A Nação à Conquista do Estado – Dispensa dos militares.


“A República foi, no Brasil, obra de uma propaganda persistente, oculta e sutil. Trabalho nitidamente maçônico, em que as lojas se serviram das forças armadas, depois de arrancarem todas as escoras do Trono: o prestígio que lhe dera o Altar, a força do dinheiro, as armas dos soldados e a organização do trabalho. Tudo foi feito em obediência a um plano bem pensado e bem traçado, que as forças ocultas começaram a executar desde que viram que a guerra do Paraguai, ao invés de precipitar o Brasil no abismo, com a derrota de seu Exército e a revolta dos negros à retaguarda das tropas batidas, mais ainda o unira, engrandecera e fortalecera”.

Oliveira Lima (O Império Brasileiro 1822-1889, UnB, 1973) escreve que Juan Pablo Rojas Paúl, presidente da República da Venezuela (02/07/1888 a 19/03/1889), assim comentou a proclamação da República no Brasil: “acabou a única república que existia na América: o Império do Brasil”.

Uma boutade de um país que vira passar, de 1822 até 1889, vinte e cinco diferentes presidentes, incluindo Simón Bolivar, enquanto o Brasil apresentara dois imperadores e quatro regências; estas entre 1831-1840.

O que realmente ocorrera fora o uso do Exército para o empoderamento ou a tomada do Estado brasileiro por cafeicultores paulistas.

A junção de propósitos, ideais, interesses regionais e particulares, além da então onipresente presença da Inglaterra, só poderia levar a nascente república a uma crise. Mas esta também fora construída, engendrada por participantes que tinham estruturado seu projeto de país: os cafeicultores paulistas e os financistas ingleses.

Deodoro chega à Presidência sem projeto. A única oposição possível, para apresentar uma alternativa de Estado, estava restrita ao Rio Grande do Sul e a intelectuais no Rio de Janeiro: o positivismo de Julio de Castilhos e Borges de Medeiros.

Comentando o positivismo, lemos em Guerreiro Ramos (Mito e verdade da revolução brasileira, Editora Insular, Florianópolis, 1963): “Com o lema Ordem e Progresso, acreditava na chamada evolução contínua, em que as grandes transformações reclamadas seriam feitas sem dramatismo e abalos, isto é, gradativamente, em consonância com os avanços das ideias humanitárias. Definia, por isso, o progresso como le développement de l’ordre. Para ele, por assim dizer, a revolução seria questão de consciência. A sociologia de Augusto Comte e, consequentemente, seu conceito de revolução revelam-se hoje como episódio do pensamento conservador”.

O Exército iria brigar com a Marinha e, ao fim, os militares voltariam à caserna, aos quartéis, deixando aos interesses privados a condução do Brasil.

Lincoln de Abreu Penna (O Progresso da Ordem, Sette Letras, RJ, 1997) analisa este período histórico: “A Revolta da Armada não pode ser entendida se não a situarmos no contexto no qual se insere a crise que se instalou no país com a medida extrema adotada então pelo Presidente Deodoro da Fonseca, ao instituir o estado de sítio e proclamar-se ditador fechando o congresso a 3 de novembro de 1891. Vinte dias se passaram, e Deodoro curvou-se ante a ação do Contra-Almirante Custódio José de Mello”.

Floriano Peixoto assume constitucionalmente como Vice-Presidente da República. Mas Custódio de Mello julga-se com mesmo direito. Segue-se um período de vaidades e ciúmes onde a grande vítima será a Nação Brasileira.

Castilhos, deodorista, que recebera apoio material de Floriano é apeado do poder em 17 de junho de 1892, sendo vencedor o monarquista Gaspar Silveira Martins. A oligarquia paulista apoia Floriano com vista a seu projeto “republicano”. Os ingleses, com investimentos em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador – estrada de ferro de Santos a Jundiaí, Cities Improvment Co. fornecedora de gás, água e bondes, Western e Brazilian Telegraph, pontes e bancos – ficam, obviamente, com o vencedor Floriano.

Escreve Cruz Costa (Pequena História da Republica, Civilização Brasileira, RJ, 1968): “A República foi, se assim podemos dizer, o período do enrichissez-vous da nossa história, ou a sua paulistização porque como observa Normano, a significação econômica do paulista é mais ampla do que seu significado geográfico”. Referindo-se à obra de Isaac Ilyich Levin, russo, banqueiro e historiador econômico, que escreveu sob pseudônimo de John F. Normano e J.F. Normano “Brazil: a study of economic types”, editado em português na Coleção Brasiliana, volume 152, com título “Evolução Econômica do Brasil”.

Nelson Werneck Sodré (Raízes Históricas do Nacionalismo Brasileiro, MEC-ISEB, RJ, 1960, 2ª edição) assim se expressa: “Floriano representa, tipicamente, a classe média, que começa então a disputar papel político. E a própria difusão do positivismo nessa classe revela a solução fácil que permitia a defesa de posições progressistas sem rompimento com valores éticos tradicionais. A composição entre a classe média e a facção economicamente mais poderosa da classe territorial seria rompida com os episódios que se seguem à proclamação do novo regime. E terminaria, com os presidentes paulistas, isto é, os representantes da lavoura cafeeira, por conduzir a um total alijamento da classe média”.

Muitas vezes esquecida nos relatos históricos e nas análises políticas, mas sempre presente e, o que é pior, definindo os rumos nacionais estão os capitais estrangeiros. Neste início da República, como fora desde a chegada da família real portuguesa, em 1808, o capital era inglês.

Os “Commercial Reports“, citados em Preeminência Inglesa no Brasil, do professor estadunidense Alan K. Manchester (Editora Brasiliense, SP, 1973), apontam entre oito e doze milhões de libras esterlinas aplicados em São Paulo, entre 1888 e 1890. “A maravilhosa prosperidade que se notava em 1890, do litoral ao interior, teve seu começo com a vinda do comerciante, do engenheiro e do capitalista inglês”.

Seguimos transcrevendo desta obra. “Como se poderia supor, os bancos britânicos eram numerosos no Brasil. O London and Brazilian Bank, com um capital de um milhão e meio de libras esterlinas todo inglês, estabeleceu-se no Rio em fevereiro de 1863, com filiais na Bahia, em Pernambuco, Santos e no Rio Grande do Sul. O Banco Brasileiro e Português foi incorporado, com as matrizes em Londres, sendo todo inglês o milhão de libras esterlinas de capital”. Os bancos ingleses representavam, ao fim do século XIX, 58% dos ativos bancários estrangeiros e 30% do total de todos os bancos no Brasil.

Em 1884, o cônsul inglês previu que o próspero comércio que passava pelo porto de Santos era embrionário e poderia se transformar no canal de incalculável comércio. Mas alertava também que os Estados Unidos da América (EUA) “já haviam aberto uma pequena brecha, suprindo as novas estradas de ferro com material rolante” e as máquinas agrícolas estadunidenses começavam a “chamar atenção”.

A maior rivalidade fora a francesa mas nem arranhara a supremacia inglesa. No Império, a França não passara de 12% das importações brasileiras, comparadas as mais de 50% da Inglaterra. O que causava apreensão ao cônsul em Santos, por volta de 1873, eram as bem treinadas e sóbrias tripulações alemães. Bom observador, pois em 1912, apenas a tonelagem da Inglaterra superava a alemã.

Mas as observações dos cônsules britânicos sobre os EUA não pareciam preocupar a Inglaterra e sabemos o que ocorreria ao fim da Primeira República.

O historiador e acadêmico Gustavo Barroso (1888-1959) tem particular interpretação sobre o fim do Império e o início da República. Em sua História Secreta do Brasil, volume 6, reedição de 1993 da Revisão Editora, Porto Alegre, lemos: “A República foi, no Brasil, obra de uma propaganda persistente, oculta e sutil. Trabalho nitidamente maçônico, em que as lojas se serviram das forças armadas, depois de arrancarem todas as escoras do Trono: o prestígio que lhe dera o Altar, a força do dinheiro, as armas dos soldados e a organização do trabalho. Tudo foi feito em obediência a um plano bem pensado e bem traçado, que as forças ocultas começaram a executar desde que viram que a guerra do Paraguai, ao invés de precipitar o Brasil no abismo, com a derrota de seu Exército e a revolta dos negros à retaguarda das tropas batidas, mais ainda o unira, engrandecera e fortalecera”.

Barroso tem, sob uma ótica distinta, a mesma conclusão: o exército foi usado e descartado para a transição do Império para a República. Dando assim mais poder ao agronegócio paulista e ao seu orientador, financiador e comprador: o capital inglês.

Nelson Werneck Sodré, na obra citada, acrescenta: “Esse alijamento se completa quando Campos Sales chega ao poder. Define-se, em seu governo, pela reforma dos empréstimos externos, com o serviço das dívidas previsto no funding, pela orientação financeira, que pretende paralisar o assustador desenvolvimento, para a época, de novas empresas – de que o episódio do encilhamento fora uma singular caricatura – e, particularmente, pela chamada “política dos governadores”, que consistia em entregar os estados às oligarquias, para que os explorassem como fazenda particular”.

O novo período, iniciado com a Revolução de 1930, teve na Era Vargas a primeira e única construção de um Estado Nacional Brasileiro. Mas vem sendo sistematicamente e permanentemente destruído, acelerado com a Constituição de 1988 e que o atual governo pretende enterrar de vez.

O açúcar, o café, o minério de ferro, a soja, os grãos tem agora, a engrossar a sanha exportadora de produtos primários, o petróleo, o óleo cru do pré-sal brasileiro. E aumentam as importações de derivados, mantendo ociosamente caras as refinarias da Petrobrás, justificando suas alienações a preço vil. E, como a república não é cláusula pétrea constitucional, poderemos empossar Jair Messias, Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil.

Novamente o Exército vai servir para empoderar as oligarquias e para o capital estrangeiro, e, na forma do costume, descartado depois como o golpista. Ou podem lhe dar, para amaciá-los, um novo Canudos, agora o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) onde serão gastas munição e outros equipamentos e recursos importados que, dinamizando a economia de outros países, reelegerão Trump, Macron ou outro “aliado” ocidental.


Autor: Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado

Publicado em dinamicaglobal.wordpress.com

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