A ilusão bancária de crises: Europa, BREXIT e Brasil.


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Passado o primeiro impacto do resultado do plebiscito de 23 de junho, no Reino Unido (UK), que aprovou a saída daquele país da União Europeia, precisamos analisar com cautela e consistência o que ele representou e quais as possíveis consequências daquela manifestação popular.

O aspecto mais midiaticamente exposto foi da xenofobia e do racismo que teria motivado a maioria absoluta dos eleitores britânicos. Não há como negar a presença estrangeira no país que dominou grande parte do mundo – “onde o sol nunca se punha” – por quase um século e, por cálculo econômico, concedeu a asiáticos, africanos, islâmicos o passaporte britânico. E, observe também, como a imprensa em geral vem criminalizando, desde o 11 de setembro de 2001, os muçulmanos, ora como terroristas, ora como aproveitadores dos benefícios sociais existentes nos países europeus, ora, até com a má e parcial leitura de sua religiosidade, como “intrinsecamente maus”.

Ignorar o reflexo desta campanha na mente da numerosa e intelectualmente precária classe média de qualquer país é torpe, como o é a quase absoluta comunicação de massa do século XXI. O aspecto xenófobo e a insularidade ajudaram à exclusão do UK.

Mas o aspecto mais amplo está na precariedade da vida dos assalariados e dos despossuídos, quer britânicos quer europeus e em quase todo mundo. Esta precariedade, no meio de um mundo sempre mais rico, é fruto de três décadas do domínio absoluto das políticas nacionais pelo capitalismo financeiro internacional, que denomino “banca”.

Cabem algumas reflexões sobre este governo da banca. Há um dado estatístico significativo e com relação à Europa: o número de ricos e pobres. Logo após a II Guerra Mundial, para um rico havia 12 pobres; em 1980, quando a maré neoliberal inicia trajeto para o domínio mundial, já estava 1 para 82; agora se calcula 1 para 530. Este é um dos dois objetivos fundamentais da banca: a concentração de renda. O outro é a transferência dos ganhos de todos os segmentos da economia – indústria, comércio, transporte, comunicação de massa etc – para o sistema financeiro.

Estes dois objetivos resultam no desemprego, no subemprego, na redução dos gastos sociais e da previdência e na pauperização que se observa a olho nu em todo mundo, inclusive no “mundo desenvolvido”. Ignorar que esta condição existencial não tenha influído no plebiscito é fazer pouco caso da inteligência alheia.

Mas esta percepção se confunde com os discursos oficiais e com a intensa e constante propaganda dos veículos de comunicação. Veja, por exemplo, a “austeridade”, o “controle dos gastos”, o “rigor fiscal”, palavras e expressões que induzem à compreensão de ações sérias, responsáveis e consequentes mas que, na verdade e efetivamente, podem ser traduzidas por: vamos transferir a receita dos salários, das aposentadorias e pensões, dos lucros empresariais, do valor dos alugueis para os juros, ou seja, todos os ganhos devem ser maximamente concentrados no pagamento dos juros. E aí se acrescenta a desinformação que dá a falsa impressão que são as despesas com as pessoas que precarizam a situação econômica; No orçamento brasileiro de 2014, o pagamento dos juros e amortização da dívida representou 45,11% das despesas e o segundo maior item destas foi a previdência social com menos da metade, 21,76% (Auditoria Cidadã).

E, neste aspecto, o Reino Unido e a Europa Continental em nada diferem do Brasil. E na mal informada e acrítica classe média e mesmo em parcelas das classes mais favorecidas fica aquele vago e impreciso sentimento que “é preciso mudar tudo”, “a corrupção é o grande mal”. Realmente, mas quem é mais corrupta do que a banca que acolhe e procura todo dinheiro dos tráficos de drogas, de pessoas, dos ilícitos diversos, dos caixa 2, com os braços abertos de seus “paraísos fiscais”, onde o coloca a salvo da justiça e dos tributos.

Voltemos ao Brexit. É apontado como vitória da direita. A direita soube, realmente, como em outros momentos da história, aproveitar a precariedade da economia para incentivar o sentimento quase natural do nacionalismo dos povos. E a esquerda, perdida desde o desmanche da União Soviética e da conversão da China à economia de mercado (!), caiu nas garras da banca pelo discurso pacifista e solidário da União Europeia. Isto leva-a a apoiar o sistema financeiro internacional com o Partido Trabalhista britânico, os Partidos Socialistas francês, espanhol e até o grego, vítima de um artifício contábil para sua escravização à banca, ou seja, à dominação política.

Mas penso que a banca não foi derrotada, como alguns analistas estão compreendendo. As “crises”, que somam nove desde 1990, foram os instrumentos para consecução dos objetivos da banca. De 1990 até 2000, tivemos quase uma por ano, distribuídas pelos continentes: Europa, Ásia e América Latina. Com o mecanismo das crises, a banca cresceu, concentrou renda e dominou quase todos os governos nacionais, pois não foram os imprevistos e irresponsabilidades das economias e governos que as provocaram.

A “crise” de 2008, a mais forte e ampla até agora, teve seu epicentro na maior economia mundial, os Estados Unidos da América (EUA), na primeira moeda das trocas internacionais (o dólar) e com o intervalo de sete anos em relação à anterior (2001, na Argentina). Como este processo é uma bicicleta, precisa continuar permanentemente para se equilibrar, meu entendimento é que estamos às vésperas de mais uma “crise”, já passados oito anos. E onde melhor do que na ainda rica Europa, do euro, a segunda moeda internacional. Não estaria o Brexit acendendo o pavio desta “crise”?

Apenas questionando, o projeto de unificação dos mercados de capitais europeu não submeteria o Reino Unido a eventual mudança de rumo da Alemanha? Ou uma fuga à pressão da banca por indesejável regulação pelo Congresso Europeu dominado por eventual direita nacionalista?

E o Brasil, frágil politica e economicamente, com um governo não escolhido pelo povo e uma imprensa oligopolista e familiar, tudo deturpando e muito desinformando, sofrerá mais uma vez?

Agradecimento de Dinâmica Global ao autor pela excelente análise e colaboração.

Autor: Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado

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