:: A Plataforma Militar Orbital Skif (Polyus)


A descrição abaixo baseia-se principalmente em resumo de um artigo (“A desconhecida Polyus”) escrito por Yuri Kornilov, Projetista Chefe do Bureau de Projetos Salyut, publicado no jornal “Earth and the Universe”. A referência a este artigo aparece no excelente site “Mark Wade’s ENCYCLOPEDIA ASTRONAUTICA”.

A Plataforma Militar Orbital Polyus.

Pela primeira vez na história da Humanidade, foi projetada e posta em órbita uma plataforma militar, a Polyus. Sonho de qualquer belicista desvairado, foi parte da resposta soviética a dois fatores: o delírio militarista do ex-presidente americano Ronald Walter Reagan, chamado “Star Wars” (SDI – Strategic Defense Initiative, março de 1983), e a negativa dos americanos em assinar um tratado proibindo a militarização do espaço (julho de 1984). Assim, foi ordenada pelos líderes soviéticos a construção de uma plataforma orbital de ataque, no menor prazo possível.

A Polyus, dada a pressa, foi construída com módulos prontos de outros artefatos espaciais:

Plataforma Militar Orbital Polyus acoplada ao foguete Energia.

a interface [ diagrama acima ] entre a Polyus e o novo foguete Energia, adaptada da nave recuperável Buran;

o módulo central parece ter sido adaptado de um módulo da estação Mir 2, que nunca chegou a ser lançada;

a cápsula espacial tripulada, com porta de acoplamento, foi adaptada da nave TKS (Kosmos 929, Kosmos 1267 e Kosmos 1443);

muitas partes foram reaproveitadas de outros satélites e naves.

A Cápsula TKS.

Crédito: Mark Wade

Além do reaproveitamento de peças usadas, nem sempre em bom estado, esta pressa trouxe outro problema sério: os motores para manobras orbitais da Polyus eram montados no nariz da estação orbital.

A Plataforma Militar Orbital Polyus (legendas em russo).

A Polyus tinha um comprimento de 37 metros, um diâmetro de 4 metros e um peso total de 80 toneladas. Para termos de comparação, é oportuno lembrar que a estação espacial civil soviética Salyut 6 tinha 14,4 metros de comprimento, 4,15 metros de diâmetro e um peso de 19 toneladas. Ou seja, a plataforma militar orbital Polyus equivalia, em peso, a quatro estações Salyut 6, e em comprimento equivalia a 2,5 vezes a Salyut 6!

Pode ser melhor comparada com o Skylab, que media 36 metros de comprimento por 6,7 metros de diâmetro, com um peso de 90 toneladas.

Armas Nucleares no Espaço

A Plataforma Polyus fazia parte das contra-medidas soviéticas ao projeto “Star Wars”. Contava com armamento de defesa contra satélites ASAT (anti-satélites) e era capaz de lançar “warheads” (bombas atômicas). O tempo estimado para alcançar qualquer alvo em território inimigo era de 6 minutos, ao contrário dos ICBMs convencionais, que levavam cerca de 30 minutos. O líder soviético Mikhail Gorbachov proibiu terminantemente o teste da Polyus com qualquer armamento, mas aproveitou a tecnologia disponível para denunciar a militarização do espaço por parte dos americanos, e chegou a ameaçar com uma “retaliação (nuclear) assimétrica” caso prosseguisse a paranóia militarista espacial americana.

Em 1 de julho de 1986 uma maquete da Polyus foi entregue em Baikonur, para os testes da interface com o foguete Energia.

Na torre de lançamento (com o nome MIR-2 pintado na lateral).

Plataforma Militar Orbital Polyus acoplada a um foguete Energia na torre de lançamento.

Armamento defensivo

O armamento defensivo da Polyus contra satélites agressivos consistia num canhão, guiado por um radar que atuava juntamente com um sistema óptico. Os satélites ASAT inimigos podiam ser rastreados sem a geração de sinais que pudessem denunciar a existência ou a posição da nave. Ainda, como tática defensiva, podia gerar núvens de partículas difusas de bário para confundir os ASAT inimigos.

A Polyus era pintada com uma tinta preta fosca, para dificultar a identificação visual. Especula-se que a cobertura também absorvesse sinais de radar (“stealth”), e deveriam ser evitadas transmissões de rádio. O objetivo era tornar a nave de combate virtualmente indetectável. Os soviéticos estavam preparados para tentar detectar a sua posição de terra, usando radar, detectores ópticos e infra-vermelhos, e dirigir um raio laser contra a nave, que deveria refletí-lo com um espelho refletor de laser. Assim, a validação da sua invisibilidade poderia ser feita sem transmissões de rádio, facilmente detectáveis pela inteligência norte-americana.

A Polyus ainda tinha um recipiente com gases xenônio e criptônio, que produziam luz e podiam ser liberados em órbita.

Armamento ofensivo

O armamento ofensivo era constituído por um canhão lançador de minas nucleares espaciais. Não há informações maiores sobre a capacidade do canhão, nem sobre a quantidade destas minas que podia haver a bordo da nave. A idéia era testar o lançamento de petardos atômicos sem a necessidade de transmissões de rádio por parte da Polyus.

Em 15 de maio de 1987 foi lançada a Plataforma Militar Orbital Polyus, acoplada a um foguete Energia [ fotos ]. O primeiro teste do poderoso Energia havia sido realizado com sucesso absoluto.

Como os motores da Polyus eram montados no nariz, era necessária uma rotação de 180º em relação ao sentido do percurso, e uma rotação de 90º em torno do eixo principal para o posicionamento orbital correto. Porém, graças a um sensor inercial do sistema de orientação (que havia sido retirado de um satélite usado) errático, a gigantesca nave realizou um giro de 360º e disparou os seus motores, o que acabou tirando-a de órbita; a Polyus caiu e afundou no sul do Oceano Pacífico.

Nenhum integrante do governo americano (administrações Reagan e Bush (pai)) jamais admitiu ter qualquer conhecimento sobre o assunto.
Na opinião deste autor, há diversos aspectos relevantes a serem considerados no caso da Polyus:

1. a paranóia militar norte-americana gerou uma reação muito forte por parte da União Soviética – entre outras iniciativas, o monstro Polyus, que podia lançar minas atômicas a 5 ou 6 minutos do seu alvo (ao contrário dos 30 minutos estimados para os mísseis ICBM);

2. a pressa em construir a nave de combate determinou o seu fracasso; se os soviéticos tivessem aplicado os mesmos métodos utilizados na confecção das estações Salyut e Mir, teriam alcançado o sucesso inevitavelmente; porém, mesmo com toda a improvisação, ela poderia ter se tornado operacional sem muita dificuldade – talvez pouco confiável, o que em termos de armamento nuclear é apavorante…

3. a CIA e demais órgãos de inteligência americana jamais admitiram a existência da Polyus; aparentemente, foi um projeto cujo segredo se manteve até a publicação do artigo de Kornilov;

4. a Polyus foi construída para ser indetectável; mesmo que a inteligência americana detectasse eventuais novos lançamentos de foguetes Energia com cargas “misteriosas”, seria muito difícil rastrear diversas destas naves em órbita;

5. em virtude de seu imenso peso, dificilmente a Polyus seria eficaz para se defender de ataques rápidos (por exemplo, raios laser de alta energia); no entanto, caso um satélite ASAT atacante fosse detectado a tempo, o canhão defensivo poderia ser acionado com sucesso;

6. como arma ofensiva, a Polyus era extremamente perigosa, e diversas destas naves atuando em conjunto poderiam, sem dúvida, causar um estrago considerável no território a ser atacado. Tratava-se de uma arma formidável, capaz de romper o equilíbrio nuclear entre as super-potências.

Fonte, Créditos e Fotos: http://www.karl.benz.nom.br/hce/militar/polyus/polyus.asp