Crescimento econômico negativo: Uma nova recessão e um novo mundo sem a arrogância de Washington?


Uma cifra definitiva para o real crescimento do PIB,  Produto Interno Bruto, dos Estados Unidos nos primeiros quatro mêses de 2014 foi apresentada. A sifra não é a de 2.6% em taxa de crescimento, como previsto em janeiro desse ano pelos economistas que-não-sabem-de-nada. A sifra definitiva é de 2.9 % de declínio.

Essa taxa negativa é ela mesma insuficientemente avaliada. Essa sifra foi obtida através de uma deflação nominal do PIB, que avaliou a medida da inflação de maneira muito baixa, depreciando-a. Durante o período do governo de Clinton, a Comissão Boskin já tinha falsificado a medida da inflação para enganar as pessoas que recebiam fundos da Seguridade Social baseados nos ajustamentos dos custos de vida. Todos os que compram alimentos, gasolina, ou qualquer outra coisa, sabem muito bem que o nível da inflação é muito mais alto do que o oficialmente declarado.

É bem possível que a queda do PIB nos primeiros quatro meses tenha sido três vezes maior do que o dado oficialmente.

Independente disso, a diferença entre o previsto crescimento de + 2.6 % em janeiro e o real declínio de 2.9 % no final de março, é muito grande.

Qualquer um que seja realmente um economista e não pago pela Wall Street, pelo governo, ou pela classe dirigente, compreenderia que o previsto + 2.6 era fraudulento. Os salários, os ganhos ou rendimentos, do povo americano não foram aumentados e não cresceram, com exceção dos que fazem parte do 1 % da população. Nesse contexto tem-se que o único aumento de créditos que se deu foi o aumento do crédito dado a estudantes, uma vez que muitos dos que não conseguiram emprego se voltaram aos “estudos como uma solução.”

Numa economia baseada na procura por consumidores, a ausência de crescimento em rendimentos, e crédito, significa ausência de desenvolvimento econômico positivo.

A economia dos Estados Unidos não pode crescer porque as empresas e corporações, que foram pressionadas pela Wall Street, já deslocaram a economia dos Estados Unidos para fora do país. A produção dos produtos manufaturados dos Estados Unidos é hoje em dia feita no estrangeiro.

Olhe nas etiquetas das suas roupas, sapatos, para os seus utensílios de cozinha, para os seus computadores, para tudo mais. Os empregos dos profissionais liberais dos Estados Unidos, como os dos engenheiros de software, também já foram deslocados para o exterior. Uma economia que tem sua economia no estrangeiro, não é uma economia real. Essa deslocação da produção dos Estados Unidos para o estrangeiro se deu abertamente, enquanto figuras bem-pagas a serviço do mercado livre declaravam que os americanos estariam se beneficiando ao dar os tradicionais empregos da classe média americana para a Índia e para a China.

Já a dez ou vinte anos que eu venho expondo essas mentiras, o que faz com que eu agora já não mais seja convidado para dar palestras nas universidades americanas, ou em associações americanas de economistas. Tem-se aqui que economistas adoram o dinheiro que ganham para contar mentiras. Um economista que fale a verdade é a última coisa que eles querem ter em sua companhia.

Um declínio oficial de 2.9 % no primeiro quartal implica, ou supõe, um declínio do PIB também no segundo quartal.

Imagine agora quais seriam as consequências de uma recessão. Isso implicaria que anos de “flexibilização quantitativa” [lê-se impressão de dinheiro], sem precedentes, teria fracassado em seu objetivo de reanimar a economia. Isso significaria também que anos de fiscal défices teriam também fracassado no intento de reanimar a economia. Se nem a política fiscal, nem a política monetária, deram os desejados efeitos, o que então poderia reanimar essa economia?

Nada, com exceção do exigir o retorno da economia, que as corporações anti-americanas deslocaram para o exterior. Isso requeriria um governo digno de crédito. Infelizmente o governo dos Estados Unidos vem perdendo sua credibilidade desde o segundo termo do regime Clinton, sendo que o governo agora já não tem mais nenhuma credibilidade.

Hoje em dia já ninguém em qualquer parte do mundo acredita no governo dos Estados Unidos, com exceção dos americanos com grave disfunção cerebral, que acreditam no que lêem ou vêem apresentado pela “mídia das vertentes principais.” Tem-se aqui que a propaganda de Washington domina as mentes dos americanos, mas levanta desprezo e risadas por todos os outros lados do mundo.

A pobre aparência da situação econômica dos Estados Unidos já fez com que dois grandes lobbies de negócios dos Estados Unidos, a Câmara do Comércio e a Associação Nacional dos Industriais (ou o que sobrou dos mesmos) entrassem em conflito com o regime de Obama por causa das ameaças de novas sanções contra a Rússia.

De acordo com Bloomberg News, com início em 26 de junho, os grupos de comércio e negócios irão colocar anúncios no New York Times, Wall St Journal, e Washington Post, opondo-se a sanções adicionais contra a Russia. As organizações dos homens de negócios dos Estados Unidos dizem que as sanções irão prejudicar os seus lucros, o que resultaria em desemprego para os trabalhadores americanos.

Então, duas das maiores organizações de industriais e negociantes dos Estados Unidos, fontes importantes de contribuições para as campanhas políticas, acabaram juntando suas vozes às dos homens e mulheres de negócios da Alemanha, da França e da Itália.

Todo o mundo, com exceção do público americano, sabe que a “crise na Ucrânia” é inteiramente um trabalho feito por Washington. Os industriais e negociantes da Europa e dos Estados Unidos deverão estar a se perguntar: “porque teriam os nossos lucros e os nossos trabalhadores de sofrer para o bem da propaganda de Washington contra a Rússia?”

Obama não tem resposta. Talvez a escória neocon, Victoria Nuland, Samantha Powers, e Susan Rice possam vir com uma resposta a isso. Obama também poderia olhar para o New York Times, Washington Post, Wall Street Journal e Weekly Standard para explicar porque milhões de americanos e europeus teriam que sofrer para que o roubo da Ucrânia por Washington não caisse em perigo.

As mentiras de Washington estão a caminho de ajustar contas com Obama. A chanceler alemã Merkel já se encontra completamente abaixo dos caprichos de Washington, mas a indústria alemã também já está a dizer a ela que eles valorizam mais os seus negócios com a Rússia, do que estão dispostos a sofrer, a bem de Washington, e seu império. Os industriais, comerciantes e homens de negócios da França estão a perguntar a Hollande o que é que ele se propõe a fazer para os trabalhadores desempregados se ele, Hollande, continuar lado a lado com Washington. Os negociantes italianos também estão dizendo ao seu governo, na medida em que a Itália ainda possa se apresentar como tendo um, que os grosseiros americanos não tem bom gosto, e que sanções contra a Rússia significariam para a Itália um travão para o mais famoso e reconhecido setor econômico do país – produtos de luxo de alto estilo.

A dissidência com Washington e com as suas marionetes na Europa está se propagando. A última sondagem de pesquisas na Alemanha revelou que ¾ da população alemã rejeita a idéia de bases militares permanentes da OTAN na Polônia e nos países bálticos. A ex-Chekoslováquia, atualmente então Eslováquia e República Checa, apesar de agora serem membros da OTAN, recusaram-se a ter tropas americanas, ou da OTAN, em seus respectivos territórios. Foi dito por um ministro alemão recentemente que agradar a Washington requeria uma coisa equivalente a dar sexo oral por nada em retorno.

A tensão que idiotas em Washington estão levantando na OTAN pode muito bem fazer com que essa organização se desmembre. Reze para que isso aconteça. O pretexto para a existência dessa organização desapareceu conjuntamente com o colápso da União Soviética, a 23 anos atrás. No entanto, Washington esteve aumentando essa organização para muito além das fronteiras da mesma. A OTAN agora vai do Báltico a Ásia Central. Para dar uma razão de ser para as contínuas e caras operações da OTAN, Washington teve que fazer da Rússia um inimigo.

A Rússia não tem a menor intenção de ser um inimigo de Washington, ou da OTAN, tendo feito isso perfeitamente claro. Mas o complexo de segurança/militar de Washington, o qual absorve cerca de $ 1 trilhão de dólares anualmente, vindos do dinheiro dos altamente pressionados contribuintes, precisa de uma desculpa para manter os seus dividendos em estado fluido.

Infelizmente os idiotas em Washington escolheram para tanto um inimigo perigoso. A Rússia é um poder nuclear, um país de enormes dimensões, e estratégicamente aliada a China.

Só um governo afogando-se em arrogante orgulho, em hybris, ou um governo administrado por psicopatas e sociopatas, iria escolher um tal inimigo.

O presidente Vladimir Putin da Rússia já mostrou à Europa que as diretivas políticas de Washington no Oriente Médio e na Líbia não só foram fracassos totais, como também prejudicaram e continuam prejudicando tanto a Rússia como a Europa. Os tolos em Washington removeram nessas regiões governos que mantinham os extremistas islâmicos, os jihadistas, controlados. Agora os violentos extremistas estão a solta. No Médio Oriente eles estão demarcando novas fronteiras, redesenhando as fronteiras artificiais estabelecidas pelos ingleses e franceses, logo após a primeira guerra mundial.

A Europa, a Rússia e a China tem populações islâmicas. Esses países agora tem que se preocupar com a possibilidade de que a violência que Washington deslanchou possa ter efeitos destabilizadores em suas próprias regiões.

Em nenhum lugar do mundo alguém teria motivos para gostar de Washington. Menos que todos os próprios americanos, que estão sendo desprovidos de tudo, para que Washington possa mostrar sua força militar através do mundo. Os índices de aprovação de Obama estão num deprimente nível de 41%, e muitos poucos desejariam que Obama se mantivesse em ofício depois do fim do seu segundo termo. Em comparação, e em contraste, 2/3 da população russa gostaria que Putin se mantivesse como presidente depois de 2018.

Em março a agência de pesquisas de sondagens “Public Opinion Research Center” apresentou um relatório onde se mostrava que o índice de aprovação para a política do presidente Putin estava a 76%, apesar da agitação feita contra ele pelas Organizações Não Governamentais, NGOs, localizadas na Rússia, mas financiadas pelos Estados Unidos. Trata-se aqui de centenas de instituições agindo como quinta-colunas. Essas instituições foram estabelecidas na Rússia por Washington, nas duas últimas décadas.

Acima de todas as dificuldades políticas de Washington, tem-se que o dólar também está dando distúrbios e problemas. O dólar está sendo mantido a tona por mercados financeiros adulterados, e por pressões de Washington sobre países e estados em situação de vássalos, obrigando-os a apoiar o valor do dólar através de impressão de suas próprias moedas e depois então da compra de dólares. Para que o dólar se mantenha a tona, e não se afunde, uma grande parte do mundo está sendo economicamente inflado. Quando finalmente as pessoas se aperceberem de tudo e correr para o ouro, perceberão então que os chineses o possuem, em sua totalidade.

Sergey Glazyev, um consultor do Presidente Putin, disse ao presidente russo que só uma aliança anti-dólar, capaz de fazer falir o mesmo, seria capaz de deter a marcha das agressões de Washington. Essa tem sido minha opinião já faz um bom tempo. Não se terá paz enquanto Washington puder imprimir mais dólares, com os quais poderá então financiar mais guerras.

Como foi dito pelo governo da China, já está na hora para uma “des-americanização do mundo.” A liderança do mundo por Washington já fracassou completamente. Essa liderança produz nada mais que mentiras, violência, mortes, e promessas de mais violência. América é excepcional só no sentido de que Washington, sem remorso, já destruiu em sua totalidade, ou em parte, sete países nesse novo século [o que significaria então 13 anos]. A menos que Washington tenha sua liderança substituida por uma mais humana, a vida na terra não terá nenhum futuro.

Autor: Paul Craig Roberts

Artigo original em inglês : Negative Economic Growth in America: A New Recession and a New World Devoid of Washington’s Arrogance?