Os emails de Hillary Clinton: Cumplicidade ocidental com genocídio negro na Líbia.


Na vespera do Ano Novo foram revelados 3.000 novos emails de Hillary Clinton da época em que ocupava o cargo de secretária de Estado dos EUA. Eles foram reproduzidos por vários meios nos EUA, incluindo a CNN.

Hillary Rodham Clinton fala aos jornalistas na sede das Nações Unidas, em 10 de março de 2015. Clinton admitiu que ela deveria ter usado um e-mail do governo para conduzir os negócios como secretária de Estado, dizendo que sua decisão foi simplesmente uma questão de “conveniência”. (AP Photo/Seth Wenig)

Os historiadores ficaram surpresos por algumas revelações explosivas contidas nos novos emails em relação a Líbia: a legitimidade dos crimes de guerra rebeldes, operações especiais britânicas e francesas no interior da Líbia no início dos protestos contra Kadafi, a integração dos terroristas da Al Qaida no seio da oposição apoiada pelos países ocidentais, etc.

Os esquadrões da morte da OTAN

As informações recolhidas por Sidney Blumenthal para Hillary Clinton contêm provas claras sobre os crimes de guerra cometidos pelos “rebeldes” líbios apoiados pela OTAN. Citando uma fonte de um comandante rebelde “com o qual falou com toda confidencialidade”, Blumenthal disse a Clinton:

“Tomando a palavra sob a mais estrita confidencialidade, um comandante rebelde declarou que suas tropas continuam executando sumariamente a todos os mercenários estrangeiros (que lutavam a favor de Muammar el kadafi) durante os combates”.

Enquanto que a ilegalidade das execuções extrajudiciais é fácil de reconhecer (os grupos implicados nesses crimes são chamados de forma clássica “esquadrões da morte”), o aspecto mais sinistro é a consideração como “mercenários estrangeiros” dos combatentes de origem subsaariana e, de fato, civis negros.

Existe uma abundante documentação nas mãos dos jornalistas, os investigadores e os grupos de defesa dos direitos humanos que demonstram que os civis negros líbios e os trabalhadores subsaarianos contratados por companhias líbias, uma população favorecida por Kadafi devido a sua política em favor da unidade africana, foram objeto de uma brutal limpeza étnica.

O massacre de Tawerga

Esses ataques são bem conhecidos e prosseguiram até 2012, como confirma este artigo do Daily Telegraph:

Os líbios negros foram frequentemente estigmatizados como “mercenários estrangeiros” pela oposição rebelde – formada sobretudo por grupos extremistas vinculados a Al Qaida – por sua fidelidade geral com Kadafi tanto que a comunidade foi submetida a torturas e execuções e suas cidades foram “liberadas” mediante a limpeza étnica e assassinatos em massa. O exemplo mais documentado é o de Tawerga, uma cidade onde residiam 30.000 líbios negros. Esta população desapareceu em sua totalidade despois de sua captura por um grupo rebelde apoiado pela OTAN: as Brigadas de Misrata.

“Depois que Muammar Kadafi fora morto, centenas de trabalhadores imigrantes que procediam dos estados vizinhos foram detidos pelos combatentes aliados às novas autoridades interinas. Eles acusaram os negros africanos de ser mercenários a serviço do antigo dirigente”.

Parece que Hillary Clinton foi pessoalmente informada sobre os crimes de guerra de seus aliados, os rebeldes anti-Kadafi, muito antes deles cometerem os piores crimes de genocídio.

A Al Qaida e as forças especiais da França e o Reino Unido na Líbia

No mesmo email de Sydney Blumenthal este confirmou igualmente o que se converteu num tema bem conhecido, o das insurreições apoiadas pelo Ocidente no Oriente Médio e a colaboração entre as forças militares ocidentais e as milícias vinculadas com a Al Qaida.

Blumenthal informa que “uma fonte extremamente sensível” confirmou que unidades especiais britânicas, francesas e egípcias formaram as milícias rebeldes líbias ao longo da fronteira entre a Líbia e o Egito, assim como nos subúrbios de Bengasi.

Enquanto os analistas especularam durante um longo tempo a respeito da presença de tropas ocidentais sobre o terreno durante a guerra líbia, esta mensagem constitui a prova definitiva do papel desempenhado por aquelas e sua presença sobre o terreno no mês que conheceu as primeiras manifestações contra o regime de Kadafi, que estouraram em fevereiro de 2011 em Bengasi.

Em 27 de março quando se supunha que fosse “um levantamento popular”, os agentes dos serviços especiais britânicos e franceses “supervisionaram a transferência de armas aos rebeldes”, incluindo armas de assalto e munições.

O temor francês de uma moeda panafricana.

A Resolução de 1973 do Conselho de Segurança da ONU proposta pela França estabeleceu uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia “com o objetivo de proteger os civis”. No entanto, um email enviado a Clinton em abril de 2011 expressa intenções menos nobres.

O email identifica oo então presidente francês, Nicolas Sarkozy, como líder do ataque à Líbia e mostra cinco objetivos a conseguir: obter o petróleo líbio, assegurar a influência francesa na região, aumentar a reputação de Sarkozy a nível nacional, afirmar a potência militar francesa e evitar a influência de Kadafi na que considerava como a “África francófona”.

O mais surpreendente é a menção à ameaça que o ouro e o dinheiro das reservas líbias, estimadas em 143 toneladas de ouro e um montante similar em dinheiro, “poderaim supor para franco CFA em circulação como moeda oficial na África francófona”.

Uma das principais causas da guerra, no entanto, foi o desejo francês de impedir a criação de uma moeda panafricana baseada no dinar de ouro líbio, um projeto que se estabelecia como um dos intentos de Kadafi para promover a unidade da África. Isso teria dado aos países africanos uma alternativa ao franco CFA, que constitui um dos fatores do domínio neocolonial da economia da África Central em relação a França.

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com

Fonte: Almanar