O que controlar a China tem a ver com os conflitos na Ucrânia: Washington trabalha para a Rússia entrar no conflito.


China-Russia realizam exercícios navais no Mar do Sul da China. foto: thelastgreatstand.com

“Washington quer enfraquecer Moscou economicamente, cortando suas receitas do gás, incapacitando assim sua defesa ou a defesa dos seus interesses. Uma integração econômica entre Ásia e Europa não interessa aos EUA.  Uma possível aliança de fato entre Rússia e União Europeia seria uma ameaça direta à hegemonia global dos Estados Unidos.”

As provocações dos Estados Unidos na Ucrânia não podem ser entendidas sem se entender antes o “Pivoteamento para a Ásia” de Washington, que faz parte de um plano estratégico mais amplo que transfira a atenção do Oriente Médio para a Ásia. Atualmente, o assim chamado “reequilíbrio” é um projeto para controlar, de maneira compatível com as ambições hegemônicas dos Estados Unidos, o crescimento da China. Há várias correntes de pensamento sobre como se poderia conseguir isso, mas falando bem simplesmente, elas acabam caindo em uma de duas categorias: “matadores de dragões” e “amigos do panda”. 

Matadores de dragões são a favor de uma estratégia de contenção, enquanto os amigos do panda são a favor de uma espécie de noivado. Qual política será adotada ainda não foi objeto de escolha definitiva, mas já ficou claro, pelas hostilidades no Mar do Sul da China e Ilhas Senkaku, que o plano dependerá muito de força militar. 

Então, o que é que controlar a China tem a ver com a poeira levantada na Ucrânia?
 

Tudo. Washington vê a Rússia como uma crescente ameaça a seus planos de dominação regional. Este é o problema: Moscou cada vez mais se fortalecendo com a expansão de sua rede de oleodutos e gasodutos para a Europa, através da Ásia Central. Não por outra razão, Washington decidiu usar a Ucrânia como o palco para um ataque à Rússia, porque uma Rússia forte e que esteja economicamente integrada com a Europa é uma ameaça à hegemonia dos Estados Unidos. Washington precisa de uma Rússia fraca e que não ameace sua presença na Ásia Central ou seus planos de controlar recursos energéticos vitais.

Atualmente a Rússia fornece cerca de 30% (trinta por cento) do gás natural usado na Europa Ocidental e Central, dos quais 60% (sessenta por cento) passam pela Ucrânia. O povo e as empresas da Europa necessitam desse gás para ou esquentar suas casas ou mover suas máquinas. O fortalecimento mútuo de vendedores e compradores é o que resulta das relações comerciais entre Rússia e União Europeia. Os Estados Unidos nada ganham com a parceria entre União Europeia e Rússia, sendo esta a causa que faz Washington querer bloquear o acesso de Moscou a mercados tão essenciais. Essa forma de sabotagem comercial é ato de guerra.

Ao mesmo tempo, as grandes companhias petrolíferas ocidentais pensaram que poderiam competir com Moscou construindo gasodutos alternativos, o que significaria atender à prodigiosa demanda da União Europeia por gás natural. Porém o plano falhou, e então Washington resolveu apelar para o plano B; interpondo-se entre os dois parceiros comerciais, os EUA esperam supervisionar de perto a distribuição futura de suprimento de energia e controlar o crescimento econômico em dois continentes.

O problema que Obama et caterva terão será convencer o povo da União Europeia que seria do seu interesse pagar o dobro do que pagam em 2014 para aquecer as casas em 2015, porque é isso o que vai acontecer se o plano de Washington for bem sucedido. No empenho de cumprir esta meta, os Estados Unidos empreendem todos os esforços para atrair Putin a uma confrontação, e por isso a mídia o denuncia como terrível agressor e ameaça enorme para a segurança da União Europeia. Alcançariam a justificativa necessária para interromper o fluxo de gás da Rússia para a UE, mediante a demonização de Putin e, ao mesmo tempo, estariam enfraquecendo a economia russa, enquanto providenciariam novas oportunidades à OTAN para estabelecer bases operacionais no perímetro ocidental da Rússia.

Para Obama, não faz a menor diferença se o povo será explorado em relação ao preço do gás ou se simplesmente congelará até a morte no inverno. O que lhe importa mesmo é o “pivoteamento” para os mercados mais promissores e prósperos do próximo século. O que importa é destruir Moscou, cortando fundo nas suas receitas do gás e reduzindo sua capacidade de autodefesa, bem como de defender os próprios interesses russos. O que importa é a hegemonia global e dominar o mundo. Isso é o que realmente importa. Todo o mundo sabe disso. Tentar acompanhar os acontecimentos da Ucrânia como se fossem isolados do panorama geral é simplesmente ridículo, porque eles fazem parte da mesma estratégia doentia. Parece um filme antigo sobre a segurança nacional dos Estados Unidos, narrado pelo conselheiro Zbigniew Brzezinski em discursos sobre política externa – no que diz respeito aos EUA, não é lógico separar as políticas para a Europa e da Ásia:

“Com a Eurásia desempenhando atualmente um papel decisivo no tabuleiro de xadrez da geopolítica, já não basta ter uma política para a Ásia e outra para Europa. No território da Eurásia, o que acontece com a distribuição do poder tem importância vital para a primazia global da América e seu legado histórico” (“O perigo da guerra na Ásia”, World Socialist Web Site).

Tudo se resume ao “pivoteamento” para a Ásia e ao futuro do Império. É por esse motivo que a CIA e o Departamento de Estado americanos engenharam um golpe de estado com o fim de expulsar do poder o presidente Victor Yanuchovych, colocando em seu lugar uma marionete que obedecerá bovinamente às ordens de Obama. Por este motivo, o primeiro ministro imposto, Arseniy Yatsenyuk, ordenou duas “operações antiterror”: reprimir ativistas desarmados no oriente da Ucrânia que se opõem à Junta no poder em Kiev. Por este motivo, a Administração Obama tem evitado travar com Putin um diálogo construtivo destinado a encontrar uma solução pacífica para a crise atual na Ucrânia. Tudo isso ocorre porque Obama quer atrair Putin para uma prolongada e desgastante guerra civil que enfraquecerá a Rússia, colocará Putin em descrédito e fará a opinião pública pender para o lado dos Estados Unidos e da OTAN. Por que Washington afasta enfaticamente uma política que certamente faria alcançar o objetivo que supostamente se busca? Porque sim. Leiam um trecho de artigo publicado no site antiwar.com:

“Relatórios oriundos de Moscou dizem que o Presidente Putin “encerrou” todas as conversações com o Presidente Obama, e disse que “não está interessado” em falar com os Estados Unidos novamente sobre o atual desenvolvimento da crise, de suas ameaças e atitudes hostis.”

Putin e Obama falaram regularmente por telefone sobre a Ucrânia em março e início de abril, mas Putin não tem conversas diretamente com  o presidente Obama desde 14 de abril, e o Kremlin informa não ver mais nenhuma necessidade de mais conversações.” (“Putin suspende negociações em meio às ameaças de sanções” antiwar.com)

Ele nada tem a ganhar em conversações com Obama. Putin já sabe o que Obama quer. Obama quer guerra. Isso é assim, porque o Departamento de Estado e a CIA querem derrubar seu governo. Não é por outro motivo que o diretor da CIA John Brennan surgiu em Kiev justamente um dia antes da ordem de Yatsenyuk determinando a primeira tentativa de reprimir os ativistas pró Rússia no leste. É também por isso que o vice-presidente Joe Biden esteve em Kiev, “por coincidência”, apenas horas antes de Yatsenyuk lançar a segunda tentativa de repressão aos ativistas no oriente da Ucrânia. Finalmente, é por esse motivo que Yatsenyuk promoveu o cerco à cidade oriental de Slavyanski, enquanto prepara um ataque contra os ativistas pró Rússia. A causa de tudo isso é a crença dos Estados Unidos de que uma conflagração violenta serve aos seus interesses geopolíticos na área. É inútil conversar com esse pessoal sobre o assunto, o que levou Putin a parar de tentar.

Atualmente a administração Obama está forçando uma nova rodada de sanções contra a Rússia, mas os membros da União Europeia quanto a isso estão lentos, arrastando os pés. Segundo a RT: 
“No momento, não há consenso entre os membros da União Europeia sobre quais medidas contra a Rússia seriam aceitáveis, ou mesmo se são necessárias” disse uma fonte da diplomacia europeia à agência Itar-Tass. 

Falando sob condição de anonimato, um diplomata afirmou que apenas uma invasão abertamente realizada pela Rússia contra a Ucrânia ou provas irrefutáveis de militares russos clandestinamente presentes na Ucrânia causariam uma mudança de posição da União Europeia em relação às sanções econômicas. “Até agora, todas as supostas evidências tornadas públicas tanto por Kiev quanto por Washington sobre o alegado envolvimento de agentes russos na Ucrânia se revelaram inconclusivas ou mesmo falsas” (“Estados Unidos falharam na imposição de sanções econômicas contra a Rússia através de seus aliados da União Europeia” – RT).

Mais uma vez: o envolvimento de tropas russas no conflito é essencial para que Washington alcance seus objetivos.

No último domingo, a RT exibiu imagens de satélite mostrando forte acúmulo de tropas em torno da cidade ucraniana de Slavyansk. De acordo com o repórter da Rússia Today: 

“160 tanques, 230 APCs (blindados de transporte) e BMDs (blindados para operações de infantaria) e pelo menos 150 peças, de artilharia a lançadores de mísseis, incluindo “Grad” e “Smerch”, lança-mísseis múltiplos, foram deslocados para a área. Um total de 15.000 tropas se posicionam nas proximidades de Slavyansk”, disse ele.

Sergey Shoigu, Ministro da Defesa russo, afirmou que o grande incremento de tropas ucranianas, assim como os exercícios militares e desenvolvimento adicional de forças armadas da OTAN na região “forçaram” a Rússia a responder com seus próprios exercícios militares… “Se a opção de Kiev for a escalada de repressão aos insurgentes na Ucrânia oriental usando contra eles armas assim pesadas, então a Rússia se reserva o direito de usar seus próprios meios militares para deter a carnificina.”

Por várias vezes Putin declarou que essa será a resposta, caso cidadãos de etnia russa sejam mortos na Ucrânia. Essa é a linha vermelha. Sergey Lavrov, Ministro de Relações Exteriores da Rússia fez questão de reforçar esta mesma mensagem na entrevista concedida na última semana para Sophie Shevardnaze, repórter da RT. Lavrov, normalmente amável, condenou o ataque de Yatsenyuk a civis na Ucrânia como “criminoso” e avisou que qualquer ataque contra cidadãos russos será considerado um ataque contra a própria Federação Russa.

A declaração foi seguida de uma preocupante movimentação de tropas russas na fronteira da Ucrânia, o que indica que a Rússia está em preparos para uma intervenção, para acabar com a violência contra civis. De acordo com a agência russa de notícias Star Tass, “o Ministro da Defesa Sergey Shoigu afirmou que “a partir de hoje, os exercícios dos grupos de batalhões táticos começarão nas áreas de fronteira com a Ucrânia.” Também a aviação efetuará voos de simulação de ações militares perto da fronteira.”

Então, esta é a situação: no fim das contas, parece que Putin acabará sendo levado para a batalha, conduzido pelas provocações de Obama. Mas será que as coisas tomarão mesmo o rumo que Obama acha que tomarão?

Será que Putin seguirá mesmo o roteiro escrito por Washington e deixará suas tropas no leste, onde serão atormentadas por guerrilhas fundadas e apoiadas pelos Estados Unidos e por neonazistas, ou tem alguma outra carta na manga como, por exemplo, uma rápida blitz até Kiev com imediata remoção da Junta governamental, chamando em seguida forças de manutenção que impeçam qualquer violência adicional, voltando em seguida para suas próprias fronteiras, em segurança?

Qualquer coisa pode acontecer e não demoraremos muito para ver sua implementação. Se o exército de Yatsenyuk atacar Slavyansk, Putin enviará seus tanques e um novo jogo começará.

Autor: Mike Whitney

Fonte: http://www.counterpunch.org/2014/04/28/why-is-putin-in-washingtons-crosshairs/