Politização da investigação AMIA. Pretexto para mudança de regime na Argentina.


A história tem estranhas maneiras de repetir-se. A Argentina tem transitado por um processo similar aos anos posteriores a 1990, logo que Boris Yeltsin renunciou e Vladimir Putin tomou seu posto no Kremlin como Presidente da Federação Russa. O governo federal da Argentina em Buenos Aires está lutando para desfazer-se do jugo estrangeiro e consolidar seu poder político e econômico.

No entanto, Buenos Aires tem a oposição de uma diversidade de elementos do velho regime e de oligarcas que colaboram com os Estados Unidos. Estas forças se opõem a grandes projetos nacionais, como trazer à renacionalização grandes companhias, ao fortalecimento do ramo executivo do governo. A este respeito, os enfrentamentos da Presidenta argentina Cristina Fernández Kirchner com seus opositores são similares aos enfrentamentos de Vladimir Putin com os oligarcas russos e os políticos que queriam subordinar a Rússia a Wall Street e a Washington como também aos capitais e núcleos financeiros da Europa Ocidental.

Todas as oportunidades são aproveitadas na tentativa de debilitar o governo argentino. A Presidenta Cristina Fernández Kirchner acusou inclusive publicamente seus opositores nacionais como também os Estados Unidos de estar colaborando para uma mudança de regime. Quando o DAESH ou o ISIS ameaçaram matá-la no ano passado, ela se referiu à ameaça como proveniente de Washington, a entidade que realmente queria matá-la e a que movia os palitos das brigadas do DAESH na Siria e no Iraque. (1)

A Morte de Alberto Nisman.

O recente capítulo da luta do governo argentino se iniciou no mês de janeiro em 2015. No mesmo dia em que foi morto por Israel o General Mohammed Allahdadi, da Guarda Revolucionária do Irã dentro da Síria, o ex fiscal especial, Alberto Nisman, foi encontrado morto com um tiro ao lado de sua cabeça no banheiro do seu apartamento fechado no dia 18 de janeiro recém passado. (2) Nisman havia investigado a explosão em 1994 do edifício pertencente à Associação Mutual Israelita Argentina, AMIA, durante os últimos dez anos. No ano de 2003 lhe foi atribuída a tarefa pelo Presidente Néstor Kirchner, o falecido esposo da atual presidenta de Argentina.

Poucos dias antes, ele havia feito acusações contra a Presidente Cristina Fernández Kirchner e contra o Ministro de Relações Exteriores Héctor Timmerman, que também é judeu. No palabras do New York Times, “Nisman havia lanzado graves acusações.” (3) Nisman denunciando que “funcionários iranianos haviam planejado e financiado o ataque; que o Hezbollah, aliado do Irã no Líbano, havia executado o ataque; e que a presidenta argentina, Cristina Fernández Kirchner e seus principais assistentes haviam conspirado para encobrir a participação do Irã como parte de um acordo para fornecer petróleo iraniano à Argentina.” (4)

O periodista judeu, Damián Pachter, que fugiu da Argentina logo após a morte de Nisman, tem jogado lenha no fogo a partir de Israel onde está e inclusive escreveu um artigo que foi amplamente citado mas não apoiado, para o Haaretz com a intenção de polemizar contra o governo argentino. O artigo de Pachter faz parecer que a Argentina se move nas sombras da Alemanha Nazista ou de um regime fascista. Eis aqui alguns de seus comentários:

* Não tenho idéia quando regressarei a Argentina. Nem sequer se quero voltar. Lo que se se que o país donde nací no é o lugar feliz sobre o qual mis abuelos judeus me contaban histórias.

*A Argentina converteu-se em um obscuro lugar regido por um sistema político corrupto. Todavia não consigo entender tudo o que aconteceu comigo durante as últimas 48 horas. Nunca imaginei que o meu regresso a Israel seria assim. (5)

Antes de continuar deveríamos acrescentar que nos dez anos de investigação de Alberto Nisman, ele não foi capaz de acusar nem o Irã nem o Hezbollah. Porém, bem se sabe que Nisman consultava com frequência os Estados Unidos sobre o caso AMIA e que foi acusado por Roland Noble, ex chefe da Interpol de mentir sobre as muitas acusações que fez em relação ao caso AMIA. (6)

Foi informada a morte de Alberto Nisman como um suicídio. Mas a morte de Nisman, claro, é muito suspeita. Nisman morreu a poucas horas antes de entregar um testemunho ao Congresso nacional. O governo da Argentina disse que sua morte foi um assassinato com a intenção de prejudicar o governo. (7) Esta asseveração é correta e tem dado seus frutos já que a morte de Alberto Nisman está sendo utilizada como ataque político que exige a eliminação do governo argentino.

A quinta coluna argentina.

O periódico Guardian publicou um artigo no dia 27 de janeiro do 2015 que informa que a morte de Alberto Nisman “é uma prolongada luta” entre o governo argentino e a “principal agência de inteligência da Argentina que tem trazido luz logo após a intrigante morte de Nisman, a qual é atribuída pela presidenta argentina a espiões inescrupulosos que estão tratando de sufocar seu governo.” (8) Alguns aspectos chaves do informe incluem o seguinte:

*Funcionários do governo apontam o dedo acusador aos espiões que, dizem eles, estavam trabalhando com Nisman entregando-lhe informação de telefones grampeados.

*O mais importante entre eles é Antonio Stiuso, quem até o mês anterior era o Diretor Geral de operações e escutas clandestinas dos opositores políticos da presidenta. Foi despedido logo que a Presidenta Fernández descobriu que ele estava trabalhando com Nisman para fabricar um caso contra ela. Acredita-se que atualmente está nos Estados Unidos.

*Em sua intervenção televisionada—feita desde uma cadeira de rodas por conta de um recente acidente—Cristina Fernández também criticou a Diego Lagomarsino, o qual foi acusado por ilegalmente ter deixado a arma de fogo com Nisman. (9)

O que os aspectos mencionados sugerem é que a segurança interior argentina e os agentes de inteligência está trabalhando para derrubar seu próprio governo. Assim mesmo, Antonio Stiuso e Nisman estavam secretamente trabalhando para montar um caso para tirar Cristina Fernández do poder.

A quinta coluna existe na Argentina. É notório que alguns indivíduos envolvidos neste caso são elementos residuais do período da ditadura militar argentina que colaboravam estreitamente com os Estados Unidos. Isto poderia explicar por que se acredita que Antonio Stiuso fugiu para os Estados Unidos. Além disso, é por isso que o governo argentino tem iniciado uma investigação sobre as atividades de vários agentes da policía federal que estavam monitorando Nisman e por que se decidiu substituir a Secretaria de Inteligência, SI (anteriormente Secretaria de Inteligência do Estado, SIDE) por uma nova agência de inteligência federal. (10) “Isto me fez tomar a decisão de despedir agentes que estão ali desde antes do advento da democracia,” informou Cristina Fernández Kirchner.

“Devemos iniciar o trabalho para reformar o sistema de inteligência argentina com o objeto de nos desfazermos de um sistema que não serve os interesses da nação.” A Presidenta Fernández declarou em torno às reformas. (12) A presidenta revelou que a SI estava trabalhando para sufocar seu governo e invalidar o que Argentina tem acordado com o Irã. O periódico Buenos Aires Herald informou que a Presidenta Fernández “tem reafirmado que desde que foi firmado o Memorándum de Entendimento com o Irã sobre o ataque contra a AMIA em 1994 “podemos ver que o acordo estava sendo atacado desde a Secretaria de Inteligência.” (13)

AMIA é o Pretexto e Argentina está na Frente de uma Guerra Global Multifacetada.

O caso da AMIA tem sido politizado em duas frentes. Uma das frentes é a luta interna e a outra é no âmbito das relações internacionais. Um grupo de oligarcas argentinos está utilizando o caso AMIA para recuperar o controle total sobre o país, enquanto que os Estados Unidos está utilizando o caso AMIA como uma ferramenta mais –como o caso dos fundos abutres contra a Argentina—para pressionar o governo argentino e intervir nos assuntos internos do país.

As opiniões vão se galvanizando no interior do país na medida em que as linhas políticas se endurecem. A morte de Alberto Nisman está sendo utilizada pelos opositores do governo argentino para demonizá-lo. A oposição inclusive tem dito que Nisman é um mártir na luta pela democracia e pela liberdade em um país regido por um regime crescentemente autoritário.

Os enfrentamentos políticos na Argentina em torno do ataque contra a AMIA e sua investigação reflete algo muito maior. O Irã não é o único alvo na polarização do caso da AMIA. Tão pouco é o caso que se busque justiça para as vítimas do ataque contra a Mutual. China, Rússia, Cuba, Brasil, Venezuela, Equador, Bolívia e uma série de países independentes, também são alvos naquela que é realmente uma luta global entre os Estados Unidos e uma coalizão de estados independentes que rejeitam a influência norteamericana.

Os objetivos definitivos dos Estados Unidos são a recuperação de sua perda de influência sobre a Argentina e redirigir as relações comerciais argentinas e controlar sua política exterior. Tudo isso tem a ver com as medidas que Buenos Aires tem feito para recuperar o controle das Ilhas Malvinas em poder dos ingleses, as quais estão localizadas em uma rica área energética no Atlântico Sul.

Somado à luta pelos recursos naturais, inclusive as reservas energéticas, a guerra multifacetada que os Estados Unidos leva avante contra seus rivais, tem preparado um golpe agrícola que produziria a desestabilização dos preços dos alimentos e até fome. Além das suas reservas não exploradas de petróleo e gás, a Argentina é uma potência agrícola de primeira ordem. Controlar Buenos Aires seria muito útil para os Estados Unidos.

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com

Autor: Mahdi Darius Nazemroaya

NOTAS

1.- Mahdi Darius Nazemroaya, “Las Águilas del Imperio y el Terrorismo Económico: ¿Son los fondos buitre Instrumentos de la política de Estados Unidos?” Russia Today, Octubre 24, 2014

2.- Almudena Calatrava, “Existen dudas que el fiscal argentino se suicidó,” Associated Press, Enero 20, 2015: Jonathan Watts “Gobierno argentino decide disolver la agencia nacional de inteligencia,” Guardian, Enero 27, 2015

3 – 4.- Isabel Kershner, “El Periodista que Informó sobre la Muerte del Fiscal Argentino, Huye del País Hacia Israel,” New York Times, Enero 26, 2015.

5.- Damian Pachter, “Por Qué Huí de Argentina luego de Publicar la Historia de la Muerte de Alberto Nisman,” Haaretz, Enero 25, 2015

6.- “Ex Jefe de la Interpol, Roland Noble: Lo que Dice el Fiscal Nisman es Falso,” Buenos Aires Herald, Enero 18, 2015

7 – 10.- Jonathan Watts, “El Gobierno Argentino Actúa,” op.cit.

11 – 13.- “Cristina Fernández de Kirchner Anuncia Plan para Disolver la Secretaría de Inteligencia,” Buenos Aires Herald, Enero 26, 2015.

Fonte: http://www.globalresearch.ca/politizacion-de-investigacion-amia-pretexto-para-mudança-de-regimen-en-argentina/5431588