Escombros da democracia.


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Manlio Dinucci denuncia a indecência que consiste em manifestar uma questionável solidaridade com as vítimas do terremoto que sacudiu o coração da Itália, enquanto se dá as costas – e inclusive se despreza– as vítimas das guerras que a Itália em concluio com a OTAN secretamente provoca.

“Só escombros, como se tivesse ocorrido um bombardeio”, exclamou Laura Boldrini, a Presidente da Câmara dos Deputados, visitando os lugares arrasados pelo terremoto (que estremeceu o centro da Itália em 24 de agosto e durante). Palavras que requerem uma reflexão além das imagens.

Ante as cenas angustiantes de crianças que morreram sob os escombros provocadas pelo terremoto, como podemos não pensar sobre as crianças – aquelas a TV nunca nos mostrou – mortas sob a devastação resultante de bombardeios aéreos lançados da Iugoslávia até a Líbia – com a participação da Itália? “Parece que estamos em guerra”, conta um dos voluntários.

Mas, na realidade, a Itália já está envolvida em uma guerra, uma guerra ao vivo, onde queima recursos vitais que devem ser alocados para proteger as pessoas italianas de deslizamentos de terra e inundações que sempre causam mais vítimas e devastação.

Num ímpeto de generosidade, políticos de diferentes regiões têm proposto alocar o prêmio da Superlotto (130 milhões de euros) para as áreas atingidas pelo terremoto.

No entanto, nem uma alma propôs ainda a atribuição do “premio gordo” de despesa militar italiana para este objetivo. Segundo dados oficiais da OTAN, isso equivale a cerca de 20 milhões de euros em 2016 (um aumento de 2,3 bilhões em relação a 2015), uma média de 55 milhões de euros por dia.

Na realidade, este número é muito maior quando agregamos as despesas do orçamento para a defesa, e pagos com fundos de outros ministérios. No entanto, segundo dados OTAN, a despesa militar da Itália em um dia é maior do que o que o governo destinou para a emergência do terremoto (50 milhões de euros), cinco vezes mais do que aquilo que foi arrecadado até à data com SMSs solidários.

Os gastos militares parecem ser intocáveis, apesar de não existir fundos para a reconstrução e para tornar os edifícios seguros com os sistemas anti-sísmicos eficientes, nem um plano de longo prazo para prevenção de terremotos e catástrofes naturais.

Enquanto os bombeiros, cujos méritos nessas ocasiões nem são formalmente reconhecidos, contam com salários e recursos totalmente inadequados para o trabalho que estão a realizar, muitas vezes, colocando suas vidas em risco, não só em emergências cotidianas, mas também nos cada vez mais frequentes “desastres naturais” cujas consequências catastróficas são, na sua maior parte, atribuídas a atividade humana.

Por outro lado, não há falta de fundos e recursos para as forças especiais italianas que operam na nova guerra na Líbia. Em Pisa, onde dois anos atrás, foi estabelecido um comando de forças especiais do Exército (Comfose), o número de voos dos aviões cargueiros C-130J que partem para destinos desconhecidos carregados com armas e reabastecimentos tem vindo a aumentar por alguns meses agora. Tais operações são secretamente autorizadas pelo primeiro ministro Mateo Renzi, ignorando o Parlamento. O Artigo 7 bis da Lei n. 198/2015 sobre a extensão de missões militares no exterior confere ao primeiro ministro o poder de adotar “medidas inteligentes para conter oposição, em situações de crise, com a cooperação das forças especiais do ministério de Defesa”, impondo-lhe como única obrigação informar formalmente à “Comissão Parlamentar para a Segurança da República”. Em outras palavras, o primeiro ministro italiano é livre para usar as forças especiais e serviços de inteligência em operações secretas, com o apoio de todo o aparato militar. Um poder pessoal, que não é constitucional e que também é potencialmente perigoso em nível doméstico.

Assim, enquanto o Primeiro Ministro, Mateo Renzi exibe profunda emoção no funeral das vítimas do terremoto e dá promessas sobre a reconstrução, ele está dobrando-se à estratégia dos EUA/OTAN e levando a Itália às guerras e ao aumento das despesas militares as custas das necessidades essenciais do país. A esse gasto se acrescentam os gastos – secretos – de operações militares que o prórpio Renzi ordenou. Enquanto que na promessa de reconstrução das áreas afetadas pelo terremoto, Renzi garante “máxima transparência”.

Autor: Manlio Dinucci

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com

Fonte: voltairenet.org

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