New York Times está perdido em sua propaganda da Ucrânia.


Até o final de Fevereiro, é planejada uma conferência na Cidade de Nova Iorque para discutir o risco da guerra nuclear se os computadores conseguirem o nível da inteligência artificial e tomarem decisões fora das mãos humanas. Mas já existe o perigo antiquado da guerra nuclear, iniciada pelo erro de cálculo humano, alimentado por arrogância e propaganda.

Um possível cenário como esse está se desenrolando na Ucrânia, onde a União Européia e os Estados Unidos provocaram uma crise política na fronteira da Rússia em Novembro de 2013, logo apoiaram um golpe de estado em Fevereiro de 2014 e apresentaram uma conta unilateral da guerra civil que se seguiu, jogando toda a culpa na Rússia.

Possivelmente o pior fornecedor desta propaganda no estilo da Guerra Fria foi o New York Times, que deu aos seus leitores uma dieta constante de reportagem parcial e análise, inclusive acusando agora os russos de um ressurgimento nos combates.

Unidirecionalmente o Times tem falsificado a narrativa da Ucrânia datando a origem da crise a vários meses depois da que de fato a crise começou. Deste modo, a história principal nas edições de sábado ignoraram a cronologia real de eventos e começou o relógio com o aparecimento das tropas russas na Criméia na Primavera de 2014.

O artigo do Times por Rick Lyman e Andrew E. Kramer disse:

“Um cessar-fogo de todo precário mas desapareceu, com líderes rebeldes que prometem ataques rápidos. Os civis estão sendo atingidos por morteiros mortais em pontos de ônibus. Tanques estão estrondando por estradas nevadas nas áreas controladas por rebeldes com soldados em uniformes verdes sem identificação sentados nas suas torres pequenas, acenando aos espectadores curiosos — um eco de inquietação dos ‘pequenos homens verdes’ cuja aparência na Criméia abriu este conflito teimoso na Primavera.”

Em outras palavras, a história não começa na queda em 2013, com a extraordinária intervenção dos Estados Unidos em assuntos políticos ucranianos – liderado por neoconservadores americanos, como o presidente da National Endowment for Democracy, Carl Gershman, a Secretária de Estado Assistente de Assuntos Europeus Victoria Nuland e o senador John McCain – nem no golpe apoiado pelos Estados Unidos no dia 22 de fevereiro de 2014, que desalojou o Presidente eleito Viktor Yanukovych e pôs um dos líderes escolhidos de Nuland, Arseniy Yatsenyuk, como Primeiro Ministro.

Não, porque se aquela história estivesse incluída, os leitores de Times poderiam ter de fato uma chance de uma compreensão equilibrada desta tragédia desnecessária. Para objetivos de propaganda, é melhor as câmeras começarem a gravar só depois que o povo da Criméia vote esmagadoramente para separar-se do estado fracassado da Ucrânia e reunir-se a Rússia.

Exceto o Times não referirá o referendo inclinado ou a vontade popular da gente da Criméia. É melhor fingir que tropas russas – “os pequenos homens verdes” – somente invadiram a Criméia e conquistaram o lugar contra a vontade do povo. As tropas russas estiveram já na Criméia como parte de um acordo com a Ucrânia de manutenção da base naval russa em Sevastopol.

Que conduz ao seguinte parágrafo da história do Times:

“A luta renovada quebrou qualquer esperança de refortalecer um cessar-fogo assinado no Setembro [2014] e honrou mais em nome do que em fato desde então. Também descartou a noção que o presidente de Rússia, Vladimir V. Putin, ficaria tão chocado pela rajada dupla de sanções Ocidentais e um colapso nos preços do petróleo que ele renunciaria aos separatistas para criar melhores relações com o Ocidente.”

Esse último ponto nos oferece o perigo do erro de cálculo humano dirigido pela arrogância. O erro-chave cometido pela UE e agravado pelos Estados Unidos foi assumir que uma oferta descarada de adquirir a Ucrânia para repudiar a sua relação de longo prazo com a Rússia e trazer a Ucrânia na aliança da OTAN não incitaria uma reação russa determinada.

A Rússia vê a perspectiva de forças militares da OTAN e as suas armas nucleares nas suas fronteiras como uma ameaça estratégica grave, especialmente com Kiev nas mãos de políticos direitistas raivosos, inclusive neo-nazistas, que consideram a Rússia como um inimigo histórico. Confrontado com tal perigo – especialmente com milhares de russos étnicos dentro da Ucrânia sendo massacrados – era bem certo que os líderes de Rússia não se renderiam meigamente a sanções Ocidentais e exigências.

Além disso, enquanto os Estados Unidos permanecem cativos à narrativa propagandista que o New York Times e outras passagens de meios de comunicação dominantes dos Estados Unidos divulgadas, o Presidente Barack Obama continuará quase seguramente ajustando a tensão. Fazer de outra maneira abriria Obama a acusações de “fraqueza”.

Durante o seu papel de dirigente de Estado , Obama pela maior parte apresentou-se como um pacificador, mas um desvio principal seu foi quando ele gabou-se sobre o sofrimento que as sanções organizadas pelos EUA infligiram à Rússia, cuja economia, ele vangloriou-se, ficou “em farrapos.”

Deste modo, com o Ocidente cheio de orgulhoso e a Rússia diante do que ela considera uma ameaça estratégica grave, não é difícil imaginar como a crise na Ucrânia pode intensificar-se até um estrondo violento entre forças da OTAN e russas com a possibilidade do novo erro de cálculo que traz armas nucleares ao jogo.

A Narrativa Atual

Não há nenhum sinal do New York Times ter qualquer pesar sobre a formação de um órgão de propaganda tosco, mas a título de prevenção alguém está ouvindo de dentro “o jornal da crônica,” vamos reerguer com alavanca a narrativa atual da crise da Ucrânia. Isso começou não na Primavera passada, como o Times fizeram que você acreditasse, mas justamente na queda de 2013 quando o Presidente Yanukovych avaliou o preço de um acordo de associação com a UE se isso ia requerer uma interrupção econômica com a Rússia.

Esta parte da narrativa foi bem explicada por Der Spiegel, o newsmagazine alemão, embora tomasse geralmente uma linha asperamente anti-russa. Mas, em uma parte retrospetiva publicada um ano depois que a crise começou, Der o Spiegel reconheceu que a UE e os líderes alemães foram culpados pelos erros de cálculo que contribuíram para a guerra civil na Ucrânia, em particular pela depreciação dos enormes custos financeiros à Ucrânia se essa quebra os seus laços históricos com a Rússia.

Em Novembro de 2013, Yanukovych aprendeu de especialistas na Academia Nacional de Ciências da Ucrânia que o custo total à economia de separar as conexões de negócios da Ucrânia com a Rússia de seria aproximadamente 160 bilhões de dólares, 50 vezes o valor de 3 bilhões de dólares que a UE tinha estimado, Der Spiegel informou.

Esse cenário atordoou Yanukovych, que suplicou pela ajuda financeira que a UE não pode fornecer, informou a revista. Os empréstimos ocidentais teriam de vir do Fundo Monetário Internacional, que exigia “reformas” dolorosas na economia da Ucrânia, modificações estruturais que fariam difíceis as vidas de ucranianos médios, inclusive o levantamento do preço de gás natural em 40 por cento e a desvalorização da moeda da Ucrânia, o hryvnia, em 25 por cento.

Com o oferecimento de Putin de um pacote de ajuda mais generoso de 15 bilhões de dólares, teve o apoio de Yanukovych apoiado fora do acordo da UE na Reunião da Sociedade Oriental da UE em Vilnius, na Lituânia, no dia 28 de novembro de 2013, que ele estava disposto a continuar negociando. A Chanceler alemã Angela Merkel respondeu “uma sentença pingando com desaprovação e sarcasmo frio voltado diretamente para o Presidente ucraniano. Sinto-me como se estivesse em um casamento onde o noivo de repente emitiu novas estipulações de última hora”, de acordo com a cronologia de Der Spiegels da crise.

Depois do colapso do acordo com a UE, os neoconservadores dos Estados Unidos foram trabalhar em mais uma “modificação de regime” – desta vez na Ucrânia – utilizando-se da decepção popular na Ucrânia ocidental sobre o acordo fracassado da UE como uma oportunidade de derrubar Yanukovych, o presidente constitucionalmente eleito cuja base política esteve na Ucrânia oriental.

A Secretária de Estado Assistente Nuland, uma remanescente do neoconservadorismo proeminente quem aconselhou o Vice-presidente Dick Cheney, a apoiar os demonstradores anti-Yanukovych na Praça Maidan em Kiev e recordou os líderes de negócios ucranianos que os Estados Unidos tinham investido 5 bilhões de dólares nas suas “aspirações européias.”

O Senador McCain, quem parece querer muito a guerra em todos os lugares, juntou direitistas ucranianos na animação teatral dos protestos no Maidan, e o fundo Doação Nacional para a Democracia (NED – National Endowment for Democracy) do norte-americano Gershman implementou suas operações políticas e dos meios de comunicação ucranianos em apoio às perturbações. Anteriormente em Setembro de 2013, o presidente de NED tinha identificado a Ucrânia como “o grande prêmio” e um passo importante em direção à perda do equilíbrio de Putin na Rússia. [Ver o “Neocons’ Ukraine-Syria-Iran Gambit.”em Consortiumnews.com.”]

Em primeiro de Fevereiro de 2014, Nuland disse ao Embaixador dos Estados Unidos à Ucrânia Geoffrey Pyatt “a UE que se dane” e a discussão sobre “colar esta coisa” e como ela escolheu a dedo quem seriam os novos líderes da Ucrânia; “o Yats é o cara,” ela disse sobre Arseniy Yatsenyuk.

Como as desordens violentas no Maidan tornaram-se piores – com milícias neo-nazistas bem organizadas que lançaram bombas incendiárias na polícia – o departamento estatal e os meios de comunicação de notícias dos Estados Unidos culparam Yanukovych. No dia 20 de fevereiro, quando francos atiradores misteriosos – ao que parece disparando de posições controladas pelo Sektor Direito Neo-nazista – mataram oficiais de polícia a tiros e protestadores, a situação turbilhou fora do controle – e a imprensa americana novamente culpou Yanukovych.

Embora Yanukovych assinasse com três países europeus um acordo em 21 de fevereiro aceitando reduzir poderes e uma adiantada eleição, isso não foi o bastante para os fabricantes do golpe. No dia 22 de fevereiro, um golpe de estado, liderado por milícias neo-nazistas, forçou Yanukovych e os seus funcionários a fugir para salvar suas vidas.

Notavelmente, contudo, quando o Times pretendeu rever esta história em um artigo de Janeiro de 2015, o Times não ignorou a evidência extraordinária de um golpe apoiado pelos Estados Unidos – inclusive o grande número de projetos políticos do NED, o animador de torcida de McCain e a conspiração de Nuland. O Times simplesmente informaram os seus leitores que não houve nenhum golpe. [Veja “NYT Still Pretends No Coup in Ukraine.” em Consortiumnews.com]

Mas a propaganda do Times na Ucrânia não é somente o jornalismo triste, é também um ingrediente perigoso que pode tornar-se uma confrontação nuclear, se os americanos vêm para acreditar uma narrativa falsa e assim ir junto com mais ações provocantes pelos seus líderes políticos que, sendo assim, poderiam sentir-se compelidos a atuar resistentes porque de outra maneira eles seriam atacados como “suaves”.

Em outras palavras, mesmo sem computadores tomando o controle das armas nucleares do homem, o próprio homem poderia errar em um Armagedon nuclear, dirigido não pela inteligência artificial mas uma falta da espécie humana.

Autor: Robert Parry

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com

Fonte: http://www.globalresearch.ca/new-york-times-is-lost-in-its-ukraine-propaganda/5427082