Como os EUA estão travando chifres com a Rússia na Líbia.


Dezenas de oficiais do serviço militar de espionagem da GRU, bem como de sua ala de forças especiais Spetznaz, podem estar no terreno no leste da Líbia, desempenhando inicialmente funções de treinamento e ligação.
Duas bases militares russas operam nas cidades costeiras de Tobruk e Benghazi, usando a cobertura da empresa militar russa privada, o Grupo Wagner, que já possui postos avançados por lá.
Acredita-se agora que os devastadores mísseis Kalibr da Rússia e os modernos sistemas de mísseis de defesa aérea S300 estejam no solo da Líbia. Fonte: The Sun.

Em um modo bastante violento, os EUA estão se posicionando na Líbia de uma maneira que se tornará mais uma Síria no que diz respeito ao jogo final deste país devastado pela guerra, destruído pela OTAN e com “intervenções humanitárias”. Há algum tempo, os russos vêm aumentando sua presença na Líbia, apoiando o Exército Nacional da Líbia liderado por Khalifa Haftar. Enquanto o próprio Haftar esteve historicamente próximo da CIA, os EUA alegam que a presença russa na Líbia está tendo um impacto “incrivelmente desestabilizador” no país apenas mostra como a presença russa funcionará fundamentalmente em desvantagem da multidão de interesses ocidentais, particularmente aqueles dos EUA, França e Itália. A presença russa na Líbia e seu apoio ao LNA, que atualmente controla quase 80% da Líbia, incluindo os principais campos de petróleo, já começaram a transformar elementos anti-russos no Ocidente para começar a projetar a presença russa como uma “desestabilização” e ameaçando os interesses ocidentais.

David Schenker, secretário assistente do Departamento de Estado para assuntos do Oriente Próximo, disse recentemente em Washington: “Os Estados Unidos estão comprometidos com um futuro seguro e próspero para o povo da Líbia. Para que isso se torne realidade, precisamos de compromissos reais de atores externos … Em particular, a interferência militar da Rússia ameaça a paz, a segurança e a estabilidade da Líbia.”

Embora essa seja a posição oficial dos EUA, a principal mídia ocidental também se juntou à ‘linha de frente’ para espalhar a russofobia. Uma história publicada recentemente pela Bloomberg exortou os EUA a tomar medidas para impedir o “aventureirismo russo” na Líbia. Para o Washington Post, a chegada de militares russos está adicionando “poder de fogo mais mortal” à “guerra civil” da Líbia, uma guerra que, em primeiro lugar, não teria começado se a OTAN não tivesse intervindo e derrubado propositadamente o regime de Kaddafi.

Enquanto especialistas políticos no Ocidente continuam enfatizando maneiras de “expor e isolar a Rússia em suas tentativas de inclinar o equilíbrio de poder na Líbia”, não devemos esquecer aqui que os líbios devem sua crise à política ocidental de mudança de regime. De fato, um relatório de 2016 do comitê de relações exteriores do Parlamento Britânico concluiu que a Líbia era um desastre ocidental completo. Foi um desastre intencionalmente preparado, assim como o Iraque, para forçar um regime estável a sair do poder e espalhar o caos e trazer o desejado regime pró-Ocidente. Como o Ocidente fracassou completamente em estabilizar a Líbia depois ou instalar um regime favorecido, o crescente apoio da Rússia a Haftar e LNA significa que as chances de sucesso do objetivo ocidental de um regime favorecido se tornariam ainda mais fracas; daí a oposição ocidental ao apoio russo ao LNA.

Na presença de um regime apoiado pela Rússia na Líbia, o objetivo de longo prazo dos EUA de transformar a Líbia na sede de seu comando na África ficará seriamente comprometido. Isso está separado dos “interesses do petróleo” que a França e a Itália têm perseguido vigorosamente na Líbia.

Por outro lado, não há como negar que os interesses russos na Líbia não se limitam apenas à Líbia. De fato, a Líbia pode se tornar um trampolim para a expansão geopolítica russa na África, um continente que já está se tornando cada vez mais um centro de intensa rivalidade geopolítica entre os EUA e a China. Uma presença russa no coração da África, nesse contexto, certamente funcionaria contra os interesses ocidentais, limitando sua capacidade de dominar e aumentando a dos estados africanos para diversificar suas relações e combater os desígnios hegemônicos ocidentais.

A Rússia já se tornou o maior fornecedor de armas para os países africanos, representando 35% das exportações de armas para a região, seguidas pela China (17%), Estados Unidos (9,6%) e França (6,9%). Assim, quando ocorreu a cúpula mais recente entre Rússia e África, as discussões em torno do aumento da cooperação em segurança entre a Rússia e a África foram as mais dominantes. À margem desta cúpula, Putin da Rússia teve até treze reuniões bilaterais com os líderes africanos. Foram assinados acordos no valor de US$ 12,5 bilhões, na forma de Memorandos de Entendimento (MOU). Embora nem todos esses acordos possam se concretizar, a cúpula mostrou a expansão horizontal da Rússia (em termos de número de países dispostos a expandir as relações com a Rússia) e vertical (em termos de áreas de cooperação com esses países) na Rússia.

A oferta russa de expansão na África está intimamente ligada à Líbia, um país que pode se tornar o portão físico da Rússia para o continente africano e uma fonte de presença física no mar Mediterrâneo. Um governo pró-Moscou na Líbia pode não hesitar demais em permitir uma presença razoável da Marinha Russa nos portos do leste da Líbia, Sirte e Benghazi, no Mediterrâneo.

Embora a reentrada da Rússia na Líbia certamente dependa de onde o próprio Haftar se situa entre o “Ocidente” e o “Oriente”, há pouco resultado positivo de que a Rússia dependerá muito das relações da era Kaddafi de ambos os países. Tal como está, a Rússia teve investimentos no valor de bilhões de dólares na Líbia durante a era Kaddafi, e está buscando construir sobre essa base. – algo que está coçando muito o Ocidente, fazendo-os projetar a presença russa em termos de um “elemento desestabilizador” e esquecer completamente como a própria intervenção da OTAN semeou em primeiro lugar as turbulências que a Líbia está hoje.


Autor: Salman Rafi Sheikh

Traduzido para publicação em dinamicaglobal.wordpress.com

Fonte: New Eastern Outlook

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