Como são os planos do exército dos EUA para neutralizar a Rússia.


A Rússia tem sido rotulada como um “poder revisionista” que viola a ordem mundial existente.

À medida em que a secretária da Força Aérea dos Estados Unidos, Deborah James descreveu a Rússia como “a maior ameaça” para os interesses norte-americanos em 8 de Julho, uma versão mais recente da “Estratégia Militar Nacional dos Estados Unidos” parece ecoar. O documento já tem gerado uma onda de comentários de especialistas. Na Rússia, o foco da mídia tem sido em duas das suas disposições, especialmente a que se refere à Rússia como “potência revisionista”.

A nova estratégia militar dos Estados Unidos em primeiro lugar, pretende contrariar as “potências revisionistas” que violam as normas da ordem mundial. Secundariamente, planeja combater as organizações extremistas que, como a experiência do Estado Islâmico do Iraque e da Grande Síria (ISIS) mostra, têm a capacidade de criar unidades armadas. Ambos os postulados são acompanhados por argumentos sobre a necessidade de melhorar a flexibilidade, mobilidade e tecnologia disponível das Forças Armadas dos EUA.

Todas estas disposições foram repetidas inúmeras vezes nos documentos de planejamento militar dos EUA. De mais interesse é que a nova estratégia militar nacional sugere que o pensamento estratégico da elite dos EUA (independentemente da filiação partidária individual) é baseada em uma combinação de duas tendências.

A liderança dos EUA é a favor da preservação das regras de cooperação internacional estabelecida desde 1991. Ao mesmo tempo, a Casa Branca está começando a perceber que os mecanismos existentes para a sua proteção não são suficientes.

A “nova” estratégia militar dos EUA pode ser rastreada até 1991.

De volta ao final dos anos 80, os especialistas norte-americanos cogitaram cerca de quatro idéias que vieram a constituir a base da política externa americana. Todas estas disposições foram estabelecidas na Estratégia de Segurança Nacional de 1991, os Estados Unidos:

– O fim da Guerra Fria não levou à realização de um objetivo-chave dos EUA: o potencial militar soviético não foi desmantelado no modelo da Alemanha e do Japão após a Segunda Guerra Mundial;

– No futuro previsível, a Rússia continuará a ser o único país do mundo com a capacidade técnica para destruir o potencial estratégico dos Estados Unidos;

– Washington precisa justificar a presença de suas Forças Armadas no território de seus aliados, como os países europeus da OTAN, o Japão e a Coréia do Sul;

– Os Estados Unidos devem liderar a luta contra as “ameaças não tradicionais”, incluindo o terrorismo transnacional.

Estes pontos foram finalmente consagrados na Estratégia Militar Nacional 1995 dos Estados Unidos, que estipulava que o Departamento de Defesa dos EUA iria contrariar estados que tentam rever a ordem mundial pós-1991.

Para alcançar esses objetivos, os Estados Unidos precisavam, para manter a superioridade militar, fornecer garantias de segurança para os aliados, e demonstrar o seu desejo de usar a força na proporção da natureza da ameaça.

O último ponto significa que Washington se reservou o direito de usar a força, mesmo contra grandes potências como a Rússia e a China. Mas a conversa era menos sobre o confronto direto, e mais sobre a intervenção cuidadosamente preparada de Washington em um potencial conflito entre a Rússia ou a China e seus vizinhos.

Desde então, a política militar dos EUA continuou a desenvolver no âmbito deste paradigma.
A Rússia agora foi priorizada como uma ameaça de primeira categoria.

A novidade da Estratégia Nacional Militar em 2015 é a definição de prioridades.

Dentre as potenciais ameaças é a Rússia. O documento afirma que Moscou “tem mostrado repetidamente desrespeito à soberania dos seus vizinhos e vontade de usar a força para atingir seus objetivos.”

Em seguida é o Irã, que é acusado de desenvolver armas nucleares e desestabilizar o Oriente Médio. Em terceiro lugar está a Coréia do Norte, semelhantemente castigado por produzir armas nucleares e mísseis balísticos, e ameaçando aliados regionais dos Estados Unidos, Japão e Coréia do Sul.

O quarto lugar é ocupado pela China, descrito como uma ameaça à segurança regional, especialmente no Mar do Sul da China. Só então é mencionada a luta contra as organizações terroristas.

Além disso, a Rússia e a China são citadas no mesmo contexto que o Irã e a Coréia do Norte. Quase todas as administrações norte-americanas têm segregado estes países, frisando que o Irã e a Coréia do Norte são “Estados párias”. Agora, o governo Obama tem colocado todos os quatro países em um contexto. Isto quer dizer que a atual administração dos EUA mudou Rússia e China na categoria de “Estados párias”?

Outro sinal alarmante é que está sendo dito à comunidade internacional para coordenar seus esforços na luta contra todas as quatro ameaças. O fato de o Irã e a Coréia do Norte serem excluídos da “comunidade internacional” no sentido norte-americano é tomado como um fato real.

Mas, se a Rússia e a China também estão excluídas, a situação assume uma nova dimensão. Washington reconhece que o mundo é dividido essencialmente, ou está contando com um acentuado enfraquecimento dos recursos russos e chineses no futuro previsível.

O terceiro problema é o regresso da Rússia como um adversário em prioridade. Não há nada de fundamentalmente novo neste. Mesmo a Revisão da Postura Nuclear de 1994 dos EUA observou que Moscow continua a ser um adversário em prioridade, contanto que tem paridade nuclear com Washington.

No entanto, em sua retórica pública a Casa Branca tentou não chamar a atenção para isso. (A nível semi-oficial postula-se que a China é a nova União Soviética). Agora, a retórica oficial parece estar vindo em linha com recursos materiais e técnicos.

A China permanece na parte inferior de uma lista de possíveis ameaças. À primeira vista, isso parece estranho, já que em 2009 Obama anunciou seu “pivot para a Ásia.” Talvez o governo democrata atual ainda abriga esperanças de negociar com Pequim. Ou talvez os americanos estão apenas realizando outra política externa U-turn. (NT que é uma inversão da política, táticas, etc.)

A crise na Ucrânia coloca a prioridade dos holofotes de volta na região do Báltico-Mar Negro. Entretanto, a região Ásia-Pacífico vai vir à tona mais uma vez, enquanto os Estados Unidos preparam as áreas de suporte necessárias e cria a situação desejada no Sul da China ou Mar da China Oriental (região exata não é tão importante).

EUA se prepara para o ressurgimento de guerras entre grandes potências.

A nova estratégia militar nacional faz menção regular do crescente perigo de uma guerra com os “atores estatais” – mais precisamente, uma guerra com grandes potências. Na seção prévia, não há nenhuma dúvida que respeita os adversários percebidos. De maior interesse é que a “Estratégia”, destaca constantemente que os Estados Unidos têm mecanismos fracos para combater outros poderes em guerras regionais.

Por trás disso esconde-se um sério problema estratégico. Ao longo do século passado a estratégia dos EUA foi inspirada pelas idéias do general italiano Giulio Douhet sobre a superioridade incondicional do poder aéreo. Na guerra, o domínio do ar força o inimigo a capitular. Este postulado serviu de base para a lógica da dissuasão nuclear, com suas ameaças de acabar com cidades inimigas e infra-estrutura.

Mas ninguém explicou o que aconteceria se, em vez de capitular, o inimigo começasse a tomar medidas de retaliação. O estabelecimento militar dos EUA preocupado com a possibilidade de se tornar cada vez mais difícil encontrar soldados para operações terrestres. Ao contrário do que foi durante a Guerra Fria, os seus aliados não têm pressa alguma para fornecer infantaria sob “cobertura aérea.” dos EUA.

Para os autores da Estratégia Militar Nacional, a solução reside na construção de infra-estruturas militares a nível regional. Não por acaso é o primeiro objetivo em um conflito hipotético para frustrar os objetivos primários do agressor. Isso só é possível com as forças reais dos EUA no terreno em áreas problemáticas (do ponto de vista de Washington). Em certo sentido, os norte-americanos planejam ajustar seus meios técnicos, visando à implementação.

Mas, ao mesmo tempo, a implantação de infra-estrutura dos EUA sobre as fronteiras da Rússia e da China é alarmante para Moscou e Pequim. Na década de 1970, uma guerra terrestre em grande escala entre a União Soviética e os Estados Unidos foi repleta de dificuldades técnicas.

Com o surgimento da infra-estrutura militar norte-americana perto da Rússia e da China (incluindo vários tipos de sistemas de defesa antimísseis regionais), é cada vez mais viável tecnicamente. A médio prazo, a perspectiva de tal conflito conduzirá os políticos dos Estados Unidos à tentação?


Autor: Alexey Fenenko

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com

Fonte: Russia Insider