Como Estados Unidos ajudou na criação do Estado Islâmico.


Em abril de 2003, quando os norte-americanos tomaram o controle do campo de detenção, o rebatizaram em homenagem a Ronald Bucca.

O grupo extremista mais forte da atualidade, Estado Islâmico, nasceu no que deveria ser o mais improvável dos lugares: uma prisão estado-unidense no deserto do Iraque.

Assim concordam ao menos os analistas e os comandantes a cargo da instalação e os soldados que trabalharam nela.

Camp Bucca não era seu nome original. Após a invasão do Iraque, as forças britânicas a chamaram Camp Freddy.

Mas em abril de 2003, quando os norte-americanos tomaram o controle do campo de detenção, o rebatizaram em honra a Ronald Bucca, um chefe de bombeiros de Nova Iorque que morreu pelos trabalhos de resgate após o ataque do 11 de setembre de 2011 às Torres Gêmeas.

A prisão, situada no entorno da cidade de Basora, foi considerada a prisão modelo dos EUA, com unidades habitacionais de cimento e teto de madeira, atividades administradas pelos próprios presos, e direito a visitas de familiares e de cuidados médicos.

Em Camp Bucca os presos tinham direito a visitas familiares, entre outras coisas.

Em Camp Bucca os presos tinham direito a visitas familiares, entre outras coisas.

Chegou a ter 27.000 presos repartidos em 24 campos e classificados com roupas de cores segundo sua posição; muitos deles transferidos de Abu Ghraib após o escândalo das torturas e abusos a prisioneiros.

Pelas suas instalações passaram, entre outros, nove membros da cúpula do EI, de acordo com o informativo The Islamic State, de Soufan Group, uma organização que oferece serviços estratégicos de inteligência de segurança a governos e multinacionais, publicado em novembro do ano passado.

“Universidade de terroristas”

O líder do grupo jihadista, Abu Bakr al-Baghdadi, autoproclamado califa e “líder de todos os muçulmanos”, por exemplo, permaneceu em Camp Bucca cinco anos.

Transferiram ele após detê-lo em Fallujah, ao oeste da capital, Bagdad, em fevereiro de 2004.

Chegou a ter 27.000 presos divididos em 24 campos e identificados com roupas de cores segundo seu status.

Tinha 33 anos e não haviam passado muitos meses desde que ajudara a fundar Jeish Ahl al-Sunnah al-Jamaah, um grupo militante que havia criado raízes nas comunidades sunitas ao redor de sua cidade natal, Samarra.

Eram tempos nos quais a insurgencia sunita contra os EUA estava cobrando força no país.

Mas o grupo que ajudou a fundar não era muito conhecido, assim que chegou à prisão com perfil baixo. “Os norte-americanos não sabiam a quem tinham”, disse sobre ele Hisham al-Hashimi, um assessor do atual governo iraquiano.

Ali, em Camp Bucca, Al Baghdadi coincidiu com o que depois seria seu número dois no EI, Abu Muslim al-Turkmani, assim como com o experimentado militar Haji Bakr, hoje falecido.

Também permaneceu no campo de detenção Abu Qasim, líder dos combatentes estrangeiros, segundo Soufan Group.

E os analistas afirmam que é provável que estes homens fossem extremistas quando entraram na prisão, mas com certeza eram quando saíram dela.

Por essas instalações passaram, entre outros, nove membros da cúpula do EI, de acordo com o informativo The Islamic State, de Soufan Group.

“Antes de sua detenção, Al Baghdadi e outros eram radicais violentos (…), mas seu tempo na prisão aprofundou seu extremismo e lhes deu a oportunidade de aumentar o número de seguidores”, escreveu o antigo militar Andrew Thompson no diário The New York Times em novembro de 2014.

Esses extremistas estavam basicamente administrando uma universidade para treinar terroristas nas nossas próprias instalações” informou David Petraeus, general dos EUA.

Acrescentou: “A prisão se converteu em uma universidade virtual de terroristas”.

Já o havia reconhecido, quase com as mesmas palavras, David Petraeus, o general que liderou a operação dos EUA no Iraque.

“Estávamos liberando os indivíduos que eram mais radicais que quando chegaram (a Camp Bucca)”.

Radicalização e colaboração.

A isso mesmo se referia o chefe da polícia iraquiana Saad Abbas Mahmoud quando lhe disse o seguinte ao diário The Washington Post: “Esses homens não estavam plantando flores no jardim”.

Alguns militares que trabalharam no campo coincidem no que lhes preocupava que fora um caldo de cultivo para a radicalização.

James Skylar Gerrond, comandante encarregado da prisão entre 2006 e 2007, também coincidia com essa opinião.

“A muitos de nós em Camp Bucca nos preocupava que, em lugar de somente alojar os presos, tínhamos criado uma panela de pressão do extremismo”, escreveu em sua conta do Twitter.

Além disso, os analistas concordam que o campo de detenção não foi um lugar para a radicalização, senão também para a colaboração.

E nela coincidiram membros de Baath, o partido do líder iraquiano Saddam Hussein, hoje falecido, e fundamentalistas islâmicos. E isso desenvolveu a um “matrimonio de conveniência”, segundo Soufan Group.

Na prisão coincidiram membros do Baath, o partido do líder iraquiano Saddam Hussein, hoje falecido, e fundamentalistas islâmicos.

De acordo com os analistas, cada grupo fornece ao outro aquilo que falta. Assim, os jihadistas aprenderam dos exbaazistas habilidades para organizar-se e disciplina militar. E esses, encontraram um propósito nos militantes islâmicos.

“Em Bucca as matemáticas mudaram quando as ideologias adotaram características militares e burocráticas e os burocratas se converteram em extremistas violentos”, disse o informativo.

E segundo Peter Taylor, periodista da BBC com 35 anos no ofício e experiente em temas de insurgência e violência política, conhecer isso é fundamental para entender o fenômeno Estado Islâmico.

Um grupo que em poucos meses acumulou uma fortuna calculada em US$ 2 bilhões, controla amplos territórios na Síria e no Iraque com uns oito milhões de habitantes, tem na lista uns 50.000 combatentes, utiliza com grande destreza as redes sociais com objetivo propagandista, e a cuja chamada tem ajudado a trazer para a jihad uns 12.000 militantes extrangeiros.

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com

Fonte: www.bbc.co.uk