O “Brexit” e o mundo: dez realidades para refletir.


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Finalmente, os cidadãos britânicos foram às urnas e o resultado foi conclusivo: 51,9 por cento contra 48,1 por cento dos votos decidiu que o Reino Unido deve abandonar a União Européia. Sem dúvida alguma, foi um dia tão histórico como aquele 1 de janeiro de 1973, quando o Reino Unido ingressou na então Comunidade Econômica Européia; embora agora, diferente daquele distante acontecimento que praticamente não significou risco algum para o ascendente emprendimento europeu iniciado em 1957, a saída não só implica um abalo no espaço de integração mais avançado do mundo, como poderia levar a outros membros da UE a seguir esse curso de ruptura.

A decisão britânica nos demonstra que sempre é imperioso trabalhar com “hipóteses de fracasso”, mesmo diante daquelas situações que não só se apresentam como irreversíveis, senão como modelos a serem imitados.

Em grande medida, sobretudo após o final da Guerra Fria, o processo de integração na Europa era um desses fatos auspiciosos e invariáveis do mundo, tal como um desses acontecimentos que mais refletia a nova forma de exercício suave de poder nas relações entre Estados: a ser seguido por outros (Estados) por meio da atração mesmo que por coerção.

A decisão britânica de abandonar a UE demonstra que a integração européia não é um processo irreverssível, enquanto que aquele que era considerado um verdadeiro fim superador das rivalidades entre Estados, a formação de um grande espaço “pós-nacional”, nem sempre é um caminho seguro e conveniente para os países.

Mas além deles existem as centrais de debate sobre o Brexit, pode ser que uma análise mais ampla ou mais global nos proporcione dados que ajudem a compreender a decisão rupturista como assim também o inquietante contexto em que sucede este acontecimento de ruptura súbita chave na Europa, e que, em parte, influi sobre a mesma.

Em primeiro lugar, a decisão de abandonar a Europa é quase indissociável do “hábito” britânico de defender com muito zelo a independência baseada em um passado glorioso e em seu carácter geopolítico insular e marítimo.

Como bem nos recorda o especialista David Mathieson, uma das razões que explica que Londres não se encontra entre as capitais da Europa que deseja “uma união cada vez mais estreita” entre os sócios europeus é a história de Grã-Bretanha e o continente: “Lord Salisbury foi o primeiro em descrever o principio organizador da política exterior britânica no final do século XIX como um esplêndido isolamento. Enquanto as potências continentais disputavam pela supremacia e por rivalidades nacionais que frequentemente acabavam estalando em banhos de sangue, os britânicos tentavam evitar intervir na Europa. Em outras ocasiões os excluiu”.

Em segundo lugar, “os novos medos”, ao utilizar as palavras do francês Marc Augé; possa ser, a ameaça de “evanescencia” de posicões conquistadas e de valores ou bens locais e nacionais. Em resumo, tudo aquilo que ameaça a segurança pessoal, econômica, social, do meio ambiente, etc.

Trata-se de um fenômeno global, ainda que o temor do novo cunho se tenha disseminado mais no espaço de integração europeu a partir da imposibilidade de manter separadas a “zona próspera”, Europa, e a “zona desafortunada”, África do norte e Oriente Médio. A chegada de estrangeiros extracomunitarios aos países mais economicamente afluentes da UE, sem dúvida foi o fator que mais preocupação causou e o que em boa medida decidiu a eleição antieuropéia em condados industriais importantes do Reino Unido.

Em terceiro lugar, a lógica de um mundo configurado com base em blocos geoeconômicos não foi o que finalmente predominou. Se bem que em algum momento quase ninguém discutia essa tendência que parecia o fundamento da pedra angular para a segurança internacional, pois a nenhum país convinha uma ruptura de abundantes interesses comerciais intra-bloco onde “todos ganhavam”, hoje predomina a lógica centrada em “O mundo é o mercado e o mercado é o mundo”.

Em quarto lugar, tão pouco tem predominado no mundo o que se denomina o “modelo institucional”, ou seja, a predominância de instituições intergovernamentais e normas do direito internacional. Se bem que o mundo não é “uma cidade sem semáforos” pois existe o que os especialistas denominam “ordem administrada”, a lógica que predomina é a que Stanley Hoffmann denomina “política como de costume”, a saber, Estados e “interesses e segurança nacional primeiro”.

Nestes termos, assim como economicamente a Londres lhe interessa a Europa nada mais que como um grande espaço de livre comércio, politicamente sempre defendeu a preeminencia do Conselho Europeu sobre a Comissão Européia, ou seja, o espaço onde se defendem os interesses desses Estados europeus antes que o espaço onde se defendem os interesses da UE.

Em quinto lugar, sem dúvida que a estrutura do mundo é mais multipolar que unipolar, se bem que a preeminência dos Estados Unidos ainda é inigualada. Mas a multipolaridade não implica multilateralismo, ou seja, não implica no fortalecimento de um sistema que associa os Estados e os restringe ou sujeita a regras acordadas entre eles.

Pelo contrário, a estrutura de um mundo baseado em vários pólos pode implicar menos estabilidade internacional devido à dificultade para alcançar acordos sobre temas de escala, por exemplo, intervenção em conflitos internos (considerem os da Síria), questões estratégicas (considerem os das desavenças entre Estados Unidos e Rússia pelo escudo antimísseis), tem as nucleares (considerem se a França estaria disposta a compartilhar seu ativo nuclear com outros sócios do espaço pósnacional europeu), etc.

Em sexto lugar, a geopolítica continua sendo uma disciplina central na política internacional. Ainda hoje pode resultar quase absurdo recordá-lo, durante um bom tempo desde o final da Guerra Fria os países europeus parecem esquecer a disciplina que nasceu precisamente no continente.

Essa falta os arrastou para o comportamento de uma espécie de “potência civil-institucional”, uma categoria não registrada na história (e menos ainda na de Europa). Mas a questão da Ucrânia recordou à UE que a geopolítica não só nunca se foi, como que também subestimá-la podia levá-la a situações que se considerassem “superadas”, por exemplo, tensões interestatais no próprio continente.

Em sétimo lugar, muito relacionado com a anterior, esquecer ou depreciar a geopolítica conduziu a Europa a uma situação que podemos denominar “anti-geopolítica”, ou seja, a “deixar em outros” questões que implicavam a preservação de seus próprios espaços e interesses.

Em outros termos, por haver seguido “guiões estratégicos” alheios hoje a Europa se encontra em confrontação com a Rússia, país com quem antes da crise na Ucrania mantinha uma relação comercial de escala, com a qual em parte solucionava um de seus principais déficits estratégicos, a energia, e com quem podia contar para ser parte dos dois espaços chaves do século XXI: o espaço atlântico-ocidental e o espaço euro-asiático-pacífico.

Em oitavo lugar, em todo o globo ocorre um notável processo de acumulação militar: em 2015 os gastos militares aumentaram em 1,7 bilhões de dólares (1,5 bilhões de euros), cifra que supõe um incremento de um por cento com respeito ao gasto de 2014. Neste segmento de poder, os países da UE deixaram de situar-se entre os primeiros, sendo Reino Unido desbancado do quarto lugar pela Arábia Saudita.

Mas talvez o dado mais inquietante neste quadro de acumulação militar é que se existe um cenário no globo onde pode ocorrer uma deteriorização da situação que implique numa escalada, esse cenário é a Europa: de fato, já está sucedendo uma quase encoberta corrida de armas e desafios entre a OTAN e a Rússia.

Em novo lugar, os Estados sob líderes robustos e centralizados desafiam os Estados sob lideranças abertas e descentralizadas. Como adverte Robert Kagan: “é um erro pensar que a autocracia carece de atrativo internacional. Graças a décadas de apreciável crescimento, hoje em dia os chineses podem argumentar que seu modelo de desenvolvimento econômico, que combina uma economia cada vez mais aberta com um sistema político fechado, pode ser uma opção válida para o desenvolvimento em muitas nações”.

Mas não somente por dentro as autocracias parecem oferecer alternativas de desenvolvimento, mas também por fora conseguem “saídas” de complexas situações de conflito para as quais não foram elas que contribuiram, talvez, a Rússia na Síria. Desde esses termos, as demandas da Rússia e da China relacionadas com a construcção de uma ordem internacional multipolar e fundadas em políticas de consumo parecem mais autênticas que as de Estados que proclamam ums ordem multipolar enquanto implantam práticas de importancia monopolar.

Finalmente, o avanço do espaço de integração europeu, obedece a uma tendência natural dos Estados até a complementação ou é possível só ante o enfrentamento de um desafio estatal maior como o foi a Unão Soviética? A “perda de energia” e a disrupção da tentativa de integração européia parece dar a razão à lógica histórica do desafio-resposta antes que para a orientação pro-integracionista dos Estados.

Em resumo, a decisão britânica de abandonar a UE obedece principalmente a lógicas internas, sem dúvida. Mas também existe um contexto internacional do qual devemos tomar nota visto que proporciona pouco respaldo à cesão de soberania por parte dos Estados, à segurança coletiva e ao desentendimento da autoajuda e o interesse nacional.

Autor: Alberto Hutschenreuter

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com

Fonte: Katehon

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