A abordagem indireta para a ‘mudança de regime’ e a ‘Revolução colorida’ no Brasil em 2015.


A iniciativa da OAB e da CNI de lançar a carta em defesa de mudanças para a superação da “crise ética, política e econômica”, apoia os órgãos que combatem a corrupção no Brasil. Ambas as entidades tem afirmado que não se pronunciam com intenções político-partidárias, mas defendem que o pais precisa voltar a crescer. Também não são favoráveis ao impedimento do Governo, e acreditam que qualquer solução para o país deve ocorrer sem descumprir a Constituição, opondo-se a qualquer tipo de intervenção militar no Brasil.

Segue na íntegra a Carta à Nação:

“O Brasil se encontra numa crise ética, política e econômica que demanda ações imediatas para sua superação.

Independentemente de posições partidárias, a nação não pode parar nem ter sua população e seu setor produtivo penalizados por disputas ou por dificuldades de condução de um processo político que recoloque o país no caminho do crescimento.

É preciso que as forças políticas, de diversos matizes, trabalhem para a correção de rumos da nação. É uma tarefa que se inicia pelo Executivo, a quem cabe o maior papel nessa ação, mas exige o forte envolvimento do Congresso, Judiciário e de toda a sociedade.

Mudanças, respeitando-se a Constituição, se fazem necessárias.

Por um lado, é preciso dar força aos órgãos de investigação e ao Poder Judiciário para que, nos casos de corrupção, inocentes sejam absolvidos e culpados condenados. A corrupção não pode seguir como um empecilho para o desenvolvimento do país.

É preciso implementar, de maneira célere e efetiva, medidas para melhorar o ambiente de negócios no país, evitando o crescimento do desemprego ou o prolongamento da recessão.

Entre elas, destaca-se a necessidade de ampliação da segurança jurídica no país, com regras claras e cumprimento de contratos e obrigações, evitando que potenciais investimentos sejam perdidos.

A nação também precisa ser desburocratizada, facilitando o processo produtivo e garantindo um ambiente de negócios em que o Estado deixe de agir como um freio à expansão econômica.

É preciso que seja realizado um forte investimento em infraestrutura, em parceria com a iniciativa privada nacional e estrangeira, para retornar o processo de crescimento econômico.

Deve-se, ainda, reduzir imediatamente o tamanho do Estado, assegurando que o mérito e o profissionalismo sejam os critérios na escolha de servidores.

Também não é mais possível postergar a reforma tributária, que deve eliminar fontes de cumulatividade e garantir direitos aos contribuintes.

Noutro campo, também deve-se rever as regras de crescimento automático de gastos de modo a permitir a sustentabilidade dos investimentos em saúde e educação, e sem abdicar da necessidade de permanente inclusão de novos segmentos da sociedade brasileira no mercado de consumo.

Esperamos a sensibilidade dos políticos eleitos para a implementação de uma agenda que abra caminhos para a superação das crises e para a recuperação da confiança dos brasileiros.

Por fim, as entidades signatárias, com a publicação desta carta, formam um fórum permanente de apresentação de propostas para que a sociedade civil tenha um papel ativo na construção de um Brasil democrático e próspero.

Brasília, 19 de agosto de 2015.”


Se for mantido esse rumo o país pode voltar a sonhar, mas precisa crescer primeiro como uma democracia e depois, após a crise, pode até consolidar-se como uma democracia-exemplo – inclusive ‘ética, política e economicamente’ – para então desfrutar da prosperidade que todos os brasileiros esperam. O Brasil poderá ser respeitado lá fora pelos outros países, resistir a intervenções estrangeiras do tipo que sempre dizem o querem e não dizem para que vieram, seguir livre das chantangens econômicas, revoluções coloridas, dentre outras que têm por finalidade render países desobedientes, a saber, os países que escolhem ser livres do imperialismo globalizante. Henry Kissinger costumava dizer que globalização é só um novo modo de dizer ‘os EUA governam o mundo’.

A crise, que pode criar repúdio à corrupção, pode ser o despertar.

“Comparem o Brasil com outros mercados emergentes. Dentre esses países, pode-se dizer que o Brasil é o país que foi atingido pelo ataque mais violento.

O escândalo, a propósito da corrupção na principal empresa nacional brasileira, a Petrobras, produziu crise econômica, com a moeda despencando e o crescimento suspenso.

Pois essa mesma crise comprova a maturidade democrática do país e é, pode-se dizer, sinal de força e de estabilidade, não de fragilidade e instabilidade. Os procuradores investigaram o quanto quiseram, quem bem entenderam, até as faixas mais privilegiadas da sociedade brasileira e também do governo – absolutamente sem qualquer interferência política. E sem que o processo tenha-se convertido em caça às bruxas. Aí está exercício democrático da justiça que bem poderia ser tomado como lição por muitos países supostos avançados.

O contraste entre isso e, por exemplo, a Turquia, não pode ser mais impressionante. Na Turquia, a corrupção de magnitude muito superior, com envolvimento direto do presidente Recep Tayyip Erdoğan e sua família, lá permanecem, hoje como antes, inabaláveis. A única tentativa para investigar Erdogan, em 2013, nada teve de exercício democrático e tinha clara motivação política (comandada por inimigos de Erdoğan no movimento de Fethullah Gülen, pregador islâmico autoexilado). A motivação política deu a Erdogan a chance de que precisava para desqualificar a investigação” (Dani Rodrik, 13/8/2015, in Back to Fundamentals in Emerging Markets” http://www.project-syndicate.org/commentary/emerging-market-growth-by-dani-rodrik-2015-08).

Os passos da CIA, FBI, NSA e todos os homens do Império decifrados.

Gene Sharp, em “From Dictatorship to Democracy” (1994) [Da ditadura à democracia] lista 198 ações não violentas tradicionalmente mobilizadas em todo o mundo contra governos legítimos, e que podem ser formuladas, resumidamente, do seguinte modo:

Passo 1: Intoxicar a opinião pública com desvantagens, reais ou imaginadas, usando a mídia-empresa, enfatizando dificuldades que há em todo o mundo capitalista, como se fossem ‘exclusividade’ de cada país atacado. A mídia-empresa trabalha para promover o descontentamento, enfatizando dificuldades como déficit, crimes, sistema monetário instável, governos ‘sem capacidade para governar’ e, claro, uma corrupção que só existiria, “em tal nível”, em cada um dos países que esteja sendo atacado. [No Brasil, a coisa já tem até nome – “Complexo de Vira-lata”. Quer dizer: aqui já fomos completamente convencidos de que somos nós, os brasileiros pobres, os culpados pelas desgraças que nos afligem (NTs)].

Passo 2: Demonizar autoridades eleitas, mediante a manipulação de preconceitos, dizendo, por exemplo que todos os brasileiros (russos, chineses; mas nunca, nunca, todos os norte-americanos; ou demonizando todos os pobres; mas nunca, nunca, todos os ricos); mediante ‘atos públicos’ para defender (i) a liberdade de expressão (que as elites sempre consideram que estaria ameaçadíssima em governos legitimamente democráticos); (ii) direitos humanos e liberdades civis; (iii) contra a ‘ditadura’ de governo popular democraticamente eleito (que as elites sempre consideram ‘autoritário’); e, em geral, reescrevendo a história a favor das forças que anseiam por voltar ao poder.

Passo 3: Trabalho nas ruas. Canalizar conflitos, promovendo a mobilização de qualquer oposição; desenvolver plataformas de combate que englobem todas as demandas políticas e sociais, ‘unificar’ todos os tipos de protestos, jogar habilmente com erros e dificuldades do estado/governo; organizar manifestações que impeçam a ação das instituições do estado; capturar as instituições do estado, para forçar a radicalização dos confrontos.

Passo 4: Combinar diferentes formas de luta: organizar piquetes e capturar simbolicamente as instituições do estado; guerra psicológica conduzida pela mídia-empresa, com promoção de confrontos com a polícia, para criar a impressão de que o governo nada controla, desmoralizar o governo legítimo e suas agências de serviços policiais.

Passo 5: Encenar um golpe institucional, movido a protestos de rua, sempre ‘exigindo’ a renúncia do(a) presidente(a).

Em que estágio está a revolução colorida em andamento no Brasil hoje? Cabe ao leitor decidir.

A situação vai sendo agravada artificialmente bem diante de nossos olhos, e parece que as autoridades do governo do Brasil estão dedicadas a fingir que não veem as atividades da inteligência dos EUA, aí, bem no nariz de Brasília. No Brasil, a CIA, a Agência de Combate ao Tráfico de Drogas, DEA-EUA, e o FBI operam legalmente, sob o disfarce da luta contra o tráfico de drogas. E há ONGs e fundações que existem para patrocinar revoluções coloridas que também estão operantes no país.

O jornalista venezuelano Jose Vicente Rangel noticiou que cerca de 500 funcionários de agências de inteligência dos EUA chegaram às embaixadas dos EUA na Venezuela, Bolívia, Argentina, Brasil, Equador e Cuba, para trabalharem em rede e desestabilizar regimes democráticos nesses países. O que acontecerá depois? Não é preciso adivinhar: basta ver o que foi feito da Ucrânia. 1

Guerras híbridas: abordagem adaptativa indireta à ‘mudança de regime’.

O jornalista e analista político em Sputnik International, Andrew Korybko, acaba de publicar seu primeiro livro: “Hybrid Wars: The Indirect Adaptive Approach To Regime Change”. O livro leva o selo da Academia Diplomática da Rússia e é distribuído com a ajuda da Universidade Russa para a Amizade entre os Povos, onde Andrew trabalha como membro do Conselho do Instituto para Pesquisa e Projeção Estratégicas. Esse trabalho detalhado demonstra que as “Revoluções Coloridas” são nova modalidade de guerra concebida nos EUA, e que tudo nelas, da concepção organizacional à aplicação geopolítica, é orientado por estrategistas norte-americanos. Mas, diferente do que fizeram outros pesquisadores que trabalharam sobre o mesmo tópico, Andrew inclui em sua análise a Guerra contra a Síria e o golpe da praça EuroMaidan, para demonstrar que os EUA já incorporaram mais uma ferramenta, na sua caixa de ferramentas para ‘mudança de regime’.

As “Guerras híbridas” como o autor as chama, acontecem quando os EUA mesclam 1º) sua Revolução Colorida tradicional e 2º) estratégias de guerra não convencional, para assim criarem um aparato unificado para provocar ‘mudança de regime’ nos estados que definam como seus alvos. Quando uma tentativa de provocar Revolução Colorida fracassa – como fracassou miseravelmente na Síria em 2011, o plano B implica passar para guerra não convencional, que se faz diretamente a partir da infraestrutura social e métodos de organização previamente existentes em campo. No caso da EuroMaidan, Andrew cita fontes ocidentais como a revista Newsweek, o jornal Guardiane a agência de notícias Reuters – para mostrar que, nos dias imediatamente anteriores ao golpe, o oeste da Ucrânia estava em rebelião já desencadeada e crescendo, contra o governo central de Kiev, e o cenário estava pronto para uma guerra não convencional, do tipo que se vê na Síria, mas em pleno coração da Europa.

Não tivesse o presidente Yanukovitch deixado o poder repentinamente, os EUA teriam dado andamento ao plano no qual já trabalhavam para tomar o país por via semelhante à que usaram no cenário da Síria – e que consistiria no segundo caso de total aplicação de uma Guerra Híbrida.

A pesquisa de Andrew demonstra que foram os EUA, não a Rússia, quem inaugurou as Guerras Híbridas. E que, consideradas as evidências reunidas em seu livro, não faz sentido algum pretender que o alegado envolvimento da Rússia na crise ucraniana seria ‘guerra híbrida’.

Na verdade, os EUA estão muito à frente de qualquer outro país na prática desse novo tipo de guerra.

Nenhum outro estado tentou até hoje alguma Revolução Colorida em outro país; tampouco se conhece outro país que tenha passado, de Revolução Colorida, para guerra não convencional, no caso de falhar sua tentativa inicial para mudar o regime existente no país-alvo.

Apesar de ainda haver muitos que vejam essas ocorrências como espontâneas, não provocadas, Andrew reúne documentos que demonstram que as Guerras Híbridas não só são criadas pelos EUA desde o primeiro movimento, mas, também, que são especificamente usadas em áreas nas quais são mais estrategicamente vantajosas, para promover as políticas unipolares de Washington.

Andrew não disseca só a essência das Guerras Híbridas; na parte final de seu trabalho, oferece previsões do que lhe parece que deva acontecer, do ponto em que estamos, adiante. Introduz o conceito de “Arco de Cores” – uma linha contínua que se estende da Hungria ao Quirguistão, e onde Guerras Híbridas previsíveis seriam mais danosas aos interesses nacionais russos.

É a primeira vez que o uso das Revoluções Coloridas como arma de guerra é analisado por prisma geopolítico.

O novo paradigma que assim se oferece é absolutamente essencial para compreender a nova abordagem dos EUA para a ação conhecida como ‘mudança de regime’ e as características, físicas e geopolíticas, que se preveem que a ação venha a assumir nos próximos anos. 2

[1] Fonte: Pravda.ru Autor: Lyuba Lulko
[2] Fonte: Pravda.ru Autor: The Saker, The Vineyard of the Saker, sobre livro de Andrew Korybko