Os EUA e sua indefinição no norte da Síria.


A guerra na Síria está às vésperas de uma virada monumental com a grande operação militar turca no norte da cidade síria de Afrin iniciada no sábado, 20 de Janeiro. O presidente Recep Erdogan anunciou hoje que uma operação no terreno também fora lançada juntamente com bombardeamentos de artilharia e ataques aéreos. Disse ele que uma operação contra a cidade de Manbij, cerca de 140 milhas [225 km] a leste, virá a seguir. (Ver mapa do Google aqui.)

Afrin e Manbij estão atualmente sob controle das forças curdas sírias alinhadas com os EUA. Os EUA que têm cinco bases no norte da Síria, nos territórios controlados pela milícia curda, em 2016 ajudaram diretamente a ocupação de Manbij pela milícia curda. Portanto, a operação turca significa um desafio estratégico aos EUA. Washington instou Ancara reiteradamente a não fazer quaisquer movimentos militares contra a milícia curda.

Zonas de desescalação e desconflictação na República Árabe da Síria.
zona de desconflictação 1,2,3,4
zona de desescalação 5
notas:
– (Roxo) Áreas controladas pela oposição síria
– (Laranja) Forças militares do governo sírio
– (Amarelo) Curdos
– (Azul) Áreas controladas pelo novo exército sírio
– (Cinza) Estado Islâmico
– (Marrom) Zonas de desescalação
– (Vermelho) Zona de desconflictação
– Limite das zonas de desescalação

Mas o que finalmente se mostrou decisivo parece ter sido o plano dos EUA para criar uma força curda de 30 mil homens no norte da Síria com a intenção de utilizá-la como um proxy. Erdogan sente que os EUA está seguindo em frente com o projeto de criar um enclave curdo no norte da Síria ao longo da fronteira turca como um centro estratégico para suas futuras intervenções na Síria e no Iraque.

Naturalmente, um tal enclave no Curdistão apresentará para a Turquia uma ameaça a longo prazo para a sua segurança nacional, pois dá estímulos aos separatistas curdos na Turquia. Erdogan mantinha-se a implorar a Washington para não se alinhar com os curdos mas sem resultado, e agora decidiu-se a tomar o assunto nas suas mãos.

O desenvolvimento de hoje poderá levar a uma confrontação entre os EUA e a Turquia. Na quinta-feira, o porta-voz da Casa Branca apelou explicitamente à Turquia a que não empreendesse quaisquer operações militares. O secretário de Estado, Rex Tillerson, telefonou neste sábado ao seu homólogo Mevlut Cavusoglu, no momento em que a operação parecia estar iminente.

A posição do Irã e da Rússia vai ser crucial. O Irã partilha as preocupações da Turquia acerca da aliança dos EUA com os curdos (os quais também têm ligações com Israel) a respeito de qualquer Curdistão na região. Portanto, apesar de o Irã exprimir reservas quanto à operação turca (a qual é uma violação da soberania nocional da Síria), é improvável que atue contra a Turquia.

O foco do Irã está nas operações em curso do governo sírio no noroeste da província de Idlib, a qual é enormemente estratégica uma vez que está na linha de costa junto ao Mediterrâneo Oriental. A Rússia atualmente também está a concentrar-se nas operações em Idlib, região esta que é adjacente à província de Latakia (também ao longo do Mediterrâneo Oriental) onde estão situadas a base naval russa em Tartus e a base aérea em Hmeimim.

É concebível que haja um entendimento tácito de que a Turquia pode não objetar (excepto, é claro, verbalmente) às operações sírias (auxiliadas pela milícia apoiada pelo Irã e a Rússia) para esmagar os filiados da al-Qaeda presentes em Idlib e proteger aquela grande província. A mídia iraniana informou hoje que forças do governo sírio capturaram a base aérea estratégica de Abu al-Dhohour no sudeste de Idlib da Frente al-Nusra (filiada da al-Qaeda) no sábado à tarde.

Quanto à posição russa, significativamente, na quarta-feira Erdogan enviou o vice-chefe do Estado-Maior turco, Gen. Hulusi Akar e ao chefe da Organização de Inteligência Nacional, Hakan Fidan, num voo a Moscow para reunir-se com o chefe do Estado-Maior russo, Valery Gerasimov, e a inteligência russa. Claramente, houve um alto grau de coordenação entre Moscow e Ancara na decisão de Erdogan de ordenar a operação militar turca. Moscow exprimiu preocupação acerca das operações turcas e apelou à contenção, mas simultaneamente também retirou para fora de perigo o pessoal russo da vizinhança de Afrin.

Não há razão concebível para que Moscow deva ajudar os americanos – contra o pano de fundo da Nova Guerra Fria. De modo interessante, na sexta-feira o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergey Lavrov, atacou duramente os EUA alegando que estavam a balcanizar a Síria. Ele disse isto numa conferência de imprensa na Sede da ONU em Nova York. Citação de Lavrov: “Os EUA estão realmente criando órgãos governamentais alternativos em grande parte da Síria, o que é contrário às obrigações em relação à integridade territorial da Síria que reafirmaram e a que se comprometeram, particularmente nas reuniões do Conselho de Segurança. Estamos preocupados acerca disso”.

No dia 15 de Janeiro, numa conferência de imprensa em Moscow, Lavrov fez algumas declarações francas:

    Podemos ver as aspirações não para resolver o conflito (sírio) tão logo quanto possível, mas sim para assistir aqueles que desejariam dar passos práticos para mudar o regime… As ações, podemos ver agora, demonstram que os Estados Unidos não querem manter a Síria territorialmente integrada. Foi só ontem que ouvimos acerca de uma nova iniciativa de que os EUA querem ajudar as assim chamadas forças da Síria democrática a organizarem algumas zonas de segurança na fronteira. De fato, isso significa separação de um enorme território ao longo das fronteiras com a Turquia e o Iraque.

Como é que tudo isto faz sentido? Na minha opinião, tanto a Rússia como o Irã simplesmente sentarão com os braços cruzados e observarão como Erdogan cuida de esmagar o principal proxy dos EUA (a milícia curda) no norte da Síria. Na verdade, eles não têm nada a perder se se seguir um confronto desagradável entre os EUA e a Turquia, duas grandes potências da OTAN. Por outro lado, se a Turquia tiver êxito em vencer a milícia curda, os EUA não terão outra opção senão desocupar o norte da Síria, o que também funciona em vantagem da Rússia e do Irã. Dito resumidamente, a administração Trump deu um passo maior do que as pernas com a sua decisão insensata de manter indefinidamente a presença militar dos EUA na Síria “para conter Assad e o Irã”. Teerã sabe muito bem que se os EUA forem forçados a desocupar a Síria, o projeto estado-unidense-israelense contra o Irã tornar-se-á uma piada no bazar do Oriente Médio.

As próximas semanas vão ser cruciais. Se os EUA se mostrarem impotentes enquanto a Turquia esmaga seus aliados na Síria, isto será uma enorme perda de face para a administração Trump no plano regional. Enquanto isso, a Turquia está a cooperar ativamente com a Rússia nos preparativos para manter um Diálogo Nacional Sírio (de representantes do governo e da oposição) em Sochi, dias 29-30 de Janeiro. A Rússia agora consegue uma outra oportunidade para acelerar o entendimento sírio.


Autor: M K Bhadrakumar

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com

Fonte: blogs.rediff.com

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