A crise financeira mundial que poucos previram: Porque o petróleo abaixo dos 30 dólares o barril é um grande problema.



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Frequentemente se lê que os preços baixos do petróleo – 30 dólares o barril, por exemplo – podem estimular a economia e esta em breve se recuperará. O que há de errado nesta narrativa? Muita coisa, como se verá:

1. Os produtores de petróleo não podem realmente produzir a 30 dólares o barril.

Alguns países podem extrair o petróleo a 30 dólares o barril. O Gráfico 1 dá uma aproximação dos custos técnicos de extração para vários países. Ainda assim, não há muitos países a extraírem petróleo abaixo dos 30 dólares/barril – só Arábia Saudita, Irã e Iraque. Não haveria muito petróleo bruto se apenas estes países o produzissem.

Gráfico 1. Breakeven global de preços (considerando só custos técnicos de extração) e produção de petróleo. Fonte: Alliance Bernstein, Outubro 2014.

2. Os produtores de petróleo realmente precisam de preços mais altos do que os custos técnicos de extração mostrados na Gráfico 1, o que torna a situação ainda pior.

O petróleo só pode ser extraído dentro de um sistema mais vasto. As companhias precisam pagar impostos. Estes podem ser muito altos. Historicamente, para muitos países da OPEP, a inclusão dos mesmos elevou os custos totais a mais de 100 dólares/barril .

Companhias independentes em países não OPEP também têm outros custos além dos técnicos de extração, incluindo impostos e dividendos para acionistas. Além disso, se as companhias quiserem evitar tomar emprestado um enorme montante de dinheiro, precisam ter preços mais elevados do que simplesmente os custos técnicos de extração. Se precisarem contrair empréstimos, os custos dos juros também precisam ser considerados.

3. Quando os preços do petróleo caem muito baixo, os produtores geralmente não interrompem a produção.

Há demoras inerentes ao sistema de produção de petróleo. Vários anos são necessários para por em andamento um projeto de extração. Companhias envolvidas num projeto não costumam parar se ocorrerem preços baixos. Uma das razões para continuarem num projeto é a existência de dívida que deve ser reembolsada com juros, continue ou não o projeto.

Além disso, uma vez feito um furo pode continuar a produzir durante vários anos. Os custos permanentes após a perfuração inicial geralmente são muito baixos. Os furos efetuados anteriormente geralmente serão mantidos em operação, pouco importando o preço corrente de venda do petróleo. Em teoria, estes furos podem ser interrompidos e recomeçados, mas os custos envolvidos tendem a desencorajar esta ação.

Os exportadores de petróleo continuarão a perfurar novos poços porque os seus governos precisam das receitas fiscais das vendas para financiarem seus programas. Estes países tendem a ter baixos custos de extração, aproximadamente toda a diferença entre o preço de mercado e o preço exigido para operar a companhia acaba por ser pago em impostos. Portanto, há um incentivo para elevar a produção a fim de gerar receita fiscal adicional, se os preços caírem. Esta é a questão para a Arábia Saudita e muitos outros países da OPEP.

Muito frequentemente, companhias de petróleo compram contratos derivativos que as protegem do impacto de uma queda nos preços de mercado durante um período de tempo especificado (tipicamente um ano ou dois). Estas companhias tenderão a ignorar quedas de preços enquanto estes contratos estão em vigor.

Há também a questão da retenção de empregados. Num certo sentido, os maiores ativos de uma companhia são os seus empregados. Uma vez perdidos estes empregados, será difícil contratar e treinar outra vez novos empregados. Assim, os empregados são mantidos por tanto tempo quanto possível.

Os EUA continuam a aumentar seu empenho nos biocombustíveis , sem se preocuparem com o preço do petróleo. Ninguém pára para pensar que na situação atual de super-oferta, este empenho aumenta a pressão por preços baixos.

Choques dos preços do petróleo desde a crise de 1973. Inflação ajustada. Fonte: InflationData.com

Um travamento no sistema deveria ser a aflição financeira induzida pelos preços baixos do petróleo, mas este efeito de travagem não ocorre necessariamente muito depressa. Exportadores de petróleo muitas vezes têm fundos de riqueza soberana a que podem recorrer para compensar baixa receita fiscal. Devido à disponibilidade destes fundos, alguns exportadores podem continuar a financiar serviços governamentais durante dois ou mais anos, mesmo com preços de petróleo muito baixos.

Incumprimentos de empréstimos de companhias de petróleo também deveriam atuar como travamento no sistema. Sabemos que durante a Grande Recessão, os reguladores permitiram que empréstimos para o imobiliário comercial fossem estendidos , mesmo quando as avaliações da propriedade caíam, mantendo oculto o problema. Para os reguladores há uma tentação de permitirem complacência semelhante quanto a empréstimos a companhias de petróleo . Se isto acontecer, o “efeito travagem” no sistema é reduzido, permitindo que o problema do incumprimento cresça até se tornar muito grande e não puder mais ser escondido.

4. A procura de petróleo não aumenta muito rapidamente após a queda de preços a partir de um nível alto.

Algumas pessoas pensam que ir de um preço baixo para um preço alto é o oposto de ir de um preço alto para um preço baixo, em termos dos efeitos sobre a economia. Realmente não é o caso.

4a. Quando os preços do petróleo sobem de um preço baixo para um preço alto, isto geralmente significa que a produção tem sido insuficiente, apenas com a produção que podia ser obtida ao nível de preço mais baixo anterior. O preço deve ascender a um nível mais alto a fim de estimular produção adicional.

A razão porque o custo da produção de petróleo tende a subir é porque o óleo de extração mais barato é removido primeiro. Os produtores de petróleo devem portanto continuar a acrescentar produção que é sempre mais expressivo por uma razão ou por outra: localização de alcance mais difícil, tecnologia mais avançada, ou necessidade de passos adicionais que exigem trabalho humano adicional e mais recursos físicos. Eficiências crescentes podem de certo modo compensar esta tendência, mas a tendência global do custo de produção tem sido drasticamente de subida desde cerca de 1999 .

A ascensão do preço do petróleo tem um impacto adverso sobre a viabilidade (affordability). O padrão habitual é que após uma subida no preço do petróleo economias de países importadores de petróleo entrem em recessão. Isto acontece porque os salários dos trabalhadores não aumentam ao mesmo tempo que os preços do petróleo. Em consequência, os trabalhadores descobrem que não podem comprar tantos produtos e devem reduzir os gastos. Estas reduções em compras criam problemas para os negócios, porque estes geralmente têm custos fixos que incluem hipotecas e outros pagamentos de dívidas. Se estes negócios tiverem de continuar a operar são forçados a cortar custos de um modo ou de outro. A redução de custo ocorre de muitas maneiras, incluindo reduções de salários de trabalhadores, despedimentos, automação e deslocalizações de manufaturas para locais mais baratos.

Tanto para empregadores como para empregados, o impacto destas mudanças rápidas frequentemente é sentido como se um tapete tivesse sido puxado debaixo dos pés. É muito desagradável e desconcertante.

4b. Quando os preços caem, a situação que se verifica não é a oposta da situação 4a. Os empregadores acham que graças aos preços mais baixos do petróleo os seus custos serão um pouco mais baixos. Muito frequentemente, eles tentarão manter algumas destas poupanças como lucros mais elevados. Governos podem optar por elevar taxas de impostos sobre produtos petrolíferos quando os preços caem, porque os consumidores serão menos sensíveis a uma tal mudança do que seria o caso de outra forma. Empresas não têm qualquer motivação em abandonar técnicas de economia de custos que adotaram, tal como a automação ou a deslocalização para lugares mais baratos.

Poucos empresários construirão novas fábricas com a expetativa de que os preços baixos do petróleo estarão disponíveis por longo tempo, porque entendem que os preços baixos são apenas temporários. Eles sabem que se os preços não recuarem num razoável período de tempo (meses ou poucos anos), a quantidade de petróleo disponível é provável que caia precipitadamente. Se houver suficiente petróleo disponível no futuro, os preços precisarão ser suficientemente altos para cobrirem o verdadeiro custo de produção. Portanto, os baixos preços atuais são no máximo um benefício temporário – algo como o olho de um furacão.

Uma vez que o impacto dos preços baixos é apenas temporário, os empresários desejarão adotar apenas mudanças que possam acontecer rapidamente e possam ser facilmente revertidas. Um restaurante ou bar pode acrescentar mais empregados e empregadas de mesa. Um negócio de vendas de carros pode acrescentar mais alguns vendedores porque as vendas podem ser melhores. Uma fábrica automobilística pode programar mais turnos de trabalhadores, de modo a manter muito alto o número de carros produzidos. Companhias de aviação podem acrescentar mais voos, se o puderem fazer sem comprar aviões adicionais.

Devido a isso, os postos de trabalho que são acrescentados à economia são provavelmente sobretudo no setor de serviços. A mudança em direção a terceirização nos países de baixo custo e automação pode ser esperada para continuar. Cidadãos obterão algum benefício com os preços do petróleo mais baixos, mas não tanto se governos e empresários avançarem para partilhar suas poupanças. O benefício para cidadãos será muito menor do que se todas as pessoas que foram demitidas na última recessão obtivessem seus empregos de volta.

5. A queda drástica nos preços do petróleo nos últimos 18 meses tem pouco a ver com o custo de produção.

Os preços recentes do petróleo representam, ao contrário, uma tentativa do mercado para encontrar um equilíbrio entre oferta e procura. Uma vez que a oferta não desce rapidamente em resposta a preços mais baixos e a procura não sobe rapidamente em resposta a preços mais baixos, os preços podem cair muito baixo – bem abaixo do custo de produção. [NR]

Como observado na Seção 4, os preços altos do petróleo tendem a ser recessivos. O método primário de compensar forças recessivas é, direta ou indiretamente, acrescentar dívida a baixas taxas de juros. Com este aumento da dívida, mais casas e fábricas podem ser construídas e mais carros podem ser comprados. A economia pode ser forçada a atuar de uma maneira mais “normal” porque as baixas taxas de juros e a dívida adicional em certo sentido neutralizam o impacto adverso de altos preços do petróleo.

Gráfico 2. Oferta mundial e preços do petróleo com base em dados da EIA.

Os preços do petróleo caíram muito baixo em 2008 devido a influências recessivas que se verificaram quando os preços estavam altos. Foi apenas com o benefício do estímulo baseado em dívida considerável que os preços do petróleo foram gradualmente bombeados de volta ao nível de mais de US$ 100 por barril. Este estímulo incluiu o gasto deficitário dos Estados Unidos, a Quantitative Easing (QE) que teve início em Dezembro de 2008, e um aumento considerável da dívida por parte dos chineses.

Os preços das commodities tendem a ser muito voláteis porque utilizamos grandes quantidades delas e porque a [capacidade de] armazenagem é bastante limitada. A oferta e procura tem de equilibrar-se quase exatamente, ou os preços ajustam-se mais altos ou mais baixos. Agora estamos de volta a uma situação “fora de equilíbrio”, semelhante à que estávamos no fim de 2008. Nossas opções para consertar a situação desta vez são mais limitadas. As taxas de juros já estão muito baixas e os governos geralmente sentem que têm demasiada dívida para poderem tratá-la com segurança.

6. Um fator que contribui para os preços do petróleo baixo de hoje é um abandono nos esforços de estímulo de 2008.

Como observado na Seção 4, os altos preços do petróleo tendem a ser recessivos. Como observado na Seção 5, este impacto recessivo pode, pelo menos em alguma medida, ser compensado por estímulos na forma de dívida acrescida e taxas de juro mais baixas. Infelizmente, este estímulo tem tendido a ter consequências adversas. Ele encorajou a construção excessiva tanto de casas como de fábricas na China. Encorajou uma ascensão especulativa nos preços dos ativos. Encorajou investimentos em empresas de lucratividade questionável, incluindo muitos investimentos petrolíferos em formações xistosas nos EUA.

Em resposta a estes problemas, o montante dos estímulos está a ser reduzido. Os EUA descontinuaram seu programa QE e reduziram seu gasto deficitário. Em Dezembro de 2015 até começaram a aumentar as taxas de juros. A China também está reduzindo a quantidade de nova dívida que está a acrescentar.

Infelizmente, sem o alto nível de estímulos do passado, é difícil para a economia mundial crescer bastante rapidamente a fim de manter altos os preços de todas as commodities, incluindo o petróleo. Isto é um fator importante que contribui para os atuais preços baixos.

7. O perigo com os preços do petróleo muito baixos é que vamos perder os produtos energéticos sobre os quais repousa nossa economia.

Há um certo número de diferentes meios pelos quais a produção petrolífera pode ser perdida se os preços baixos do petróleo continuarem por um período extenso.

Em países exportadores de petróleo pode haver revoluções e tumultos políticos que levem a uma perda da produção do óleo.

Em quase qualquer país, pode haver uma redução drástica na produção porque companhias de petróleo não podem obter financiamento de dívida para pagar mais serviços. Em alguns casos, companhias podem ir à falência e os novos proprietários podem optar por não extrair petróleo a preços baixos.

Pode também haver problemas financeiros em todo o sistema que indiretamente levam à redução da produção. Exemplo: se os bancos não podem confiar em serviços de folhas de pagamento ou garantir o pagamento para remessas internacionais, tais problemas afetariam todas as companhias de petróleo, não apenas aquelas em dificuldade financeira.

O petróleo não é o único dos seus problemas. O carvão e o gás natural também estão experimentando preços baixos. Poderiam passar por rupturas indiretamente devido aos preços baixos continuados.

8. A economia não pode ir longe sem uma oferta adequada de petróleo e outros produtos de combustíveis fósseis.

Frequentemente lemos na imprensa artigos que parecem sugerir que a economia poderia passar sem os combustíveis fósseis. Exemplo: dá-se a impressão de que as [energias] renováveis estão “logo ali” e que a sua existência eliminará a necessidade de combustíveis fósseis. Infelizmente, neste momento, nós de modo algum seremos capazes de ir muito longe sem combustíveis fósseis.

Os alimentos são cultivados e transportados utilizando produtos petrolíferos. As estradas são feitas e mantidas utilizando petróleo e outros produtos energéticos. O petróleo é o maior produto energético individual.

A experiência num longo período mostra um laço estreito entre a utilização de energia e o crescimento do PIB (Gráfico 3). Praticamente toda a tecnologia é fabricada a partir de produtos de combustíveis fósseis. Assim, mesmo o crescimento energético atribuído a melhorias tecnológicas poderia ser considerado estar disponível devido em grande medida aos combustíveis fósseis.

Gráfico 3. Crescimento do PIB mundial comparado com o crescimento do consumo energético mundial para períodos de tempo selecionados desde 1820. As tendências do PIB real mundial desde 1975 até o presente são baseadas no USDA real GDP data em 1975 e anos seguintes, a preços de 2010 (estimativa do autor para 2015). As estimativas anteriores a 1975 são baseadas no Maddison projet updates . O crescimento na utilização de produtos energéticos é baseado numa combinação de dados do Apêndice A de Energy Transitions: History, Requirements and Prospets , de VaclavSmil, juntamente com a BP Statistical Review of World Energy 2015 para 1965 e anos seguintes.

Se bem que as renováveis estejam a crescer, elas ainda representam apenas uma minúscula fatia do consumo energético mundial.

Gráfico 4. Consumo energético mundial por combustível, com base na BP Statistical Review of World Energy 2015.

Portanto, não estamos próximos do ponto em que a economia mundial possa continuar a funcionar sem uma oferta adequada de petróleo, carvão e gás natural.

9. Muita gente acredita que os preços do petróleo tornarão a recuperar e tudo ficará bem outra vez. Isto parece improvável.

O custo crescente da extração de petróleo com que nos deparamos nos últimos 15 anos representa uma forma de retornos decrescentes. Uma vez tornados altos os custos de fazer produtos energéticos, uma economia está permanentemente mutilada. Preços mais elevados do que aqueles verificados no período 2011-2014 são realmente necessários se a extração tiver de continuar e crescer. Infelizmente, preços tão altos tendem a ser recessivos. Em consequência, preços altos tendem a pressionar a procura para a baixa. Quando a procura cai demasiado, os preços tendem a cair muito baixo.

Soluções Possíveis?

Há vários meios para melhorar a procura por commodities e, portanto, elevar os preços outra vez. Isto inclui (1) aumentar salários de trabalhadores não elite; (b) aumentar a proporção da população com empregos; e (c) aumentar o montante de dívida. Nenhum destes meios está a mover-se na direção “correta”.

Joseph Tainter em The Collapse of Complex Societies destaca que uma vez começados os retornos decrescentes, a resposta é mais “complexidade” para resolver estes problemas. Os programas de governo tornam-se mais importantes e os impostos frequentemente ficam mais altos. A educação dos trabalhadores de elite torna-se mais importante. Os negócios tornam-se maiores. Esta complexidade acrescida leva a que mais do produzido pela economia seja canalizado para setores da economia diferentes daqueles com salários de trabalhadores não elite. Como há demasiado destes trabalhadores não elite, sua falta de poder de compra afeta adversamente a procura por bens que utilizam commodities, tais como casas, carros e motocicletas. [1]

Outra força tendente a restringir a procura é uma proporção mais pequena da população na força de trabalho. Há muitos fatores que contribuem para isto: Pessoas jovens ficam mais tempo na escola. O grosso dos trabalhadores nascidos após a II Guerra Mundial está agora a atingir a idade de aposentar. Salários atradados tornam cada vez mais difícil para pais jovens cuidarem das crianças para que ambos possam trabalhar.

Como observado na Seção 5, o crescimento da dívida já não está a subir tão rapidamente como no passado. De fato, estamos vendo o começo dos aumentos nas taxas de juros.

Quando acrescentamos a estes problemas a desaceleração do crescimento da economia chinesa e o novo petróleo que o Irã estará a acrescentar à oferta mundial, é difícil ver como o desequilíbrio petrolífero será reparado num período de tempo razoável. O desequilíbrio, ao contrário, parece que provavelmente permanecerá num nível elevado, ou mesmo pior. Com [capacidade de] armazenagem disponível limitada, os preços tenderão a continuar a cair.

10. O avanço rápido da produção de petróleo nos EUA depois de 2008 deu uma contribuição significativa para o descompasso entre a oferta e a procura de petróleo que se tem verificado desde meados de 2014.

Sem a produção dos EUA, a produção mundial de petróleo (definida de modo amplo, incluindo biocombustíveis e líquidos de gás natural) está quase estagnada.

Gráfico 5. Produção total de líquidos para o mundo como um todo e para o mundo excluindo os EUA, com base em dados do International Petroleum Monthly, da EIA.

Encarada separadamente, a produção de petróleo dos Estados Unidos cresceu muito rapidamente. A produção total subiu seis milhões de barris/dia entre 2008 e 2015.

Gráfico 6. Produção de líquidos dos EUA, com base em dados da EIA (International Petroleum Monthly, Junho/2015, complementado pela Monthly Energy Review para dados mais recentes).

A razão porque a oferta de petróleo nos Estados Unidos pôde crescer muito rapidamente deveu-se em parte à QE que levou à disponibilidade de dívida a taxas de juro muito baixas. Além disso, os investidores encontraram rendimentos sobre a dívida tão baixos que eles compraram praticamente qualquer investimento de capital que parecia ter uma chance de valor a longo prazo. A combinação destes fatores, mais a crença de que os preços do petróleo aumentariam sempre porque os custos de extração tendem a subir ao longo do tempo, canalizou grandes montantes de fundos de investimento para o setor dos combustíveis líquidos.

Em consequência, a produção de petróleo (definida de modo amplo) nos EUA aumentou rapidamente, crescendo de aproximadamente 1 milhão de barris por dia em 2012, para 1,2 milhão de barris por dia em 2013 e 1,7 milhão de barris por dia em 2014. Os números finais ainda não estão disponíveis, mas dão a impressão de que a produção dos Estados Unidos ainda aumentou outros 700 mil barris por dia em 2015. Os 700 mil barris por dia acrescentados pelos EUA em 2015 são provavelmente mais do que o montante acrescentado pela Arábia Saudita ou pelo Iraque.

O consumo mundial não aumenta rapidamente quando os preços estão altos. O consumo mundial aumentou 871 mil barris por dia em 2012; 1.397.000 barris por dia em 2014; e 843 mil barris por dia em 2014, segundo a BP. Portanto, em 2014 os EUA sozinhos acrescentaram aproximadamente tanto petróleo, o dobro, quanto o aumento da procura mundial. Este descompasso provavelmente contribuiu para o colapso dos preços em 2014.

Dado o papel evidente dos EUA em criar o descompasso entre a oferta e a procura, não deveria ser demasiado surpreendente que a Arábia Saudita esteja relutante em tentar consertar o problema.

Conclusão.

As coisas não estão funcionando do modo que esperávamos. Não parece que podemos fazer com que oferta e procura se equilibrem. Se os preços estiverem altos, as companhias podem extrair uma grande quantidade de petróleo, mas os consumidores não podem pagar os produtos que o utilizam, tais como casas e carros; se os preços estiverem baixos, as companhias tentam continuar a extrair petróleo, mas a seguir arcam com problemas financeiros.

Para complicar o problema há a contínua necessidade de estímulos da economia a fim de manter os preços do petróleo e outras commodities suficientemente altos para encorajar a produção. Os estímulos parecem assumir a forma de dívida sempre crescente mesmo a taxas de juro mais baixas. Tal programa não é sustentável, parcialmente porque leva a mau investimento e parcialmente porque leva a uma bolha de dívida que está sujeita a colapso.

O estímulo parece ser necessário devido ao atual alto custo de extração do petróleo. Se o custo de extração ainda fosse muito baixo, este estímulo não seria necessário porque produtos que utilizam petróleo seriam mais acessíveis.

Alguns tomadores de decisão pensam que o [problema do] pico petrolífero (peak oil) poderia ser resolvido simplesmente produzindo mais petróleo e mais produtos substitutos ao petróleo. Está se tornando cada vez mais claro que o problema é mais complicado do que isso. Precisamos encontrar um meio de fazer com que todo o sistema opere corretamente. Precisamos produzir exatamente a quantidade correta de óleo que os compradores podem pagar. Os preços precisam ser suficientemente altos para produtores de petróleo, mas não demasiado altos para compradores de bens que utilizam o petróleo. O montante de dívida não deveria disparar fora de controle. Não parece haver um meio de produzir o resultado desejado, agora que os custos de extração são altos.

RolloverO Grande Rollover: A extensão ou transferência de uma dívida ou outro acordo financeiro. O mercado do Petróleo: à esquerda mercado de compradores e à direita mercado de vendedores.

Austeridades embutidas no sistema de preços de oferta (como descrito nas Seções 3 e 4) tendem a ocultar problemas, deixando-os tornarem-se cada vez maiores. Eis porque poderíamos subitamente nos deparar com um grande problema financeiro que poucos anteviram.

Infelizmente, o que estamos a enfrentar agora é uma situação aflitiva, ao invés de um problema. Muito provavelmente não há boa solução. Isto é preocupante.

  • Notas:

    [1] Por exemplo: mais dividendos e juros são pagos, tendendo a beneficiar a indústria financeira e as classes da elite. Mas o produto da economia vai para trabalhadores em posições de supervisão ou com educação avançada. Outros trabalhadores – aqueles com responsabilidades mais “comuns” – vêem os seus salários ficarem para trás da ascensão geral do custo de vida. Em consequência, eles verificarão que é cada vez mais difícil comprar casas, carros, motocicletas e outros bens que utilizam commodities.

    [NR] Esta explicação, que é a convencional, é contrariada por Katasonov. Ele considera que a situação foi alterada a partir do momento em que a Wall Street inventou o “petróleo-papel”, ou seja, o mercado de futuros do petróleo – o qual é facilmente manipulável. Atualmente, considera Katasonov, os preços spot do petróleo estão a ser determinados pelo mercado de futuros. Ver O cartel bancário que dirige o mercado petrolífero.

    [Rollover] Na negociação de divisas (FX), um capotamento (rollover) é a ação a ter lugar no final do dia, onde todas as posições em aberto com data-valor igual a SPOT, serão transferidas para o próximo dia útil. Isto acontece uma vez que na negociação de FX o comerciante não quer realmente comprar as moedas negociadas, mas continua a negociar até que a posição seja fechada.

    Por exemplo, na segunda-feira todas as posições, com data-valor de quarta-feira (no caso de T + 2) serão roladas e a data valor será atualizada para quinta-feira. A posição, com data-valor de sexta-feira será atualizada com data-valor da próxima segunda-feira.

    Plataformas de negociação oferecem sobreposições, mas o processo envolve uma taxa de juro de refinanciamento, que é calculado de acordo com a diferença entre as taxas de juro das moedas negociadas. Se a taxa de juros de longa posição do comerciante é maior do que a taxa sobre a posição curta, o comerciante recebe o interesse. Se a taxa de juros em posição curta do comerciante é maior do que a taxa da posição longa, em seguida, o comerciante paga os juros. Para fins de semana e feriados, a rolagem é multiplicada pelo número de dias de capotamento.

    Autor: Gail Tverberg

    Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com

    Fonte: Our Finite World

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