Mudança brusca de Obama: a hipermilitarização nuclear dos EUA contra Rússia e China.


Com nove meses de atraso ao estudo do Centro de Estudos James Martim para a Não-Proliferação, do Instituto Monterey (California) de janeiro de 2014 sobre a tríade nuclear do trilhão de dólares (http://goo.gl/imVXPG), os repórteres William Broad e David Sanger do NYT (http://goo.gl/5ZxvQ7) “revelam” de maneira perturbadora o “reforçamento para uma superlativa renovação das armas nucleares dos Estados Unidos (EUA)”, o qual significa a negação da postura desnuclearizadora de Obama em sua primeira administração quando naquele momento nem a Rússia nem a China havia saído do trilho e do cercadinho cloaca da unipolaridade dos EUA.

Cinco anos depois da intenção de Obama de “livrar o mundo das armas nucleares” – que lhe valeu seu polêmico Prêmio Nobel da Paz em 2009 –, na fase do “mundo pós-Crimeia”, o mesmo presidente dos EUA sofre uma singular transmogrificação que põe em evidência o periódico suíço Tages Anzeiger (http://goo.gl/XR72ld).

De acordo com NYT, nos próximos 30 anos, os EUA –com graves problemas financeiros em declínio ainda sem resolver, apesar de sua bolha especulativa em Wall Street–, “gastará um trilhão de dólares para modernizar suas capacidades nucleares”, que contempla a compra de 12 novos submarinos, 100 bombardeiros e 400 mísseis colocados em terra.

Enquanto o Exército de Liberação do Povo da China projeta incrementar suas ogivas nucleares (http://goo.gl/wDfICQ), Vladimir Putim recordou, em meio à delicada crise da Ucrânia, que ninguém deve arriscar com as armas nucleares da Rússia (http://goo.gl/Ui54kn).

A linha dura do Kremlim representada por Dimitri Rogozin, ex-embaixador na OTAN e hoje vice-primeiro ministro a serviço da indústria de defesa que Putim tem tomado sobre seu controle, garantiu que “Moscow modernizará por completo o armamento da Força Nuclear Estratégica para 2020″ (http://goo.gl/O8oX70).

Ficou para trás o acordo de Obama com Moscow de 2009 para diminuir os arsenais nucleares de EUA e Rússia em 750 bombas atômicas por país. No ano passado, Obama havia proposto retirar outras mil ogivas nucleares… O que aconteceu?

Quantidade de ogivas nucleares que se supõe ter estocado no mundo.

Os repórteres do NYT argumentam que a cambalhota acrobática de Obama se deve ao “caminho de guerra que seguiu a Rússia, as reclamações territoriais da China e à expansão do arsenal atômico do Paquistão”, assim o legado do desarmamento prometido de Obama parece cada vez mais sombrio.

Os falcões neoconservadores straussianos não necessitam de pretextos para rearmar-se até os dentes e precisam estar felizes quando consideram que os “futuros investimentos nucleares colocam os EUA em uma posição mais forte em caso de uma nova corrida armamentista”. Não aprenderam nada de Iraque e Afeganistão…

Parece absurdo que os EUA se lance numa corrida nuclear quando suas finanças estão mais deterioradas que nunca devido ao aventureirismo bushiano no Iraque –sem contar Afeganistão– onde dilapidaram-se 3 trilhões de dólares, de acordo com Joseph Stiglitz (http://goo.gl/HVAZJE). Pelo visto, a economia de guerra não está funcionando para o complexo-militar industrial dos EUA.

Jeffrey Lewis, do Instituto Monterey de Estudos Internacionais, confirma que não existe dinheiro suficiente para a hipermilitarização nuclear dos EUA, So what? Tão pouco existia suficiente dinheiro para a guerra do Vietnam de Nixom nem para as duas guerras contra Iraque do nepotismo bushiano de pai e filho –ainda que hoje não seja o mesmo com a saudável aparição competitiva do BRICS.

Ficou esquecida a reclamação dramática para a redução dos arsenais nucleares a 900 ogivas, eliminando a maioria das 3 mil e 500 bombas atômicas armazenadas dos EUA, por Chuck Hagel, antes de ser escolhido secretário do Pentágono.

O estudo de Jom B. Wolfsthal, Jeffrey Lewis e Marc Quint, do Instituto Monterey, explana o “custo da modernização estratégica nuclear dos EUA nos próximos 30 anos” num bilhão de dólares para a tríade nuclear com a finalidade de manter o atual arsenal, comprar seus sistemas de substitução e elevar o grau qualitativo das atuais bombas nucleares.

A tríade de analistas do Instituto Monterey considera que os EUA mantêm um robusto arsenal nuclear instalado em uma tríade de sistemas estratégicos de lançamento, que incluem mísseis balísticos de longo alcance nos submarinos e em terra, assim como em bombardeiros atômicos.

É interessante que o delírio da substituição das plataformas e suas ogivas associadas dos EUA coincidam com as projeções de modernização nuclear da Rússia para 2020.

Atravessa um problema insolúvel: a dramática crise fiscal dos EUA que afeta as projeções para financiar sua hipermilitarização nuclear.

A tríade do Instituto Monterey cita o chefe de Estado Maior da Força Aérea, general Mark Welch, quem comentou que o custo de modernizar a infra-estrutura nuclear requer um “muito honesto debate sobre o que é possível se usar para investir”.

O portal britânico Daily Mail (http://goo.gl/aa97aR) aborda o projetado gasto de um bilhão de dólares de armas nucleares dos EUA “justo cinco anos depois do Prêmio Nobel da Paz de Obama” e revela que “os EUA gastou mais do que nunca em 2014, incluindo a Segunda Guerra Mundial, com investigação, desenvolvimento, testes e produção de armas nucleares,”

Daily Mail argumenta que estas cifras “não incluem qualquer gasto do Pentágono em suas forças aéreas, em seus silos de mísseis ou com pessoal que tem o botão nuclear como uma opção viável no caso do primeiro golpe por qualquer dos inimigos dos EUA”.

Potenciais alvos nos EUA. Clique na imagem para ampliar.

Faz menção à campanha eleitoral prejudicada de Obama sobre a redução do arsenal nuclear dos EUA e expõe que os planos para a modernização das armas nucleares de EUA lhe darão maior influência para forçar o mundo a reduzir seus arsenais em todos lados. Arriscando desperdiçar hipermilhonárias somas incríveis de dólares, pensa Obama obrigar a Rússia e a China, sem mencionar Índia e Paquistão, a desistir dos seus respetivos rearmamentos nucleares?

Daily Mail fustiga o Instituto Monterey como “uma escola de graduados do Colégio Middlebury de Vermont inclinado à extrema esquerda” e cita como justificativa do rearmamento nuclear dos EUA o cambio geopolítico da “invasão de Putim a Ucrânia”, de acordo com Gary Samore, principal conselheiro nuclear de Obama.

Quando a Rússia “invadiu” a Ucrânia?

De acordo com Daily Mail, com sua modernização nuclear, os EUA comprometeu-se a “elevar a aposta no interminável jogo de pôquer de alto risco que é a diplomacia nuclear global”.

O grave problema estrutural do atribulado Obama – manobrando no mundo de lobos de Wall Street – é que não se advertiu de que é o “Gorbachov dos EUA” a quem lhe cabe a triste tarefa de lidar com a emergente nova ordem multipolar do “mundo pós-Crimeia” com o declínio inexorável da outrora superpotência unipolar.

A hipermilitarização nuclear dos EUA impedirá sua decadência? Eu duvido.

Autor: Alfredo Jalife-Rahme

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com

Fonte: http://www.jornada.unam.mx/2014/09/28/opinion/020o1pol