Uma guerra perto do fim? Papéis de EUA, Rússia, Turquia, Irã e Israel na Síria.


EUA e Rússia têm acordo para pôr fim ao “Estado Islâmico” (ISIS/Daech), como prioridade na Síria, unificando o objetivo sem necessariamente concordar com unir esforços e coordenar o ataque por terra. Ainda assim, esse começo levará ao fim da guerra na Síria e pavimentará o caminho para remover obstáculos essenciais (quer dizer: todos os jihadistas) na estrada do processo de paz.

EUA na Síria e as escolhas difíceis:

Os EUA já enfiaram centenas de soldados de forças especiais e tropas de elite para o nordeste da Síria, para manter uma presença militar no país e ajudar os sírios curdos e tribos árabes a combater o ISIS [The Independent, Londres]. As forças dos EUA estão treinando, planejando e fornecendo armas aos seus ‘representantes’, além de apoio aéreo e monitoramento de inteligência com SIGINTL (inteligência de sinais), para observar e neutralizar líderes do ISIS e formular planos de ataque para a cidade de Raqqa.

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É inevitável que os papéis serão de algum modo redistribuídos entre EUA e Rússia para o ataque para derrotar o ISIS em Raqqa. É o que manifesta também no avanço do Exército Árabe Sírio em direção ao território controlado pelo ISIS [Al-Masdar News] no nordeste de Aleppo, para deter o exército turco e aliados e impedir que avancem além da cidade de al-Bab [Reuters], e apertar o cerco em torno de Raqqa, cruzando o Rio Eufrates pela margem ocidental. O Exército Árabe Sírio visa a libertar Deir Hafer e Maskana, e completar seu pleno controle da área rural no nordeste de Aleppo e limpar o setor de qualquer presença do ISIS.

Os comandantes militares, general Joseph F. Dunford Jr., comandante do Estado-maior das Forças Conjuntas dos EUA; general Valery V. Gerasimov, comandante do Estado-maior das Forças Conjuntas da Rússia; e seu contraparte turco, general Hulusi Akar reuniram-se semana passada [foto em The Telegraph, Londres] em Antalya e definiram os limites aos quais podem chegar as forças turcas e seus aliados na Síria. Ficou claro que Ancara não poderá participar de nenhum ataque contra Raqqa, e suas forças e aliados se deterão nos limites definidos pelos portões de Al-Bab. Ambos, EUA e Rússia querem evitar um confronto turco-curdo na Síria, particularmente quando o perigo de jihadistas,ISIS e al-Qaeda não está absolutamente controlado, e forças curdas ainda têm papel a cumprir no ataque ao ISIS em torno de Raqqa.

Aspectos da política do presidente Trump para a Síria estão-se materializando, apesar da visível hesitação do governo dos EUA no que tenha a ver com outros planos relacionados a Bilad al-Sham durante a guerra e depois que acabar. Trump quer evitar qualquer confronto militar com a Rússia e reconhece a importância do papel e da presença dos russos na Síria, para combater o terrorismo.

Moscow quer pôr fim à guerra e tratar de cuidar de seus interesses estratégicos fazendo-se presente em campo no Oriente Médio por muitos e muitos anos adiante, graças à janela síria. Também quer eliminar os mais de 9.000 cidadãos russos [Putin à BBCNews] e de outras nacionalidades alistados no ISIS e na al-Qaeda na Síria.

É do interesse de todos os países eliminar terroristas antes que se disseminem e troquem a Síria por outros pontos dos quais possam prosseguir na sua jihad. Essa específica questão orienta a coordenação russo-norte-americana nas ações de contraterrorismo, ainda que os EUA continuem sem saber o que farão depois do fim da guerra.

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Até o presente momento, permanecem obscuros os objetivos estratégicos e a intenção das tropas dos EUA estacionadas no norte da Síria. A presença de quatro bases militares norte-americanas e um aeroporto em construção pode ser indicativo de que os norte-americanos não cogitam de sair de lá, pelo menos por hora. Deixar a Síria terá um preço e ficar significa a criação de um enclave sírio curdo semelhante ao Curdistão no Iraque. Também significa que as forças turcas seguirão os EUA e manterão anexados à Turquia mais de 5 mil quilômetros quadrados.

Também está claro que, apesar de Trump estar pondo mais coturnos norte-americanos em solo, ele está combatendo, até agora, com curdos e aliados de tribos árabes. Pode estar tentando assinalar uma “vitória reconhecida” ao derrotar o ISIS (o grupo está retrocedendo em todos os fronts no Iraque e na Síria, privado de qualquer apoio e com graves limitações financeiras), sem ter de mergulhar no atoleiro sírio. Mas é vitória que pode virar derrota, se Trump decidir manter ali tropas dos EUA por tempo indefinido, depois do fim da guerra na Síria.

A questão continua: quem cuidará do assalto à cidade de Raqqa?

20 mil militantes árabes e curdos podem chegar aos portões de Raqqa e participar no cerco. As tribos árabes naquela área rejeitarão que haja curdos no controle de uma cidade árabe. Sobretudo, não há razão para os curdos arriscarem a vida e perderem centenas ou milhares de militantes (morreram centenas de curdos na luta para libertar a cidade de Manbij), para novamente entregarem a cidade de Raqqa às tribos árabes, depois de libertada do peso do ISIS.

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Significa que nesse front contra o ISIS Trump terá de enfrentar dilema real, e será forçado a cooperar com a Rússia. Não se exclui coordenação de ataques aéreos russos e norte-americanos, para que os curdos alcancem um lado de Raqqa, e para que o Exército Árabe Sírio assalte o outro lado da cidade – tática semelhante à que foi usada em Mosul (os curdos iraquianos ficaram responsáveis por alcançar o front norte de Mosul, o que contribuiu para cercar o ISIS). Nesse caso, Trump não será o único a colher os louros da vitória; será obrigado a partilhá-los com a Rússia e a trabalhar ao lado de forças sírias – a menos, claro, que decida usar seus próprios soldados (vários milhares) e aceite a perda inevitável de vidas norte-americanas!

Todas essas são escolhas difíceis. Mas a cooperação de forças dos EUA, russas e do Exército Árabe Sírio na Síria é absolutamente inevitável.

O papel da Rússia:

Moscow na guerra síria está atuando como o maestro de uma orquestra, para controlar o ritmo das batalhas e a distribuição do poder sobre o mapa geopolítico do Levante.

A Rússia decidiu que a Síria tornou-se parte de suas estratégias políticas e militares, impedindo a queda de um sistema coerente de governo que protege o Estado e impede que se reproduza ali o cenário líbio, de “estado fracassado”. Para essa finalidade e para manter sua influência no Oriente Médio através da janela síria, a Rússia trabalhou em múltiplos fronts, para garantir que aquela influência não fosse tragada pelo atoleiro sírio; que tenha fim a longa guerra na Síria; e que fiquem confirmadas a segurança e a estabilidade de longo prazo de suas bases militares nas fronteiras do Oriente Médio da OTAN – representada pela Turquia.

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Moscow mostrou os caninos afiados ao governo Obama, quando os norte-americanos insistiram em proteger a al-Qaeda e outros jihadistas. Os russos usaram todos os tipos do mais moderno armamento (adequado para a guerra síria) para atingir aliados dos EUA e seus grupos “protegidos” na Síria, que naquele momento operavam em íntimo contato com a al-Qaeda e beneficiavam-se de armas modernas, inteligência, dinheiro e logística que lhes chegava dos países da região (Arábia Saudita, Qatar e Turquia). Moscow ofereceu total apoio aéreo ao Exército Árabe Sírio e aliados, e foi cabeça dos principais ataques contra a aliança de jihadistas e grupos de rebeldes sírios. Assim as forças de Damasco alcançaram vitória robusta nas cidades de Aleppo, Palmyra, na área rural de Lattakia e Damasco e em outras partes da Síria.

A Rússia dedicou-se diretamente a atacar toda a qualquer aliança da al-Qaeda e a oposição armada (mesmo que não estivessem incluídas em qualquer conversa de paz), se mostrassem intenção de violar o acordo de cessar-fogo Astana-Cazaquistão, e de se prepararem para futura ofensiva contra o Exército Árabe Sírio. Agora, Moscow está pedindo que Damasco e aliados combatam contra o ISIS, não contra a al-Qaeda, estabelecido sobretudo em torno de Aleppo e na cidade de Idlib, ao norte; exceto se a al-Qaeda insistir em atacar posições do Exército Árabe Sírio.

O Kremlin rejeitou todas as propostas turcas para avançarem em território curdo, porque já não está ocupado pelo ISIS. E impediu a Turquia de avançar um metro que fosse além da cidade de al-Bab. Os russos não confiam nas intenções da Turquia na Síria, apesar da recente visita do presidente Erdogan a Moscow (marcada por aquecimento nas relações entre os dois países, com vistas aos respectivos interesses econômicos). O presidente Putin foi claro com Erdogan sobre sua aliança com o Irã, apesar do terrorismo que Erdogan rege, ao mesmo tempo em que espera obter as bênçãos de Trump.

Ancara pode tentar voltar suas atenções na direção da Rússia, não dos EUA, nas próximas conversações Astana 3, à espera, provavelmente vã, de persuadir Putin a escolher apoiar forças turcas contra os curdos na Síria. O mapa militar já está traçado e nele não há lugar para a Turquia na próxima guerra contra o ISIS – nem Erdogan será autorizado a pôr os pés na área já libertada pelos curdos. Mesmo assim, a influência turca ainda é necessária contra à al-Qaeda, uma vez que há vários grupos de aliados seus em Idlib e em torno da cidade; e por causa da livre passagem pela fronteira e outros benefícios que a Turquia garante à al-Qaeda.

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Espera-se que Moscow desempenhe papel importante na futura política síria, impondo um diálogo político e negociações entre rebeldes e Damasco em Astana e Genebra. Os russos estão atentamente evitando repetir a experiência do Afeganistão, e não querem ver-se presos numa longa guerra na Síria. Essa é uma das principais razões pelas quais Putin quer pôr fim àquela guerra, o mais rapidamente possível. Já ninguém cogita de repetir que “Bashar al-Assad deve sair ou enfrentará a ‘opção militar'” (como disse o ministro de Relações Exteriores da Arábia Saudita, ABC]. Nem os EUA falam de derrubar o presidente sírio; agora dizem que o destino de Assad será decidido “pelas negociações políticas em curso”.

Por outro lado, a Rússia não interferiu no conflito entre Israel e Irã (e seu aliado o Hezbollah Libanês). Israel foi impedida de atacar qualquer força militar que lutava aos lado dos sírios, mas, ao mesmo tempo, os jatos de Telavive ficaram livres para bombardear depósitos iranianos dedicados ao Hezbollah no Líbano ou a “resistência síria” no Golan, uma força que está sendo preparada à margem dos combates, para o pós-guerra na Síria. A Rússia não quer ser parte dessa luta, e deixou que os dois lados acertassem sozinhos as próprias regras de engajamento. O primeiro-ministro Benyamin Netanyahu não conseguiu convencer o presidente Putin e não será autorizado a atacar o Hezbollah e o Irã (Jerusalem Post) na Síria,[1] enquando as duas forças forem aliadas numa mesma coalizão liderada pela Rússia para pôr fim a ISIS e al-Qaeda na Síria. A guerra ainda não acabou, e a al-Qaeda tem grandes contingentes no norte da Síria e outros no sul. O ISIS ainda é capaz de causar dano, com seus vários milhares de combatentes ainda na Síria e no Iraque.

Al-Qaeda, de “Nusra” a “Fateh al-Sham” a “Hay’at Tahrir al-Sham”.

Al-Qaeda perdeu “pai e mãe” na Síria e região, quando desabou o apoio popular à ‘mudança de regime’ na Síria.

Leia também: Entendendo o conflito sírio e o jogo de interesses: Os grupos curdos como elemento desestabilizador do Oriente Médio.

O “pai” aparecia sob a forma de vários países regionais (Arábia Saudita e Qatar), que agora cuidam de reduzir as respectivas presenças na Síria, porque a oposição não atingiu o objetivo de derrubar Assad, e porque Rússia e EUA estão impondo regras novas; e fechando a estrada para novos suprimentos de armas ou de dinheiro para grupos terroristas na Síria. O trânsito regular atravessando a Turquia vai sendo interrompido aos poucos, mas sem parar: não há dúvidas de que ISIS e al-Qaeda em breve já não poderão colher os benefícios da linha de suprimento que os manteve vivos por mais de cinco anos.

“O povo é para o movimento, como a água para o peixe:
Movimento que não conte com simpatia do povo perde continuadamente a confiança, até que o movimento desaparece ou esconde-se ”
(Osama Bin Laden).[2]

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Onde o governo Obama fracassou e não conseguiu separar rebeldes e al-Qaeda, o líder da AQ Abu Mohamad al-Joulani foi bem-sucedido: atacou o grupo rebelde que oferecera proteção à al-Qaeda durante anos, quando o grupo aceitou participar das conversações de Astana para o cessar-fogo. Como se não bastasse, a al-Qaeda também atacou o maior dos grupos rebeldes jihadistas “Ahrar al-Sham”, que rejeitara a oferta para ir a Astana, o que o tornou alvo da fúria da Turquia, só porque queria manter-se ao lado da AQ. Nesse ponto, a al-Qaeda perdeu também a ‘mãe’, na Síria – quando o povo sírio deu-lhe as costas, voltando-se contra o grupo e rejeitando suas ações. Joulani ofereceu duas possibilidades para que os grupos jihadistas escolhessem: ou uniam-se à AQ, ou a AQ os atacará até dizimá-los.

“Você sabe que muitos dos grupos jihadistas que insistiram em começar trabalhando contra o inimigo interno foram contidos e não alcançaram seus objetivos, como a Fraternidade Muçulmana na Síria, a tentativa da Jihad Islâmica no Egito, a condição dos irmãos na Líbia e Argélia”
(Osama Bin Laden).[3]

À luz da determinação de russos e norte-americanos, de combater o terrorismo na Síria, a al-Qaeda tem poucas alternativas:

  • Lutar até a morte uma luta sem qualquer possível ganho estratégico;

  • Fundir-se com grupos rebeldes, como Ahrar al-Sham, passo muito improvável depois dos eventos recentes, quando AQ atacou rebeldes e Ahrar, para conseguir forças e armas;

  • Pedir que todos os combatentes estrangeiros deixem a Síria e partam para outra terraJihadi , o Iêmen ou a Somália. Joulani disse que os Combatentes Estrangeiros constituem pelo menos 1/3 de suas forças.

Portanto, a decisão de russos e norte-americanos de definir como absoluta prioridade eliminar o ISIS pode estar dando tempo suficiente para a al-Qaeda ou preparar-se para sua maior batalha, ou optar por um plano alternativo. Tão logo Idlib tenha de escolher entre render-se ou lutar, acabou-se a etapa de pensar e alguma decisão clara se imporá por ela mesma.

Papel de Arábia Saudita e Qatar na Síria:

Os países do Oriente Médio compreendem hoje que a Rússia planeja permanecer na Síria e usará todo seu poderio para defender os próprios interesses. Também já está claro que os EUA não conseguirão alterar a intenção decisiva dos russos. Assim sendo, todos os atores regionais estão aos poucos retirando-se, sobretudo depois que forças de Damasco recuperaram a cidade de Aleppo.

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O enviado da ONU à Síria Stafan De Mistura disse claramente que todas as partes devem desistir da ilusão de alguma possível vitória militar, devem abraçar um cessar-fogo global, discutir a Constituição (tarefa que cabe aos próprios sírios, reconstruir o país e pôr fim ao terrorismo. Não há o que discutir quanto ao destino do presidente sírio: é clara indicação de que a comunidade internacional está preparada para abandonar qualquer grupo que cogite de continuar a lutar na Síria; e que a Síria encaminha-se para o fim da guerra.

Isso implica mensagem muito forte dirigida à Arábia Saudita e ao Qatar, de que não se tolerará o envio de armas e suprimentos a rebeldes ou jihadistas – o que significa o fim do papel destrutivo de países do próprio Oriente Médio. Arábia Saudita e Qatar jamais tiveram estratégia clara para a Síria, exceto o infinito suprimento de dinheito e armas para um processo de ‘mudança de regime’, sem qualquer planejamento sobre o que fazer depois de o regime ter sido mudado, sem qualquer visão sobre quem desejavam ver como novo governo sírio. Produzir um “estado fracassado”, sim, estava na agenda de Arábia Saudita e Qatar, mesmo que esse ‘projeto’ estivesse levando ao controle os jihadistas, a al-Qaeda e o ISIS, os quais, tão logo se sentissem suficientemente fortes, imediatamente atacariam aqueles dois atores regionais.

O Irã:

A mídia ferveu com especulações de que a Rússia pediria que o Irã e o Hezbollah saíssem da Síria, como parte do acordo para o processo de paz. Puro delírio desejante, porque Moscow jamais discutiu a questão com o Irã e aliados. A especulação é ainda mais irrealista, se se considera que só o governo sírio ou o presidente al-Assad poderiam pedir que seus aliados deixassem o país.

Leia também: O conflito na Síria: uma visão iraniana sobre o envolvimento dos russos e uma possível cooperação dos turcos.

Além do mais, al-Qaeda e ISIS ainda mantêm dezenas de milhares de militantes em campo, e só o Exército Árabe Sírio, sem o apoio da Força Aérea Russa, pode não ser suficiente para varrê-los todos, do território sírio. AQ e ISIS contam a seu favor com ideologia forte, um poder que não existe na doutrina dos soldados profissionais. Assim sendo, é necessário contar com ideologia similar, para enfrentar toda aquela determinação.

O Irã veio à Síria em 1982, respondendo ao chamado do que adiante viria a ser conhecido como o Hezbollah Libanês. Também foi Assad quem pediu ajuda ao Hezbollah em 2013, quando a situação se tornou crítica.[4] Síria, Irã e o Hezbollah formam o que se conhece como “Eixo da Resistência”, no qual a Síria cumpriu seu papel garantindo armamento avançado ao Hezbollah em 2006 (e continua a fazer o mesmo, até hoje) para enfrentar Israel. E a Síria não precisará de dezenas de milhares de outros aliados, quando a guerra acabar. Os aliados da Síria devem deixar o país tão rapidamente quando chegaram quando Assad decidir que saiam, sem dever qualquer consideração ao que desejem Moscow ou Washington.

Hoje, é óbvio que a estratégia iraniana derrotou a estratégia de Arábia Saudita e and Qatar na Síria e conseguiu manter na Síria governo amistoso. O Irã também tem papel positivo na reaproximação entre Bagdá e Damasco, que resultou em colaboração militar e bombardeio aéreo de alvos no ISIS na Síria, pela Força Aérea do Iraque.

Sobretudo, há uma discussão em andamento entre Damasco e Teerã para construir uma base naval iraniana no porto e terminal petroleiro de Banias, a 55km de Latakia. Se se concretizar (e exigirá poucos anos, até se tornar operacional) será forte estímulo para a depauperada economia síria. Ao longo dos anos de guerra, o Irã forneceu petróleo à Síria, principalmente quando os jihadistas do ISIS e Al-Qaeda controlavam os poços de petróleo no nordeste do país.

Hezbollah:

Os militantes do Hezbollah estão presentes por toda a geografia da Síria, apoiando o Exército Árabe Sírio em sua guerra contra rebeldes e jihadistas. O Hezbollah suspeita que Israel e os EUA, financiados pela Arábia Saudita, estejam preparando mais um round de violência contra o grupo libanês no Líbano. Mas todos os fatos sugerem o contrário:

Leia também: Rebeldes sírios pedem à administração Trump o envio de mais veículos blindados.

Se Trump busca alguma vitória espetacular, o ISIS é muito mais fraco e mais facilmente derrotável;

As prioridades dos EUA na Síria são degradar e conter o ISIS e talvez também a al-Qaeda. Para alcançar esse objetivo, as forças do Hezbollah ainda são indispensáveis. Sobretudo, o resultado de uma guerra contra o Hezbollah – muito mais poderoso que o ISIS- não é absolutamente garantido. As dezenas de milhares de foguetes e mísseis do Hezbollah podem provocar estrago real em Israel.

Se Israel declara guerra contra o Hezbollah, a Síria será jogador direto e ativo, e arrastará com ela a Rússia. O destino do regime sírio está conectado à vitória na guerra. E Assad não hesitará para se posicionar ao lado dos que lutaram aliados ao Exército Árabe Sírio durante anos. A Rússia não quererá ver o colapso de seus planos na Síria, quando está tão próxima de alcançar seus objetivos.

O front interno israelense não está preparado para enfrentar guerra destrutiva com o Hezbollah, que tem sob seu controle de 150 mil a 200 mil foguetes e mísseis, segundo fontes em Israel.

A experiência de combate que o Hezbollah acumulou na Síria fez do grupo adversário poderoso frente à infantaria de Israel. Na Síria, oHezbollah teve de combater batalha diferente contra seus mais ferozes inimigos (ISISe al-Qaeda), e mostrou que não foge diante do perigo e não teme a morte -, bem diferente, nisso, do exército israelense.

Enquanto a guerra na Síria era alimentada e ativada, Israel sentia-se segura. Agora que o fim da guerra se aproxima, Israel está preocupada, com razão. O Hezbollah precisou só de uns poucos dias para ocupar os 600 quilômetros quadrados da cidade de al-Quseyr em 2013. De quanto tempo precisará para ocupar os 2.380 quilômetros quadrados da Galileia, numa situação de guerra? A guerra na Síria foi altamente proveitosa e benéfica para o Hezbollah, apesar dos seus 1.600 mártires que caíram em combate.

A Síria parece simultaneamente próxima e ainda longe do fim da guerra. Ainda há batalhas militares (contra o ISIS e a al-Qaeda) e políticas (pela Constituição, pelo cessar-fogo, pela reconstrução) a serem lutadas. Mesmo assim, e mesmo que Damasco ainda tenha de encarar algum dia a ocupação norte-americana e turca de território sírio, há claros sinais de que se encaminha o fim da guerra na Síria.

Notas:

[1] Sobre isso ver “Israel tenta cobrar uma libra de carne humana (mas ouve ‘nyet’, de resposta)”, 12/3/2017, MK Bhadrakumar, Indian Punchline, trad. no Blog do Alok [NTs].

[2] Osama Bin Laden, carta a Abu Basir, Gabinete do Diretor Nacional de Inteligência, Comandode Integração de Inteligência, Prateleira dos Livros de Bin Laden, cartas confiscadas do prédio usado para esconder Osama Bin Laden em Abbottabad, durante o raid, liberada em janeiro de 2017, p.2.

[3] Osama Bin Laden letter to Abu Basir, Gabinete do Diretor Nacional de Inteligência, Comando de Integração de Inteligência, Prateleira dos Livros de Bin Laden, cartas confiscadas do prédio usado para esconder Osama Bin Laden em Abbottabad, durante o raid, liberada em janeiro de 2017, p.2.

[4] Sobre isso ver “Para o Irã é essencial salvar a Síria”, 16/3/2017, Ali Hashem, Al-Monitor traduzido em Blog do Alok [NTs].

Fonte: Patria Latina

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