Os Estados Unidos preparam uma guerra entre latino-americanos.


“Um grupo de 734 mercenários está atualmente a ser treinado para realizar um ataque de falsa bandeira contra a Colômbia e justificar assim uma guerra da Colômbia contra a Venezuela.”

Pouco a pouco os partidários da doutrina Cebrowski avançam os seus peões. Se tiverem que cessar de fabricar guerras no Oriente-Médio Alargado, vão fazê-lo na Bacia das Caraíbas. Antes de mais, o Pentágono planeja o assassinato de um chefe de Estado eleito, a ruína do seu país e sabota a unidade da América Latina.

John Bolton, o novo Conselheiro Nacional de Segurança dos Estados Unidos, relançou o projeto de destruição das estruturas estatais da Bacia das Caraíbas.

Falando perante a comunidade anti-castrista, no Miami Dade College, John Bolton denunciou “Esta troika da tirania, que se estende de Havana a Caracas passando por Manágua, [a qual] é a causa de imenso sofrimento humano, o impulso para uma enorme instabilidade regional, e o início de um sórdido berço do comunismo no hemisfério ocidental”.

Recorde-se que, na onda dos atentados do 11-de-Setembro, o Secretário da Defesa da época, Donald Rumsfeld tinha criado um Gabinete de Transformação de Força (Office of Force Transformation) e designado o Almirante Arthur Cebrowski para o dirigir. A sua missão era a de preparar o Exército norte-americano para a sua nova missão da era da globalização financeira. Tratava-se de mudar a cultura militar a fim de destruir as estruturas estatais das regiões não-conectadas à economia globalizada. O primeiro componente deste plano consistiu em desarticular o “Oriente-Médio Alargado”. A segunda etapa deveria ser fazer o mesmo na “Bacia das Caraíbas”.O plano previa destruir uma vintena de Estados costeiros e insulares, à excepção da Colômbia, do México e o mesmo quanto a territórios britânicos, norte-americanos, franceses e neerlandeses.

Logo após a sua ascensão à Casa Branca, o Presidente Donald Trump opôs-se ao plano Cebrowski. No entanto dois anos mais tarde, apenas conseguiu interditar ao Pentágono e à OTAN de entregar um Estado aos grupos terroristas que eles empregam (o “Califado”), mas não em desistir de manipular o terrorismo. Em relação ao Oriente-Médio Alargado, conseguiu fazer diminuir a tensão, mas as guerras continuam com menor intensidade. Em relação à Bacia das Caraíbas, ele travou o Pentágono, interditando-o de desencadear operações militares diretas.

Em Maio último, Stella Calloni revelava uma nota do Almirante Kurt Tidd, Comandante-em-chefe do SouthCom, expondo os meios postos em marcha contra a Venezuela [1]. Uma segunda incursão é conduzida em simultâneo na Nicarágua e uma terceira, desde há um século e meio, contra Cuba.

Segundo este mapa, extraído de um Powerpoint de Thomas P. M. Barnett durante uma conferência no Pentágono em 2003, todos os Estados da zona rosada devem ser destruídos. Este projecto nada tem a ver nem com a luta de classes, no plano nacional, nem com a exploração dos recursos naturais. Depois do Oriente-Médio Alargado, os estrategistas dos EUA preparam-se para reduzir a ruínas o Noroeste da América Latina.

Em diversas análises precedentes havíamos concluído que a desestabilização da Venezuela, iniciada pelo movimento das guarimbas, prosseguida pela tentativa de golpe de Estado, de 12 de Fevereiro de 2015 (operação Jericó) [2], depois pelos ataques contra a moeda nacional e a organização da emigração, desaguaria em operações militares [3] conduzidas a partir do Brasil, da Colômbia e da Guiana. Manobras multinacionais de transporte de tropas foram organizadas pelos Estados Unidos e seus aliados, em Agosto de 2017 [4]. A subida ao Poder em Brasília, a 1 de Janeiro de 2019, do Presidente pró-israelita Jair Bolsonaro tornará isso possível.

O Vice-presidente brasileiro Hamilton Mourão e o Presidente Jair Bolsonaro.

De fato, o próximo vice-presidente brasileiro será o General Hamilton Mourão, cujo pai desempenhou um papel notável no golpe militar pró-EUA de 1964. Ele próprio se salientou por suas declarações contra os Presidentes Lula e Rousseff. Em 2017, ele declarara -em nome do Grande Oriente do Brasil- que chegara o momento de um novo golpe militar. No fim, acabou eleito com o Presidente Bolsonaro. Numa entrevista à revista Piauí, anunciou uma próxima queda do Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e a instalação de uma força de “paz” brasileira (sic). Perante a gravidade destas afirmações, que constituem uma violação da Carta das Nações Unidas, o Presidente eleito, Bolsonaro, assegurou que ninguém queria fazer guerra a ninguém e que o seu vice-presidente falava demais.

Seja como for, o Presidente Maduro, numa conferência de imprensa, em 12 Dezembro de 2018, revelou que o Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, assegurava a coordenação entre a equipe do Presidente colombiano, Iván Duque, e a do vice-presidente brasileiro. Um grupo de 734 mercenários está atualmente a ser treinado em Tona, na Colômbia, para realizar um ataque de falsa bandeira contra a Colômbia e justificar assim uma guerra da Colômbia contra a Venezuela. Ele seria comandado pelo antigo Coronel Oswaldo Valentín García Palomo, hoje em dia em fuga após a tentativa de assassinato com drone do Presidente Maduro, no aniversário da Guarda Nacional, a 4 de Agosto último. Estes mercenários são apoiados por Forças Especiais estacionadas nas bases militares dos EUA em Tolemaida (Colômbia) e Eglin (Florida). O plano norte-americano prevê a captura, desde o início do conflito, de três bases militares venezuelanas, Libertador de Palo Negro, Puerto Cabello e Barcelona.

Anúncio de busca sobre o Coronel Oswaldo Valentín García Palomo da Guarda Nacional venezuelana, depois de ele ter comandado uma tentativa de assassinato do Presidente da República bolivariana.

O Conselho de Segurança Nacional dos EUA tenta convencer vários Estados a não reconhecer o segundo mandato de Nicolás Maduro (reeleito em Maio último, mas que deverá iniciar o mandato com o Ano Novo). Foi por isso que os Estados do Grupo Lima contestaram o escrutínio presidencial antes mesmo da sua realização, e interditaram, ilegalmente, a sua organização nos consulados da Venezuela. Da mesma forma, a crise migratória acaba por não passar de mais uma manipulação: são hoje inúmeros os Venezuelanos que fugiram da crise monetária, acreditando encontrar facilmente trabalho num outro Estado latino-americano, a tentar voltar para casa. Mas, o Grupo Lima impede-os, proibindo os aviões venezuelanos que tentam ir repatriá-los de sobrevoar o seu espaço aéreo e aos autocarros (ônibus-br) vindos para os buscar de cruzar as fronteiras.

Leia também: Soberania ameaçada: Do que um país precisa para ser atacado por uma superpotência global ou uma coalizão.

Tudo se passa, pois, como se estivéssemos assistindo a um remake dos acontecimentos que ensanguentam o Oriente-Médio Alargado desde os atentados do 11 de Setembro de 2001. O essencial não reside nas ações militares, mas na representação de desordem conferida pelos acontecimentos. Trata-se, primeiro, de fazer levar gato por lebre [5].Em cinco anos, a Venezuela e a Nicarágua que tinham uma imagem positiva no exterior são hoje consideradas, erradamente, como “Estados falidos”. Se ainda não se reescreveu a história dos Sandinistas e da sua luta face à ditadura dos Somoza, dá-se como adquirido que Hugo Chávez Frías era um “ditador comunista” (sic), quando o seu país deu um incrível salto em frente, político e económico, sob a sua presidência. Em breve, será possível destruir estes Estados sem que ninguém se incomode em reclamar.

O tempo esgota-se cada vez mais rapidamente. Assim, quando em 1823 o Presidente James Monroe decidiu fechar as Américas ao controlo europeu, ele não sabia que a sua doutrina evoluiria, 50 anos mais tarde, para uma afirmação do imperialismo dos EUA. Tal como hoje, quando o Presidente Donald Trump afirmava no dia da sua investidura que o tempo de mudanças de regime acabara, ele não pensava que seria traído pelos seus. Ora, a 1 de Novembro de 2018, o seu Conselheiro de Segurança, John Bolton, declarava em Miami que Cuba, a Nicarágua e a Venezuela formam a “troika da tirania”. Depois o seu Secretário da Defesa, o General James Mattis, afirmava, a 1 de Dezembro, diante do Reagan National Defense Forum que o eleito Presidente Maduro é um “déspota irresponsável”, que “deve partir” [6].


Notas:

Plan to overthrow the Venezuelan Dictatorship – “Masterstroke” », Admiral Kurt W. Tidd, Voltaire Network, 23 février 2018. “O “Golpe de Mestre” dos Estados Unidos contra a Venezuela (Documento do Comando Sul)”, Stella Calloni, Tradução Alva, Rede Voltaire, 13 de Maio de 2018.

Obama falha o seu golpe de Estado na Venezuela”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 23 de Fevereiro de 2015.

General Jacinto Perez Arcay considera “inexorável” a invasão da Venezuela”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 12 de Junho de 2016.

Grandes manobras ao redor da Venezuela”, Manlio Dinucci, Tradução Maria Luísa de Vasconcellos, Il Manifesto (Itália) , Rede Voltaire, 23 de Agosto de 2017.

Venezuela, a intervenção ilegal”, Julio Yao Villalaz, Tradução Alva, Rede Voltaire, 5 de Março de 2018.

Mattis condemns Venezuela’s Maduro as a ’despot’ who has to go” (“Mattis condena Maduro da Venezuela como um “déspota” que tem que partir”), Reuters, Phil Stewart, December 1, 2018.

Autor: Thierry Meyssan

Fonte: http://www.voltairenet.org/article204401.html

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