Sem a ajuda do Kremlin, russos atuam na Ucrânia.


Donetsk, Ucrânia – Há pouco tempo, Alexander Borodai, moscovita desenvolto que usa um cavanhaque elegante, trabalhava como consultor para um fundo de investimentos em Moscou. Hoje, diz ser o primeiro-ministro da autoproclamada República Popular de Donetsk e circula pela cidade comandando o que chama de centenas de combatentes da Rússia.

Borodai é russo, mas diz ter vindo para o leste da Ucrânia para ajudar os falantes de russo daqui a protegerem seus direitos e que não tem ligação com o Kremlin.

“Sou um cidadão comum da Rússia, não um funcionário do governo”, afirmou Borodai, 41. “Muitos russos estão vindo para ajudar essas pessoas.”

Ao contrário da Crimeia, que foi tomada por tropas russas com uniformes genéricos neste outono, o leste da Ucrânia está virando um jogo sutil no qual mercenários russos comandam ações, enquanto o Kremlin nega plausivelmente seu envolvimento.

Diante de uma antiga base da Guarda Nacional da Ucrânia, agora ocupada por uma milícia rebelde, um jovial combatente russo da Ossétia do Sul cujo apelido é Mamai disse que cruzou a fronteira há cerca de um mês com outros voluntários.

Alexander Borodai, à direita, diz ser o premiê da República Democrática de Donetsk, na Ucrânia

O edifício do governo central, agora controlado pelas forças de Borodai, tem uma faixa com a foto de Igor Strelkov, amigo de Borodai e cidadão russo que é líder rebelde na fortaleza de Slovyansk. Em 29 de maio, líderes rebeldes mandaram 33 caixões para a Rússia, por uma fronteira notoriamente porosa, anunciando que a maioria dos mortos (de uma batalha com o Exército ucraniano três dias antes) era composta por cidadãos russos.

Putin pode não estar no comando desses acontecimentos, mas certamente é quem mais se beneficia deles. A instabilidade no leste da Ucrânia torna o país menos palatável para a União Europeia e mais vulnerável a exigências russas, formando uma espécie de apólice de seguro para a futura influência da Rússia, que, pelo menos por ora, tem evitado mais sanções do Ocidente.

“Eles estão criando fatos in loco”, disse Dmitry Trenin, diretor do Centro Carnegie em Moscou. “A meta é clara: criar garantias estruturais contra a possível ascensão da Otan na Ucrânia.”

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia expressou “grande preocupação com o agravamento da situação no leste da Ucrânia”, mas não mencionou as mortes dos russos.

Petro O. Poroshenko, que foi eleito presidente com uma vitória esmagadora no mês passado, deve ter um encontro com Putin neste inverno. Se eles conseguirem fechar um acordo, o apoio russo aos separatistas pode minguar, dizem especialistas.

No entanto, muita coisa mudou entre a Ucrânia e seu poderoso vizinho nos últimos meses, e não está claro o quanto seus interesses poderão convergir. Kiev ainda tem cartas na manga.

Em 26 de maio, seus militares infligiram sérios danos à força separatista de maioria russa, matando mais de 40 combatentes e aumentando a possibilidade de êxito dos militares.

Por ora, a estratégia da Rússia parece ser desestabilizar ao máximo a Ucrânia sem deixar provas conclusivas que possam desencadear mais sanções.

“Acho que ele nem pestanejou”, disse Matthew Rojansky, diretor do Instituto Kennan, ligado ao Centro Woodrow Wilson, referindo-se à decisão de Putin de não invadir o leste da Ucrânia.

“Ele abriu mão disso, pois enxerga outro desdobramento que lhe agrada mais.”

Isso deixa Borodai como uma figura central no futuro imediato da Ucrânia. Ele vem de um grupo de ultranacionalistas que trabalhava no jornal “Zavtra”, de extrema direita, nos anos 1990. Suas ideias pan-eslávicas, visando a união dos povos eslavos, eram consideradas marginais na época.

Agora, porém, eles estão no poder ajudando a formular a atual visão de mundo do Kremlin, disse Oleg Kashin, jornalista investigativo russo.

Em uma entrevista, Borodai disse que ele e Strelkov haviam ido à Transnístria, região dissidente na Moldávia, para defender os direitos dos russos na década de 1990. Ele declarou que acredita na ideia de uma Grande Rússia e que veio à Ucrânia para concretizá-la. “Ucranianos de verdade têm o direito de viver como quiserem”, disse ele.

Kashin não acredita que Borodai e Strelkov estejam agindo em nome do governo russo.

“Isso não tem a mão de Moscou, Borodai é quem está no comando”, disse Kashin.

A antiga base da Guarda Nacional estava agitada recentemente com a primeira reunião de governo de Borodai. Uma minivan branca com homens armados usando máscaras inteiriças pretas saiu por um grande portão metálico, com suas cortinas púrpuras parcialmente cerradas.

Diante do portão, Mamai, o combatente originário da Ossétia do Sul, disse que não veio para a Ucrânia por dinheiro. Ele tinha uma empresa de segurança para bancos em Vladikavkaz, onde mora. “Todos os que querem estar do lado da Rússia são nossos irmãos”, afirmou.

Autor: Sabrina Tavernise.

Fonte: Jornal Folha de São Paulo.