Os EUA poderiam vencer uma guerra?


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De modo usual a resposta tem sido enfocada limitadamente, pois o poder militar de uma nação se mede em termos quantitativos e comparativos e, por tanto, não se consideram outros fatores qualitativos que podem determinar a vitória em uma batalha ou em uma guerra de proporções mais amplas.

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Desde o geopoder, é factível uma análise diferente, ao utilizar elementos como o fator humano, que permite comprovar uma realidade diferente da propaganda ou a história condicionada das guerras, as quais muitas vezes não têm explicado a verdade sobre o triunfo ou o fracasso de um país ou governo, a não ser ter respondido aos interesses das elites que devem realizar publicidade segundo seus interesses: daí a deformação da verdadeira história.

Neste sentido, alguns fatores que podem determinar o curso de uma confrontação são os seguintes:

    1. Consciência social de estar em uma batalha legítima.

É de fundamental importância que, aqueles que combatem, saibam que sua vida se oferta — se necessário — por uma causa justa, de defesa, de proteção do país e seu povo. Caso contrario, ser mercenário, estar obrigado ou suprir necessidades através da ação armada implica uma alta debilidade. O heroísmo procede de um sentimento profundo de legitimidade, solidaridade e risco.

    2. Conhecimento integral do meio onde se realiza o enfrentamento.

Requer o domínio da selva, se se está em tal espaço, ou do urbano se na cidade, inclusive de ambos os lugares. Isso implica conhecer dimensão, infraestrutura, localização e possibilidades que tal meio oferece. Ao não compreendê-lo, as opções de fracasso são imensas. Por este mecanismo se explica por quê na Síria ou no Iraque o avanço é lento, pois não é num terreno aberto, senão dificultado pela presença de civis inocentes ou escudos humanos.

    3. Possuir o apoio da população local.

A invasão do Iraque pelos Estados Unidos tem causado mais de um milhão de mortos devido a que o conjunto da população se opôs a esse processo, enquanto que a tomada de cidades pelo Estado Islâmico cada vez se faz mais difícil porque os residentes rejeitam sua prática takfiri. Esses casos demonstram que únicamente quando o povo organizado aceita a cooperação se pode estabelecer uma relação harmônica que não se baseie na coação, no medo, na chantagem ou no castigo para obter uma aceitação uniforme.

    4. Dispor de um armamento tecnológico desenvolvido e eficaz.

A comunicação é decisiva para estabelecer objetivos e as armas são um fator explosivo. Ou seja, tecnologia de ponta e ferramentas defensivo-ofensivas adequadas ao meio. A Aviação pode estabelecer vantagens, ainda que não garante o domínio do território povoado. Não basta a retórica da ameaça constante.

    5. Gerar uma opinião pública não manipulada.

É importante, embora não é decisiva para o triunfo. Serve para preparar o público sobre o que ocorrerá, ainda que possa ser uma faca de dois gumes, pois indica à outra parte até onde se dirige a estratégia. Em termos de manipulação, se trabalha para criar e crer em irrealidades; em termos de transparência, se emprega para gerar uma sensação de triunfo e força para continuar a tarefa empreendida. O caso do EI, cuja notícia sobre sua fuga se extende, acrescenta tal fuga e derrota.

    6. Ter uma ampla experiência vitoriosa ante combatentes poderosos.

A Segunda Guerra Mundial mostrou o verdadeiro poderio da União Soviética, que venceu ao Eixo nazista. Inglaterra e EUA chegaram depois de um enfraquecido Exército germanânico, desgastado pelos soviéticos.

As invasões do Vietnã, os golpes de Estado na América Latina, a destruição do inerme Exército de Granada ou o massacre do Panamá não são exemplos de vitórias em igualdade de condições, senão avanços pela inferioridade do opositor. A ocupação do Afeganistão, Iraque ou Líbia demonstra a derrota contundente de umas forças armadas dotadas militarmente, ainda que débeis nos fatores anteriormente mencionados.

Considerações gerais

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A aliança anti-hegemônica Irã-China-Rússia, tal como tem sido idealizada pelo analista internacional chileno Pablo Jofré Leal, é uma constatação de que o poderio norte-americano declina e várias nações já não aceitam seus ditados ou ordens, ao por em primeiro lugar a seus povos sobre os interesses do complexo industrial militar e o poder das elites. Conclusão, EUA geralmente tem vencido batalhas e se apoderado de governos através de três estratégias: uma, construindo golpes de Estado em países débeis que se opuseram a suas políticas; dois, intervindo militarmente e sufocando revoluções através do fogo macabro em países onde não existe confrontação equitativa; três, formando parte de coalições onde não há o devido enfrentamento diretamente e proporcionalmente a um inimigo poderoso.

A realidade é que o Governo norte-americano tem um imenso histórico de fracassos, pois praticamente sustem seu poder através da ameaça e da corrupção. Em termos de confrontação, Vietnã se reproduz inumeráveis vezes nas mais diversas formas: não se pode esquecer que, desde 1964 e durante nove anos, os Estados Unidos lançou 270 milhões de bombas de cluster sobre Laos, convertendo-o no país do mundo mais bombardeado per cápita. Como explicar que, apesar dos discursos grandilocuentes, em Afeganistão tenha sido derrotado por um exército tribal? Ou no Yemen, apesar de seu apoio da Arábia Saudita? Ou no Iraque, ao ser vencido por um orgão terrorista como o EI? A realidade síria é um exemplo de uma intervenção falida e tem passado a ser o símbolo do debilitamento desta nação norte-americana.

Não se pode ignorar o extraordinário poder militar dos EUA: seria um absurdo lógico, estranho e subjetivo. No entanto, seu declive é cada vez mais evidente, como refletem especialmente as palavras de Barack Obama, que manifestou, quem não segue suas exigências, lhe “retorcerão o braço”, o que ratifica sua fragilidade ao empregar como instrumento a retórica do agravo. Nesta direção vão os discursos de Hilhary Clinton quando manifesta que é a única nação do mundo que pode transformar o universo, um reflexo da frustração e distorsão mental causada por não aceitar que foram um país outrora destacado em economia, política e cultura e, nesses momentos, seu estado é de grande desamparo, devido à sangria provocada pela intromissão em assuntos externos que tem realizado seu declínio parcial, agravado pela crise interna que afeta seu território.

Talvez hoje os EUA seja muito mais um discurso midiático que uma nação com o poder suficiente para entrar num conflito direto com amplas opções de vencer. Por isso, utiliza sempre outros governos ou grupos terroristas como o Estados Islâmico, a fim de demostrar que, se a derrota chega, é a de outros e não a deles, uma tática singular de escudo protetor ante o fracasso. O anterior não implica que sua política de agressão não esteja vigente: ameaças, sanções, descumprimento da palavra, manipulação e bloqueio econômico, infiltração e chantagem para a subversão interna de países soberanos, coação, controle da informação global… são parte do arsenal contra a paz mundial.

Não é descartável que a corporatocracia possa iniciar uma guerra internacional ainda que, estrategicamente, continue com pontos locais de agressão. No entanto, criar um conflito sem que lhes importem as consequências extraordinariamente trágicas está dentro de seu paradigma organizacional, pois se sentem relativamente seguros em refúgios supostamente preparados para sobreviver. Porém, uma terceira conflagração mundial seria macabra para o destino da humanidade.

A proposta mais importante na arena internacional é que o Governo norte-americano inicie, com toda sua fortaleza proativa, a reconstrução de um mundo pacífico onde a guerra ou a confrontação não sejam o objetivo primordial. Assim afirmam aqueles que consideram que o povo norte-americano merece um destino melhor, desejam honestamente e sentem. De igual modo, as nações pacíficas deverão incentivar a diplomacia da fraternidade frente ao enfrentamento como modo de vida.

Tomar consciência desta realidade global é uma obrigação humana e ética inevitável.

Autor: Carlos Santa María

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com

Fonte: RT.com

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