – do sr. Obama.

Permita-me começar fazendo uma pergunta que fiz sobre outros países: a política externa americana de hoje está como está por Obama ser o que é (cerebral, cauteloso, desapaixonado) ou Obama está como está em política externa porque os EUA estão como estão (chamuscados por duas guerras e enfraquecidos por uma grande recessão) ou porque o mundo está como está (cada vez mais cheio de Estados falidos e aliados americanos enfraquecidos)?

A resposta é um pouco de tudo, mas eu darei muito mais ênfase à segunda possibilidade. A política externa e a nossa habilidade e disposição de agir no mundo envolvem três coisas: interesses, valores e influência. Temos interesse em nos envolver na Síria ou na Crimeia, nossos valores estão em jogo, e – se isso for verdade – teremos influência para fazer as coisas penderem de maneira sustentável para o nosso lado a um custo acessível?

A influência decorre de duas coisas: a quantidade de recursos econômicos e militares que podemos mobilizar e a unidade de propósito de nossos parceiros no terreno e de nossos aliados em outros lugares.

Eu diria que boa parte do que torna os EUA menos ativos no mundo de hoje é produto da redução de nossa própria influência em razão de ações empreendidas por governos anteriores. As decisões das equipes de George H. Bush e de Bill Clinton de expandir a Otan plantaram as sementes de ressentimento que ajudaram a criar o putinismo.

A equipe de George W. Bush não só presidiu duas guerras malsucedidas, como rompeu com a tradição e cortou impostos, em vez de aumentá-los, para financiar essas guerras, fragilizando nossa economia. O planejamento das guerras foi uma aberração, a execução pior ainda e muitos de nossos “aliados” se mostraram corruptos ou usaram nossa presença para perseguir velhos inimigos.

Como alguém que queria que nos associássemos aos iraquianos para tentar construir uma democracia naquele país – no coração do mundo árabe após o 11 de Setembro -, eu certamente notei e aprendi várias coisas: onde temos parceiros reais – como os curdos, que são a grande história de sucesso não contada da guerra do Iraque -, uma ajuda americana limitada pode ser de grande valia. Aliás, alguém notou que as duas maiores reformas bem-sucedidas no Oriente Médio muçulmano hoje – Tunísia e Curdistão – são lugares onde nosso envolvimento foi nulo? Eles a quiseram e eles a fizeram.

No entanto, onde nossos aliados eram poucos ou estavam muito divididos – Líbia, Síria, Afeganistão e Iraque – seria preciso um envolvimento americano muito mais profundo e mais prolongado para criar uma nova ordem do que a maioria dos americanos toleraria. Fingir que podemos intervir com pouco custo e sem atuar no campo de batalha (vejam a Líbia) e fingir que a prudência de Obama é porque ele sempre foi um medíocre organizador comunitário também é bobagem.

A maioria dos presidentes faz seu nome em política externa atacando inimigos fortes, mas a maioria das ameaças à estabilidade global hoje são Estados em desintegração. Eu adoraria ajudar os reformadores ucranianos a construírem uma democracia funcional, mas essa é uma tarefa tão desencorajadora que seus próprios políticos gastaram duas décadas saqueando o país, de modo que a influência requerida para promover a mudança – US$ 30 bilhões em fundos de salvamento – é enorme.

Precisamos conter a China na Ásia, mas isso não é fácil quando devemos quase US$ 1,3 trilhão a Pequim em razão de nosso desregramento alimentado pelo crédito. Apoio resistir a uma intervenção de Putin na Ucrânia, mas é difícil enfraquecer esse “petroditador” sem uma política nacional de energia doméstica que derrube o preço do petróleo e crie alternativas.

É verdade que Obama poderia fazer mais para tomar as rédeas da situação na Ucrânia, mas também é verdade que Gerard Schroeder, ex-chanceler da Alemanha, hoje preside o conselho de uma gigantesca companhia de petróleo russa. Pense nisso. Os europeus não querem peitar Putin.

Nosso maior problema, porém, não é a Europa ou Obama. Nosso maior problema somos nós e nossa própria paralisia política. O mundo leva os EUA a sério quando nos vê fazendo de maneira unida coisas grandes e árduas – quando lideramos pelo exemplo. Se quisermos nos dedicar mais à reconstrução de nações no exterior, precisamos nos empenhar mais na construção do nosso próprio país – com investimentos em infraestrutura, substituição de impostos de renda e corporativos por um imposto sobre o carbono, um novo grande impulso para a eficiência energética e o gás natural explorado de maneira apropriada, a construção de competências e a reforma da imigração, além de um reequilíbrio fiscal gradual no longo prazo. É assim que nos fortaleceremos e enfraqueceremos Putin.

O mais assustador para mim, no mundo atual, é o fato de que não estamos nem realizando uma reconstrução inteligente de países no exterior para tornar o mundo mais estável, nem uma reconstrução de nação inteligente em casa para tornar os EUA mais resistentes e fortes. Precisamos das duas coisas para ficarmos seguros. É difícil trocar um pneu furado quando o macaco está quebrado ou está apoiado em areia movediça. Isso não tem a ver apenas com Obama. 1

Corrupção e ascensão do extremismo.

Existe uma evidente correlação entre a atividade corrupta de governos e o aumento do radicalismo militante.

O presidente Barack Obama precisa contar com líderes confiáveis nos países que ele procura ajudar para o sucesso dos objetivos da política externa americana. Mais do que Obama, serão esses líderes que determinarão o resultado do esforço americano.

Antes de falarmos sobre a Ucrânia, vamos analisar os homens com os quais Obama teve de tratar até agora. No Iraque, o premiê xiita, Nuri al-Maliki, subiu ao poder em 2006 e vem usando sua autoridade para destruir a oposição e perpetuar-se no cargo, ignorando o conselho dos EUA de fazer um acordo com os sunitas e curdos do país. Consequentemente, ocorreu novo surto de violência e o retorno dos insurgentes sunitas ligados à Al-Qaeda.

No Afeganistão, o presidente Hamid Karzai, outro remanescente da era George W. Bush, deu publicamente as costas às forças militares americanas, que condena por matar e ferir civis afegãos. E, em particular, sugeriu que os americanos ajudaram a oposição taleban ao seu governo. A insatisfação é mútua, como demonstra o recente livro de memórias do ex-secretário da Defesa Robert Gates, segundo o qual Obama “não suporta Karzai”.

No Egito, Obama tratava com Hosni Mubarak na época em que seus quase 30 anos ditadura estavam no fim. Agora, poderão surgir complicações para o apoio americano se o ex-comandante das Forças Armadas, Abdel Fatah al-Sissi, vencer as eleições dos dias 26 e 27 e cumprir a promessa de acabar com a Irmandade Muçulmana.

Na Líbia, as forças americanas, juntamente com a Otan, ajudaram a derrubar Muamar Kadafi há quase três anos. No entanto, o governo central da Líbia continua num constante estado de tumulto, porque seu Parlamento eleito, aparentemente, não tem condições de agir em razão da rivalidade política.

Na Síria, os EUA tiveram problemas para identificar e ajudar os grupos que pretendem financiar, porque a oposição ao regime de Bashar Assad inclui terroristas ligados à Al-Qaeda.

Mais recentemente, as atenções do mundo se concentraram na Nigéria e no sequestro de cerca de 300 estudantes pelo grupo Boko Haram, há um mês. O presidente Goodluck Jonathan demorou três semanas para admitir publicamente o sequestro e aceitar a ajuda americana na busca das meninas.

Um elemento comum liga esses líderes que caíram em desgraça: a corrupção dos seus governos. Sarah Chayes, do Carnegie Endowment for International Peace, vem estudando a correlação entre a corrupção e o aumento do extremismo militante. “Quase todos os países que enfrentam uma insurgência extremista, da Nigéria ao Afeganistão, são governados por uma camarilha de cleptomaníacos”, escreveu ela em um artigo no Los Angeles Times.

Em fevereiro, Jonathan demitiu o presidente do banco central, que denunciara a falta de pelo menos US$ 20 bilhões das receitas do petróleo. “Acredita-se que a maior parte desses bilhões está sendo desviada para os bolsos do presidente e de seus apaniguados – com a ajuda do ministro do Petróleo, encarregado da contabilidade”, escreveu Chayes.

Uma pesquisa de 2011, realizada pela Fundação Internacional de Sistemas Eleitorais, concluiu que mais de nove em cada dez ucranianos acreditam que a corrupção é comum na Ucrânia. O problema vai muito além da polícia, dos tribunais e dos políticos eleitos. Na Ucrânia, as pessoas precisam fazer um pagamento extra nos hospitais e escolas para garantir atendimento.

Na época da Revolução Laranja, todo candidato político prometeu acabar com a corrupção, incluindo Viktor Yanukovich, o presidente pró-Rússia, eleito em 2010 e recentemente destituído. Em 2012, ele assinou uma lei de combate à corrupção, mas, dois meses depois, firmou outra que acabava com a concorrência pública em contratos de estatais, facilitando o caminho para a fraude.

Faltando apenas alguns dias para as eleições presidenciais no país, o favorito é Petro Poroshenko, de 48 anos, um bilionário que há 16 anos entra e sai da composição dos governos. Ele se tornou um dos dez homens mais ricos da Ucrânia com uma holding que inclui as principais fábricas de chocolate do país, fábricas de automóveis, estaleiros e o canal de TV que teve um papel preponderante na cobertura dos protestos que levaram à saída de Yanukovich.

Numa entrevista para o Washington Post, Poroshenko disse: “Um desafio para o futuro da Ucrânia é a modernização do país e uma reforma que leve à tolerância zero para a corrupção”. Parece excelente, mas não podemos esquecer da memorável tirada do procurador-geral John Mitchell, dos EUA, no governo Nixon. “Vejam o que fazemos e não o que dizemos”.

[1] Tradução: Celso Paciornik, autores: THOMAS L. , FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES – fonte: O Estado de S.Paulo. [2] Tradução: Anna Capovilla, autor: Walter Pincus – fonte: The Washington Post/O Estado de S.Paulo