Dissuasão não-nuclear na Armada Russa.



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Análise

Mais ou menos, todos conhecemos o que é a dissuasão nuclear, umas palavras diretamente relacionadas com EUA e a União Soviética (agora Federação Russa, para simplificar). O exemplo mais midiático é a cena da filme ‘Jogos de Guerra’ onde a máquina poe em jogo o intercambio nuclear chegando à conclusão que nada ganhava com isso…

“Guerra Nuclear Mundial”

A dissuasão nuclear é o equilíbrio que se conseguiu entre ambas as potências pelo que um inicial ataque nuclear estratégico que provocasse graves danos ao inimigo seria respondido com uma réplica nuclear estratégica do mesmo gênero que, igualmente, traria danos ao atacante diante da incapacidade manifesta de ambos de inutilizar todo o arsenal nuclear estratégico do adversário.

Isso é a dissuasão nuclear.

Posteriormente e a medida em que outros países foram se incorporando ao clube nuclear a dissuasão nuclear foi aplicada em outros contextos porém, como em toda estratégia, isso se iniciou dentro da Guerra Fria soviético-estadounidense.

A matiz a comentar é que até agora a dissuasão estratégica estava nas mãos das equipes e sistemas ofensivos nucleares por falta de atuações e capacidades das equipes e sistemas convencionais mas isso está mudando e atualmente existem equipes e sistemas convencionais capazes de assumir o papel de sistema estratégico e, com isso, dissuadir ao inimigo.

(…)

Em dezembro de 2014, Mijail Budnichenko, Diretor Geral do estaleiro SEVMASH, numa entrevista com a Agência Interfax AVN levou a cabo uma afirmação interessante. Fonte: www.sevmash.ru

Segundo ele, o submarino Severodvinsk do projeto 885 irá realizar um novo tipo de missão na Armada Russa e esta será a Dissuasão Estratégica Não-Nuclear: Fonte: navaltoday.com

2014 foi rico em acontecimentos. Em junho, a bandeira de St. Andrew foi hasteada no topo do submarino nuclear de 4ª geração “Severodvinsk”. Este é um evento significativo para a construção naval da Rússia e da Marinha. O submarino nuclear multi-propósito do projeto 885 hoje não tem análogos no mundo. Este submarino, pela primeira vez na prática permite que a Marinha russa seja capaz de implementar um novo recurso – uma dissuasão estratégica não nuclear. Fonte: www.militarynews.ru

Dissuasão Estratégica Não-Nuclear… bem, mas o que isso representa?

A distância era o principal desvantagem na hora de alcançar os sistemas estratégicos do inimigo, sempre dentro do contexto russo-estadounidense. Somente os sistemas estratégicos nucleares ofereciam atuações para alcançar isso.

A imagem de satélite examinada de Mt Yamantau.Leia também: As bases ultra secretas da Rússia

Com a entrada em cena dos mísseis de cruzeiro isso se aliviou, pelo menos em parte. Porém, o problema era que os mísseis de cruzeiro não ofereciam suficiente precisão considerando que sua carga de combate convencional era insuficiente para provocar a destruição ou o dano de grandes áreas onde se encontravam os sistemas estratégicos do adversário, como silos de ICBM ou bunkers de Comando e Controle ou outros que estão superprotegidos.

No entanto, se dotou aos mísseis de cruzeiro (ALCM em lançamento aéreo e SLCM em lançamento desde submarino) de ogivas nucleares com as quais sua precisão passou para o segundo plano em face da enorme capacidade de provocar danos em uma grande área que conseguiam com a potência de suas ogivas nucleares.

Tomahawk da USAF.

J-55 da Força Aérea Russa.

Até aqui temos que se conseguiu alcance com os mísseis de cruzeiro e que esses se somaram aos ICBMs e SLBMs como armas estratégicas para dissuadir ao inimigo, atenuam o problema da falta de precisão desses utilizando a força bruta que lhes proporcionam suas ogivas nucleares.

Passaram-se muitos anos desde que a primeira geração de mísseis de cruzeiro estratégicos (alcance + ogiva nuclear) entrou em serviço e esta categoria deu um salto qualitativo enorme até conseguir maiores alcances e uma precisão muito alta com a qual não é necessário ter uma potência tão elevada para conseguir resultados semelhantes, ou seja, teríamos mísseis estratégicos não nucleares que oferecem “alcance + ogiva convencional” ao invés de “alcance + ogiva nuclear” mas que podem cumprir sua missão com garantias.

Aqui é onde entra em cena a nova geração russa de mísseis de cruzeiro e, para a já mencionada nova classe de submarinos nucleares SSGN projeto 885 que os portam em grande quantidade.

Severodvinsk: Em detalhe seus lançadores.

Os dados são que o projeto 885 leva, no dorso, um campo de lançadores verticais (VLS) com 8 espaços e nesses é possível alojar 4 silos em cada um para um total de 32 mísseis de cruzeiro. Fonte: saidpvo.livejournal.com

Além disso, as atuações dos mísseis de cruzeiro russos permitiriam a esta plataforma alcançar alvos a milhares de quilômetros de distância com uma precisão de uns poucos metros. Suficiente para destruir ou causar dano grave ao alvo alcançado.

DDH182_Ise_IHIMULeia também: Assassinos de porta-aviões da Marinha russa e o ambiente estratégico.

No contexto em questão, dissuasão estratégica não-nuclear, se traduz na opção de alcançar alvos estratégicos no território dos Estados Unidos ou da China como nunca até agora se pode fazer. Não só os mísseis de cruzeiro convencionais russos poderão chegar até as instalações estratégicas dos Estados Unidos ou China mas, além disso, farão com uma grande precisão o que permitirá que suas ogivas convencionais possam ser eficazes contra esses e, finalmente, conseguir a dissuasão que se busca.

Um aspecto importante, fundamental, de tudo isso é que o nuclear está engessado pelos acordos bilaterais START entre a Federação Russa e os Estados Unidos mas o convencional não, ou seja, a Armada Russa poderá implantar míssieis de cruzeiro estratégicos convencionais que lhe permitam melhorar sua capacidade de dissuasão estratégica mas esses não estarão sujeitos aos limites dos tratados de armas nucleares estratégicas, o que por si só pode trazer ventagens para Moscow.

Iskander K oculto pela vegetação. Fonte: mil.ru

Mesmo tendo Budnichenko colocado o ponto de mira no projeto 885 (será porque eles -SEVMASH- o construíram) o caso é que mais que a plataforma em si aqui o importante é a munição, o míssil de cruzeiro. Desta maneira, no futuro serão muitas as plataformas russas (tanto submarinas, como aéreas, como terrestres, como de superficie) que terão a sua disposição mísseis de cruzeiro estratégicos convencionais e com eles tudo o que temos comentado poderá ser aplicado, por exemplo, nos bombardeiros estratégicos não-nucleares (enfatizando não-nuclear como portador de munições convencionais) ou navios de superfície, ou TELs terrestres, ou outras classes de submarinos atualmente em processo de modernização (projeto 949AM), ou em construção (projeto 677).

Finalmente, a entrada em cena dos mísseis de cruzeiro estratégicos convencionais (diferentemente de outros considerando suas capacidades e atuações) significará que a Armada Russa e as Forças Armadas Russas em geral vão adquirir munições que poderão ser utilizadas em um conflito convencional mas, ao mesmo tempo, terão importancia estratégica em um enfrentamento não-convencional (nuclear) sem que se sejam contabilizados e limitados nos acordos sobre sistemas de armas nucleares estratégicas.

E isso será algo muito considerável no futuro.

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com

Fonte: Disuasión no nuclear en la armada russa

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