Hollande falou grosso na reunião da OTAN: “A OTAN não decide as relações da Europa com a Rússia”.


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“A OTAN não tem qualquer função para dizer como devem ser as relações entre Europa e Rússia. Para a França, a Rússia não é adversária, não é ameaça” – palavras do presidente da França François Hollande, ao desembarcar em Varsóvia para participar da reunião de cúpula da aliança nos dias 8 e 9de julho, que expõe as correntes subterrâneas da política europeia depois do Brexit.

Hollande tinha em vista vários objetivos ao dizer o que disse. Na verdade, deu voz, indiretamente, ao ressentimento pelos EUA estarem forçando a mão e insistindo em tornar cada vez mais difíceis as relações da Europa com a Rússia. Principalmente, chamou a atenção do mundo para a intenção da França, que volta a querer ser voz proeminente na Europa, embora o velho “relacionamento especial” com a Alemanha já não seja o que foi, e a França seja hoje o lado mais fraco.

Claro: Hollande tinha também um olho em casa, na política doméstica francesa, pensando no seu baixo índice de popularidade (13%). O ex-presidente Nicolas Sarkozy está reaparecendo para disputar o voto da direita nas eleições presidenciais do próximo ano, navegando sobre uma plataforma nacionalista, num momento em que 61% dos eleitores franceses manifestam hostilidade contra a União Europeia.

Mas acima de tudo, Hollande pensava no que o Berlin Policy Journal chamou com presciência, já em setembro passado, de “Momento Unipolar da Alemanha”. O ponto é que a Alemanha vem crescendo sem parar, como líder de facto da Europa:

O acordo da dívida grega foi essencialmente negócio bilateral entre Berlin e Atenas; o cessar-fogo na Ucrânia foi construído à força pela chanceler Angela Merkel e o presidente Vladimir Putin da Rússia; e a atual crise dos refugiados que a Alemanha lidera foi tanto pelo exemplo como por exigir uma resposta europeia comum. (Berlin Policy Journal)

A Alemanha mostra-se reticente quanto a desempenhar o papel de potência hegemônica na Europa. Mas isso pode estar mudando. Já é visível uma ‘avanço’ alemão, na sequência do Brexit. A Alemanha tem consciência de que seu peso econômico e político aumentou dramaticamente na Europa. (Com a saída da Grã-Bretanha, a parte alemã na composição do PIB da União Europeia aumentará de 1/5, para 1/4.)

Por outro lado, os antagonismos nacionais na Europa suficientes para alimentar duas guerras mundiais jamais sumiram realmente. E estão aflorando à superfície ante a demanda alemã por uma “Europa mais forte”. Sarkozy teria dito, segundo o Le Figaro, que “Se a resposta ao Brexit for Europa cada vez mais alemã, então estamos dirigindo na direção de um muro de pedra.” Advoga a favor de uma “Europa das nações” – uma União Europeia enfraquecida em favor dos estados nacionais.

Os políticos franceses em todo o espectro político falam em tom nacionalista e antialemão – da extrema direita de Marine Le Pen da Frente Nacional, ao líder do Partido de Esquerda Francês, Jean-Luc Mélenchon.

Enquanto isso, também na Europa Central, cresce o clamor a favor de se emendarem os tratados da União Europeia para devolver poder aos estados nacionais. A Polônia sente-se ameaçada pela Alemanha. Na 5ª-feira, o jornal governista Gazeta Polska estampava em manchete: “Haverá um IV Reich?” – ao lado de uma cruz suástica na primeira página.

A frase forte de Hollande em Varsóvia expõe a plena consciência de que um novo eixo vai se constituindo entre Alemanha e EUA, que deixará na chuva a França. Angela Merkel mostrou-se manifestamente ansiosa por colaborar com a liderança transatlântica dos EUA. O presidente Barack Obama conta com ela para disciplinar a União Europeia na questão das sanções contra a Rússia.

Em consequencia do Brexit, Washington também precisa de um eixo com a Alemanha, agora que a Grã-Bretanha se retira da Europa. Os EUA têm laços próximos com a Nova Europa, que também lhes permitem atuar como árbitros entre Alemanha e Polônia. Antes e acima de tudo, é do mais alto e supremo interesse dos EUA impedir que se estabeleça um eixo Alemanha-Rússia.

Resumo de tudo é que a OTAN é essencial na estratégia de contenção dos EUA contra a Rússia, e o sistema da aliança ocidental tem de passar a girar num eixo EUA-Alemanha logo no curto prazo.

Interessante, Putin teve conversa telefônica com Hollande e Merkel pouco antes de eles viajarem para a Cúpula da OTAN em Varsóvia, sobre a Ucrânia – leitmotif da estratégia de “defesa e contenção” da OTAN contra a Rússia, que está sendo coreografada por Washington.

Putin reforçou que o chamado Formato Normandia é suficientemente adequado para reduzir as tensões relacionadas à Ucrânia – o mesmo que dizer que a OTAN não tem papel algum na região. Interessante, Hollande disse praticamente a mesma coisa em Varsóvia. (do website do Kremlin)

Autor: MK Bhadrakumar

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com

Fonte: Indian Punchline

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