:: Alguns dos segredos da primeira bomba atômica soviética.


semipalatinsk test site

Local de testes em Semipalatinsk, Cazaquistão.

Para grande surpresa do governo dos Estados Unidos, a primeira bomba atômica soviética foi detonada no polígono de Semipalatinsk em 29 de agosto de 1949. Os documentos desclassificados relatam o papel que desempenhou a inteligencia soviética no âmbito da criação da bomba.

A culminação de um projeto secreto deu lugar na margem ezquerda do rio Irtish, a 130 quilômetros da cidade de Semipalatinsk, ao noroeste da república soviética do Cazaquistão.

kaz4a

semipalatinsk region site

Ao lado, desenho do Polígono Nº 2 em Kurchatov City.

A instalação militar secreta ficou conhecida como: “Polígono Nº2” do Ministério das Forças Armadas da URSS. Unidade militar 52 605, responsável de efetuar as provas do dispositivo RDS-1, ou “Artigo 501” Ou, dizendo claramente, a primeira bomba atômica soviética.

A notícia sobre a detonação na URSS de um dispositivo nuclear foi um duro golpe para o presidente dos EUA, Harry S. Truman, porque todos os cientistas norte-americanos e a CIA lhe haviam assegurado que os soviéticos necessitariam de no mínimo dez anos para desenvolver suas próprias armas atômicas.

Truman no entanto recebeu um segundo golpe, e muito mais forte, quando os especialistas em pouco tempo informaram que todos os parâmetros da bomba soviética coincidiam com os da primeira bomba norte-americana detonada em 1945.

semipalatinsk

Semipalatinsk, local da primeira explosão atômica na União soviética.

A conclusão era evidente: os russos haviam roubado informação ultra secreta.

A resposta de Moscow, também desconcertou o Ocidente, desde a tribuna do parlamento soviético, o físico soviético Igor Kurchatov, em um discurso carregado de patriotismo fez o anuncio sensacional:

“Os cientistas soviéticos consideraram um dever patriótico garantir a segurança da Pátria, e obtiveram êxitos importantes na fabricação de armas atômicas”, disse Kurchatov seguido de uma estrondosa salva de palmas na sala.

Andrei_Sakharov_and_Igor_Kurchatov

Os pais do programa nuclear soviético, Dr. Andrei Sakharov (esquerda)com Dr. Igor Kurchatov (direita). imagem: wikipedia.

Os experimentos em materia de física nuclear nos anos 30 e 40 do século passado se realizavam nos Estados Unidos, na Grã Bretanha, na União Soviética e na Alemanha.

Mas foi precisamente na Alemanha onde apareceram três figuras que são indispensáveis de se recordar, os cientistas na física: Albert Einstein, Klaus Fuchs e Otto Hahn.

O futuro Prêmio Nobel Otto Hahn obteve provas irrefutáveis da fissão nuclear de urânio em 1938, o que permitia desenvolver novos tipos de armas.

Afortunadamente, estas armas não caíram nas mãos de Adolf Hitler, que estava já cinco anos no poder na Alemanha, por uma série de razões. Em primeiro lugar, porque o líder do Terceiro Reich exigiu resultados imediatos, e nada os pode garantir.

Além disso, muitos dos cientistas destacados emigraram da Alemanha. Aqueles que por algumas razões não simpatizavam muito com o governo nazista, como Klaus Fuchs, que era membro do Partido Comunista da Alemanha, e aqueles que não pertenciam à raça ariana. Em outras palavras, os judeus e entre eles estava Albert Einstein.

Enquanto Einstein emigrou rapidamente aos Estados Unidos, Fuchs chegou ao Novo Mundo apenas em 1943, sobre momento importante de sua vida comentaremos logo.

Em 2 de agosto de 1939, Einstein escreveu uma carta ao presidente dos EUA Roosevelt que dizia: “Consta a mim que a Alemanha tem suspendido atualmente a venda de urânio extraído das minas da Checoslováquia ocupada…” O cientista supôs que os nazistas necesitavam das minas para desenvolver armas nucleares.

Dois meses e meio mais tarde Franklin Roosevelt agradeceria a Albert Einstein em sua carta e diria: “Isto nos obriga a atuar”!

Sendo assim, em 1945 se supôs que os alemães haviam suspendido a venda do uranio porque as fábricas de armamento alemãs necessitavam do urânio para reforçar a blindagem dos carros de combate.

Enquanto isso, na cidade canadense de Quebec, Roosevelt fez um acordo com o primeiro ministro britânico, Whiston Churchill de unir esforços no desenvolvimento das armas nucleares ocultando estes planos do aliado, Iosef Stálin, líder da União Soviética.

Nessa epóca por ser a Grã Bretanha alvo de constantes bombardeios da aviação Luftwaffe nazista, então decidiu-se que as instalações nucleares se construiriam nos Estados Unidos.

Para a realização do projeto, sob o nome de “Manhattan”, se criou na população dos Álamos, no estado do Novo México o Laboratório Nacional. Com um financiamento incrível para aqueles anos em mais de 2,5 bilhões de dólares.

Em março de 1943, o que antes foi um sanatório para jovens se converteu em um centro de investigações secretas vigiado pela inteligência militar e o FBI. Ali foram reunidos os físicos mais destacados do siglo XX, entre eles mais de uma dezena dos Prêmios Nobel. No total no Laboratório trabalhavam uns 130 mil empregados, entre militares e civis.

O centro secreto estava a cargo do coronel Leslie Groves. E seu diretor científico, foi o físico norte-americano Robert Oppenheimer.

Oppenheimer, por certo, estava casado com uma sobrinha do marechal de campo alemão Keitel, quem em maio de 1945 firmaria o Ato de Capitulação da Alemanha Nazista.

Por convite de Oppenheimer e procedente da Inglaterra a Los Álamos chegou um dos físicos mais destacados em investigações nucleares. Seu nome era Klaus Fuchs, como recordam era emigrante alemão e membro do Partido Comunista da Alemanha.

dr-klaus-fuchs-2

Nascido na Alemanha, físico britânico e espião, o Dr. Klaus Fuchs é recebido pelo seu sobrinho Klaus Kittowski (à direita) em um aeroporto em Berlim Oriental, em 24 de junho de 1959. Fuchs mudou-se para a Alemanha Oriental imediatamente após nove anos e meio em uma prisão britânica pelo fornecimento de segredos nucleares à União Soviética. (Imagem: Keystone/Hulton Archive/Getty Images – foto: |www.history.co.uk|)

A partir desse momento, o Kremlin começou a receber informação secreta sobre intensos trabalhos de investigação sobre o emprego da energia atômica com fins militares nos EUA.

O resultado foi que já em 1941, Klaus Fuchs havia sido recrutado pela inteligência soviética ou, como afirmam outras fontes, o mesmo ofereceu seus serviços como agente.

Em 13 de junho de 1945, doze dias depois de terminar a montagem da bomba, Fuchs informou sobre os preparativos de um teste nuclear importante do projeto Manhattan.

A primeira explosão atômica na história da humanidade ocorreu às cinco horas e trinta minutos da madrugada do dia 16 de julho de 1945, a sessenta milhas de distância da cidade de Alamogordo, no sudoeste dos Estados Unidos.

No polígono de prova estava Klaus Fuchs.

O informe sobre a prova exitosa foi enviado em um avião especial ao presidente Truman que nesse momento se encontrava na cidade alemã de Potsdam. Ali teve lugar a terceira e última reunião dos líderes das três potências aliadas.

Após a leitura do informe Truman declarou: “Agora temos a nossa disposição uma arma que poderá mudar o curso da história e da civilização”.

Truman e Churchill ficaram muito assombrados da tranquila reação de Stálin, que permaneceu imutável. Inclusive pensaram que o líder soviético simplesmente não entendeu do que se tratava.

No entanto, imediatamente concluída a reunião, Stalin deu a ordem de acelerar os trabalhos do programa nuclear soviético.

A reação de Stalin foi muito diferente quando lhe informaram sobre os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki. Segundo testemunhos, caiu profundamente chocado.

Em 20 de agosto de 1945, na URSS foi criado um comitê especial para “coordenar todas as investigações sobre o uso da energia nuclear”.

Como presidente do comitê foi nomeado Lavrenti Beria, chefe dos serviços secretos. Seu diretor científico foi Igor Kurchatov.

O acadêmico soviético Piotr Kapitsa, físico brilhante e futuro Prêmio Nobel, formou parte do comitê, mas prontamente o abandonou após escrever uma nota a Stalin com a mensagem siguinte: “Se Beria quir comportar-se como um diretor de orquestra, além de mover a batuta, lhe convinha também conhecer as notas”. E pediu para ser excluído do comitê. Somente uma pessoa de tão renomada posição científica como Piotr Kapitsa podia fazer tal declaração.

Os demais participantes do projeto aceitaram as condições e iniciaram os trabalhos.

Já em 1943, Igor Kurchatov havia informado ao governo que a URSS estava muito defasada nas investigações nucleares. Agora, esse retardo deveria ser superado no prazo mais curto possível.

Nestas circunstancias, a ajuda proporcionada pelos serviços de espionagem soviéticos teve um significado muito mais que especial. O agente ‘Charles’, nome em código de Klaus Fuchs, entregou em setembro de 1945 aos soviéticos uma descrição técnica de 33 páginas da bomba atômica dos EUA.

As provas da primeira bomba atômica da URSS tiveram lugar quatro anos mais tarde, em 29 de agosto de 1949. E efetivamente, a primeira bomba atômica soviética em muitos aspectos tinha as características da primeira bomba norte-americana.

Joe1

Joe-1, foi o apelido americano para a primeiro teste soviético da bomba atômica, em referencia a Josef Stálin. Imagem: Courtesia de Stepanovas

Então, é certo que os cientistas soviéticos como escolares mediocres copiaram a tarefa dos sobressalentes escolares estadunidenses?

Não, não é tudo assim tão simples.

Os materiais obtidos através dos agentes da inteligência soviética permitiram não cometer erros, evitar investigações sem sentido e, o mais importante, reduzir os prazos para a criação das armas nucleares próprias.

O monopólio nuclear dos americanos deixou de existir.

Nesse momento os EUA já haviam elaborado o chamado ‘Plano Dropshot’, uma operação militar que previa desferir golpes nucleares preventivos contra a União Soviética. Em uma primeira etapa, o plano estipulava lançar mais de 300 bombas atômicas e outras 250.000 bombas convencionais sobre o território da URSS. Nem há o que dizer das etapas posteriores.

“Se nós tivéssemos atrasado um ano ou um ano e meio, teríamos sido vítimas do plano”, disse Stalin. Foi uma das poucas ocasiões em que o líder soviético teve toda a razão.

Anos mais tarde, em 1992, o chefe do programa soviético das armas nucleares, academico Yuli Iaritón, destacou o papel que haviam jogado na criação da primeira bomba atômica na URSS a partir dos dados obtidos pela espionagem soviética especialmente os enviados por Klaus Fuchs.

Enquanto, a situação de Fuchs se fazia cada vez mais instável, já que a partir de 1949 os serviços secretos americanos e britânicos começaram a suspeitar que havia proporcionado a informação à URSS.

Fuchs foi detido em janeiro de 1950 e reconheceu sua culpa. Foi processado pelo Tribunal Penal Central de Londres e sentenciado a catorze anos de prisão, o máximo possível por passar segredos militares a uma nação aliada. Podia ser pior: o mesmo Fuchs pensava que seria condenado à pena de morte. Mas catorze anos foi a pena máxima por espiar a favor de um Estado aliado. Até 1945, a URSS e a Grã Bretanha eram aliados.

Após o cumprir nove anos e meio de condenação, o físico alemão foi posto em liberdade “por conduta exemplar”. Os últimos anos de sua vida passou na República Democrática Alemã onde continuou com sua carreira científica, alcançando uma considerável importância. Foi eleito membro da presidência na Academia de Ciências Naturais e no Comitê Central do Partido Socialista.

Klaus Fuchs forneceu informação importante à União Soviética de forma absolutamente desinteressada, partindo de suas convicções políticas e da certeza do profundo perigo que supôs ao monopólio nuclear que pretendeu criar os Estados Unidos.

O estado soviético agradeceu a Fuchs condecorando-o com a Ordem da Amizade dos Povos, um dos mais altos galardões da União Soviética.

Contudo, Fuchs não foi o único agente que colaborou com os serviços secretos da URSS em matéria de investigações nucleares.

Os esposos Ethel e Julius Rosenberg também foram detidos nos Estados Unidos, acusados de entregar secredos nucleares à URSS.

rosenberg

O casal, Ethel e Julius Rosenberg.

Hoje em dia se pode afirmar que os Rosenberg colaboraram com os serviços secretos soviéticos. Mas é muito pouco provável que os dados proporcionados por eles, que não eram especialistas em física nuclear, tivessem sido úteis para os cientistas soviéticos no desenvolvimento da bomba atômica.

Por desgraça para os Rosenberg, o processo contra eles teve lugar na época do macarthismo, quando a simpatia pela ideologia comunista já era considerada um delito.

A colaboração dos Rosenberg com a inteligência soviética se descobriu devido às declarações de Klaus Fuchs às agencias de inteligência britânicas e americanas, que foram empregadas para a implicação de Harry Gold, uma testemunha chave nos julgamentos de David Greenglass, irmão menor de Ethel Rosenberg.

Greenglass_bomb_diagram

O esboço de David Greenglass, um projeto de arma de implosão do tipo nuclear, ilustrando o que supostamente os Rosenberg passaram para a União Soviética.

Os esposos rejeitaram todas as acusações mas o julgamento os declarou culpados e uma semana depois o juiz Irving Kaufman os sentenciou à cadeira elétrica.

A maioria dos físicos que analisaram aos planos entregues por Julius Rosenberg os qualificaram de “caricaturas” e cheios de erros.

Apesar dos protestos que provocou a sentença judicial para os esposos Rosenberg, o presidente dos EUA, Dwight Eisenhower, aprovou a pena de morte.

Nos últimos minutos antes da execução os esposos estiveram juntos.

julius_ethel_kiss

O último beijo.

Na habitação havia um telefone que conectava diretamente com a secretaria de Justiça. Uma chamada confessando sua culpa podia salvar-lhes a vida, mas Rosenberg deu as costas ao telefone. Em 19 de junho de 1953, às 20 horas e 6 minutos Julius foi executado na cadeira elétrica na cadeia de Sin Sing. 6 minutos mais tarde morreu Ethel.

Possivelmente não existe nenhum país no mundo em que a traição dos interesses nacionais seja impune.

É assim.

Mas, quem foi castigado pela morte de centenas de milhares de civis, vítimas das bombas atômicas no Japão?

Repassemos uma carta de Einstein ao presidente dos EUA Truman: “Não sei com que armas se lutará na terceira Guerra Mundial, mas sim, eu sei com quais farão na quarta Guerra Mundial: pedras e paus”.  

autor: Alexander Ratsimor.

fonte: http://sp.rian.ru/opinion_analysis/20121003/155152404.html