A hegemonia liberal no Brasil. Por que nacionalistas brasileiros não devem apoiar Bolsonaro.


[Nota do editor: Aqueles que a si mesmos iludiram por sua conta e risco e concluiram da fala Bolsonaro o tom patriótico entenderam mal e isso se confirma hoje. As suspeitas de analistas políticos sérios acerca do posicionamento daquele Bolsonaro pró-Brasil da campanha eleitoreira se confirmaram quando sua posição pós eleito se distanciou da subjetividade salvadora forjada nas mentes e que ainda impede muitos eleitores crédulos seus, de boa-fé, medir o peso do regime neoliberal anti-Brasil e as escolhas de um governo em nada nacionalista. A seguir, trechos do texto esclarecedor de Lucas Novaes que recomendo a leitura. Rod Oliveir]

O que é nacionalismo no contexto brasileiro?

Primeiramente, é necessário deixar claro que quando mencionamos a palavra “nacionalista”, o fazemos com base no pensamento genuíno de defesa dos interesses nacionais (de ordem econômica, política e social), manifestada na história recente do Brasil tanto por elementos de esquerda, como é caso do governo de Getúlio Vargas, suas “campanhas de nacionalização” e defesa dos interesses trabalhistas, como por retóricas mais à direita, caso do saudoso Enéas Ferreira Carneiro (já falecido e que jamais teve a oportunidade de incorporar suas ideias ao projeto político brasileiro).

A ameaça não é comunista, e sim liberal e norte-americana.

Enéas, ícone messiânico brasileiro, jamais apoiaria Jair Bolsonaro e sua guinada ao “conservadorismo” liberal americano.

Tanto Enéas como Getúlio Vargas estavam conscientes de que o Brasil deveria seguir um caminho próprio de desenvolvimento e independente dos interesses de organizações privadas ou nações de caráter dominador como os Estados Unidos da América (as primeiras como instrumento do segundo). Vargas, enquanto no poder, contribuiu com a independência brasileira por meio da nacionalização da economia, investimento nas indústrias de base e valorização do trabalhador. Nos anos 1990 e 2000, Enéas, uma figura muito menos influente, utilizava seu curto tempo de propaganda eleitoral gratuita para expor os interesses primeiro-mundistas norte-americanos e europeus presentes em nossos candidatos à presidência, tais como a legalização das drogas e a submissão econômica do Brasil às potências estrangeiras.

Bolsonaro representa a política externa americana e sionista

Jair Bolsonaro conseguiu crescer explorando o descontentamento da classe média brasileira com o que considera como “avanço do comunismo” (que nada mais é do que certa dose de redistribuição de renda, muito insuficiente por sinal) e com os ativismos de grupos de direitos humanos. Isso gerou a falsa impressão de que o político represente os interesses da maioria da população. Na realidade, Jair Bolsonaro é um apologista do domínio dos Estados Unidos sobre o mundo e não esconde esse fato […] demonstra sua admiração pelo Regime Militar brasileiro (1964-1985) […] que obedecia a cartilha de Washington impedindo qualquer movimento anticapitalista e antiliberal de triunfar na política nacional. […] Para o político fluminense, os Estados Unidos e Israel possuem o direito de ditar as regras do tabuleiro geopolítico. Qualquer um que se posicione contra ao domínio do Primeiro Mundo receberá a alcunha de “terrorista” ou “inimigo da liberdade”.

A respeito de Bolsonaro no campo econômico o autor acrescenta que suas posições em relação ao plano econômico mudaram radicalmente a medida em que sua aceitação pela grande mídia aumentaram. Em aparição ao programa do Jô em 2007 na Rede Globo, Bolsonaro defendeu sua afirmação de que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deveria ser fuzilado pela sua política de privatização das estatais como a Vale do Rio Doce e as empresas de telecomunicação. Hoje, Bolsonaro está completamente alinhado com o pensamento libertário econômico e defende a diminuição da interferência do estado na economia e até mesmo a privatização da Petrobras. […]

O Brasil ideal de Jair Bolsonaro.

Tratando-se de suas intrigas com ONGs de direitos humanos, Bolsonaro afirma que “cortaria todos os recursos para direitos humanos” caso tivesse a chance de realizar tal alto. Certamente, muitas dessas organizações são representantes dos interesses americanos e europeus travestidos de “defensores das minorias” e são financiadas por esses mesmos países. Ativistas dessas organizações se infiltraram em muitos partidos considerados de esquerda e são bastante influentes. Aqui notamos uma certa contradição muito forte em qualquer político liberal conservador brasileiro: seu desejo por fazer com que o Brasil “atrasado” se adeque ao primeiro mundo desenvolvido, enquanto rejeita a própria normalidade cultural desses países que tanto admira. Apesar de seus elogios à democracia americana e aos costumes culturais europeus, Jair Bolsonaro seria motivo de chacota nesses países marcados pelo domínio do secularismo e dos interesses privados sobre as tradições dos povos. Se você realmente acredita que as ONGs são um problema para o Brasil, não é se aproximando dos Estados Unidos e outras potências imperialistas que o problema será resolvido.

Não vivemos mais a guerra fria

O Socialismo como potência ideológica e geopolítica capaz de interferir nas decisões de outros países não existe mais. A União Soviética caiu e o que existem hoje são alguns países (tais como Cuba e Coréia do Norte) interessados em manter sua soberania e ser deixados em paz. Muitos dos ditos “socialistas” de hoje vistos no Ocidente nada mais são do que liberais de esquerda, inspirados nos movimentos da contracultura nos Estados Unidos e na França durante os anos 1960. Apesar disso, o comunismo continua sendo usado como bicho-papão para fomentar a histeria conservadora anticomunista e pró-americana. Se você acredita que existe algo chamado “Marxismo Cultural” e que vem sendo ensinado nas escolas desde os anos 1960, olhe para o Brasil a sua volta: quantas pessoas que você parar na rua podem te dar uma definição do que significa marxismo? A resposta é: quase nenhuma. Não existe doutrinação comunista nas escolas. O que existe é a propagação do consumismo cosmopolita e da confusão de termos políticos gerados pelo próprio Liberalismo (interessado na ignorância do povo frente às alternativas).

Conclusão

Jair Bolsonaro nada mais é do que uma falsa promessa. Ele não irá desafiar as elites dominantes e os monopólios midiáticos, apenas reforçar ainda mais suas influências na opinião pública brasileira. Seu maior sonho é implementar o controle americano total sobre a política brasileira massacrando qualquer dissidência ou ameaça a esse controle. ¹

A morte do Brasil na viagem de Bolsonaro aos EUA

Se havia alguma dúvida sobre o grau de vassalagem cega do governo Bolsonaro em relação a Trump, a inacreditável viagem aos EUA se encarregou de aniquilá-la em grande estilo. Foi um espetáculo grotesco de submissão política e ideológica. Uma total falta de vergonha. Algo que já entrou para a história como o capítulo mais constrangedor da nossa diplomacia. […]

Trump é um oceano de boas intenções, às quais o Brasil tem de se curvar ideologicamente. Por isso, no incrível convescote bilateral da ultradireita, que reuniu expoentes do calibre intelectual de Steve Bannon e Olavo de Carvalho, nosso capitão fez anacrônico discurso contra o comunismo, no qual afirmou que o “antigo comunismo não pode mais imperar neste nosso ambiente que nós vivenciamos”. Desconhecíamos que o capitão residisse em Pyongyang. Pensávamos que tivesse fixado residência em Brasília. […]

Esse amor incondicional já redundou em atos de concessão unilateral inéditos em nossa história.

Em primeiro lugar, concedemos a isenção de vistos para norte-americanos, canadenses, australianos e japoneses, sem exigir nada em troca. De agora em diante, esses cidadãos poderão aqui entrar sem nenhuma exigência.

Já, nós, brasileiros, continuaremos a nos submeter à tradicional via crucis para obter vistos.

Afinal, como afirma o próprio presidente do Brasil, frequentemente não temos boas intenções e provocamos vergonha lá fora, além de, segundo o nosso ministro da Educação, roubarmos e pilharmos tudo durante nossas viagens ao exterior.

Concessões amorosas

Outro ato que demonstra amor incondicional foi o relativo à concessão de uma cota de 750 mil toneladas/ano para que os EUA exportem para nós seu trigo com isenção tarifária.

De novo, não exigimos nada em troca, mesmo tendo Trump nos imposto sobretarifas em aço e alumínio e barreiras não-tarifárias contra nossa carne e vários outros bens agrícolas. Fizemos por amor.

O problema é que essa decisão amorosa e desinteressada pode prejudicar a Argentina, nosso principal parceiro do Mercosul, e do qual importamos a maior parte do trigo que consumimos. Em 2017, importamos apenas 333 mil toneladas de trigo dos EUA. Assim, essa quota tenderá a mais que duplicar as nossas importações dos EUA.

Também a concessão da Base de Alcântara para ser usada por empresas norte-americanas é outra demonstração de afeto incondicional. Na realidade, o acordo antigo, rejeitado pelo Congresso não tão amoroso, impunha ao Brasil, na prática, a extinção de seu programa de desenvolvimento de foguetes como contrapartida para que os EUA “deixassem” suas empresas usar nossa base.

[…]

Outra concessão amorosa nossa foi a promessa da extensão da jurisdição da OTAN ao Atlântico Sul, que os EUA vêm tentando estabelecer, coincidentemente, desde a descoberta do pré-sal, que Lula e seu ministro da Defesa, Nélson Jobim, negaram.

Agora, a generosidade abre a possibilidade de submeter a Amazônia Azul aos desígnios […] no mesmo diapasão afetivo, Guedes, prometeu vender o pré-sal em 3 meses. O pré-sal e tudo mais. O corpo esquartejado do Brasil está à venda.

Brasil, novo estado norte-americano?

Já do outro lado da mesa, o novo dono do Brasil, bem mais pragmático e racional, não demonstrou tanto afeto assim. Ao pedido de apoiar o Brasil em seu pleito de ingressar na OCDE, o clube dos ricos, respondeu que só o fará se o nosso país renunciar ao tratamento diferenciado que temos na OMC, por sermos país em desenvolvimento. Com isso, perderíamos mercado em muitos países. Os EUA, nosso concorrente em várias áreas, aproveitariam.

Também não conseguimos êxito algum na reversão ou revisão de medidas protecionistas que os EUA aplicam a nossos produtos. Afinal, lá, como no Brasil, vigora o America First. ²


Nota: ¹ Trechos do texto publicado por Eduardo Consolo dos Santos no blog Resistencia Terceiro Mundista em 7 de março de 2016. ² Trechos do texto publicado por Marcelo Zero em Vi o Mundo em 19 de março de 2019.

Autor: Lucas Novaes¹ | Marcelo Zero²

Fonte: Blog Resistencia Terceiro Mundista | ² Viomundo.com.br

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