Após quase dois séculos, retornamos ao mesmo ponto?


Liberdade ou simbologia?

Permitam-me os leitores reproduzir um trecho do editorial do diário francês Le Monde, após a vitória de Emmanuel Macron, para Presidente. Ressaltando o “tom grave” do discurso, o cerimonial “milimetrado” e com incompreensível ataque à candidata derrotada (medo do terceiro turno com as eleições legislativas?), escreve Jérôme Fenoglio (tradução livre):

    “… neste país em depressão, o otimista novo presidente deverá rapidamente demonstrar, por sinais concretos, que recebeu as mensagens desta inédita campanha. ….. não transigir com qualquer exigência que causou a queda dos concorrentes: probidade, competência e atenção à crise social ..”

No jornal Le Figaro, um subtítulo afirma: “Macron carrega as esperanças de milhões de franceses e europeus”. Parece que a Europa foi salva; pode-se respirar aliviado, desde que não se pergunte de quem? Mas L’Humanité, escrevendo sobre a agonia da V República, chama-o de “estepe da finança” (roue de secours de la finance).

Há quase 200 anos a França vivia uma situação política complexa. Trato do final dos anos 1840, que coloco na visão de um aristocrata e de um então jornalista alemão.

O aristocrata é o Conde de Tocqueville, Alexis Clérel (1805-1859), autor da conhecida “A Democracia na América”, proprietário de terras na Normandia e membro do parlamento francês. O período que trata está em seu “Souvenirs”, traduzido por Modesto Florenzano (Lembranças de 1848, Companhia das Letras, 1991). O jornalista é Karl Marx (1818-1883), autor do “Dezoito Brumário de Luís Bonaparte”, também sobre este momento histórico.

Começo pela referência do competente professor Renato Janine Ribeiro na Introdução da obra de Tocqueville: “A modernidade deve muito, em política, a um trecho do Leviatã, no final do capítulo 10, em que Hobbes nega que o merecimento ou a aptidão confiram, a quem quer que seja, o direito de mandar nos outros. Dizendo de outro modo, Hobbes nega que o mais capacitado tenha direito a governar”.

Curiosa a referência do professor; contemporâneo e colega parlamentar de Tocqueville estava o grande romancista Victor Hugo, que também escreveu sobre o mesmo momento (Choses Vues, Gallimard, 1997, dois volumes – I: 1830-1848; II: 1849-1885). Se podemos elogiar a capacidade de compreensão de Tocqueville sobre os interesses em jogo, lamentamos a ingenuidade de Hugo. No turbilhão que se formara no final de fevereiro de 1848, tendo abdicado o rei em favor do neto e sendo Regente a Duquesa de Orléans, Odilon Barrot, que almejava o cargo de Primeiro Ministro, pede ao popular e querido escritor que acalme a multidão comunicando a substituição monárquica. E vai Hugo, alçando-se num pedestal, anunciar a abdicação de um Orleans em favor de outro. Óbvio que só produziu maior revolta no povo ali reunido que invade a Câmara Municipal.

O historiador Fernand Braudel prefaciando “Souvenirs”, em 1977, pergunta se a França de seu tempo teria mudado diante do que escrevera Tocqueville: “os líderes de partido da minha época pareceram-me quase indignos de comandar, uns por falta de caráter ou de verdadeiras luzes, a maioria por falta de qualquer virtude”.

Quem era, efetivamente, o Poder na França de então? Destes que citei e de outros historiadores parece não haver dúvida que eram o capital financeiro e a alta burguesia. Qual o mal que afligia o povo? Retiro de Braudel que remete às Actes du Congrès de 1848: a fome, que a má colheita e o aumento de 150% nos preços dos alimentos provocaram; o desemprego, que resultava da suspensão do crédito de um bilhão de francos para as obras, e, como natural consequência, o aviltamento dos salários, com queda estimada em 30%. Mas não conheço, nem de historiadores nem de romancistas, como Émile Zola cuja saga dos Rougons Macquart se desenrola nesta época, qualquer queixa vinda dos rentistas.

Na excelente análise desta obra de Zola, Daniel Augusto Gonçalves, chama a atenção que “a guerra entre a Montanha (artesãos, pequenos burgueses sensíveis aos sans-culottes) e a Gironda (alta burguesia, proprietária, rentista) foi conduzida, de um e de outro lado, pelos membros da burguesia, e o triunfo da primeira nunca fez baixar o poder às mãos do povo”.

Temos pois a realidade de hoje. O povo continua massa de manobra dos detentores de sempre do Poder: o capital. Apenas a mudança de mãos, ora pelos fundiários, ora pelos industriais, ora pelos financistas, ora pela acomodação de interesses, provoca as novas disputas políticas. E o operário? O camponês? O verdadeiro produtor da riqueza?

Estes não recebem a lição da conscientização. Ao contrário, são massacrados diuturnamente pelas comunicações de massa, pelas escolas sem partido, pela mais profunda alienação. A França do século XXI parece retroceder à do século XIX, até pela sujeição à Alemanha.

E o Brasil? Cairá na meritocracia da corrupção, como nas jornadas francesas de 1848? Recordemos a célebre frase do mencionado jornalista alemão: a história se repete pela primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.


Autor: Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado

Publicado em dinamicaglobal.wordpress.com

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