:: Como o programa espacial soviético se adiantou a NASA.


Propaganda soviética da missão à lua

Há 50 anos a União Soviética lançou o Sputnik (satélite em russo). O Sputnik significou que URSS vencia a corrida espacial face aos Estados Unidos . Para um dos membros da equipe que trabalhou com Sergei Korolev – o pai da indústria espacial soviética – no desenvolvimento do Sputnik, o impacto produzido pela pequena esfera foi totalmente inesperado. Boris Chertok lembra que “ficou para a história como o primeiro satélite artificial da Terra. Quando estavam a preparar o lançamento viam-no apenas como o pequeno brinquedo de Korolev e não estavam à espera do significado que uma bola tão simples e pequena iria adquirir para a humanidade”.

Chertok concedeu uma entrevista a Associated Press. Esteve proibido de revelar qualquer coisa sobre o programa por boa parte de sua vida. O nome dele, e o de Sergei Korolev, o diretor científico do projeto, eram protegidos como segredos de Estado pelos líderes da União Soviética. Hoje, aos 95 anos e conversando com um pequeno grupo de jornalistas em Moscou, Chertok pôde enfim expressar todo o seu orgulho pelo papel central que desempenhou na história da exploração espacial. “Cada um daqueles primeiros foguetes era para nós como uma mulher amada”, disse. “Nós estávamos apaixonados por cada um deles, desejávamos desesperadamente que a ignição obtivesse sucesso. Dedicamos nossos corações e almas a levá-los aos céus”.

Bomba de hidrogênio

Essa exuberância altamente racional e a determinação de Korolyev foram essenciais para o sucesso do Sputnik. Mas o mesmo pode ser dito sobre o acaso. Da forma como o descrevem antigos cientistas envolvidos no projeto, o primeiro satélite do mundo nasceu de um programa soviético muito diferente: o frenético desenvolvimento de um foguete capaz de transportar uma bomba de hidrogênio aos Estados Unidos. Porque não havia como definir de antemão que peso poderia ter a ogiva que conteria a bomba, o míssil balístico R-7 foi construído com empuxo mais que suficiente – “muito mais poderoso do que qualquer coisa de que os americanos dispunham naquele momento”, disse Georgy Grechko, engenheiro de foguetes e cosmonauta soviético.

A primeira equipe de cosmonautas soviéticos.

O alto empuxo e capacidade de carga do gigantesco R-7, incomparáveis naquele momento, por acaso constituíam o veículo perfeito para o lançamento de um objeto em órbita – um feito jamais realizado até então. Na ausência da ameaça nuclear constante, dizem os cientistas russos, o Sputnik provavelmente teria subido ao espaço muito mais tarde. “O motivo essencial para que o Sputnik surgisse foi a atmosfera da Guerra Fria e nossa corrida contra os americanos”, disse Chertok. “O míssil militar era a tarefa principal em nossas mentes, naquele momento”. Quando o projeto da ogiva encontrou obstáculos, Korolev, o pai do programa espacial soviético, decidiu aproveitar a oportunidade.

                                 Propaganda da corrida espacial soviética.

O líder do projeto, cujos talentos como cientista e como administrador de vontade férrea se equivaliam, pressionou o Kremlin a permitir que ele tentasse lançar um satélite. Os Estados Unidos estavam planejando missão semelhante em 1958, ele apontou, como Parte do Ano Geofísico Internacional. Mas embora o governo tivesse aprovado a idéia em janeiro de 1956, os líderes militares queriam manter o míssil reservado ao programa bélico. Grechko, 76 anos, declarou em entrevista que “eles tratavam o satélite como brinquedo, como uma fantasia tola de Koroylev”. Os Estados Unidos tinham um programa de satélites, disse Grechko. “Os americanos orgulhosamente batizaram seu programa como ‘Vanguard’, mas mesmo assim ficaram para trás de nós”.

A União Soviética já dispunha de um satélite científico em escala maior em desenvolvimento, mas completá-lo demoraria demais, como sabia Korolyev. Por isso, ordenou a sua equipe que rapidamente projetasse um veículo orbital primitivo. O projeto era conhecido como PS-1, ou “prosteishiy sputnik”, “o mais simples satélite”. Grechko, que calculou a trajetória de lançamento do primeiro satélite artificial da humanidade, disse que ele e outros jovens engenheiros tentaram persuadir Korolyev a carregar o Sputnik de instrumentos científicos. O líder do projeto recusou, dizendo que não havia tempo. “Se Korolyev tivesse nos ouvido e decidisse esperar para colocar mais equipamento a bordo, os americanos teriam chegado primeiro ao espaço”, disse Grechko.

Sputnik

O satélite, que pesava apenas pouco mais de 80 kg, foi construído em menos de três meses. Os projetistas soviéticos criaram uma esfera pressurizada de liga de alumínio polida, com dois transmissores de rádio e quatro antenas. Um projeto de satélite anterior previa formato cônico, mas Korolyev preferiu a esfera. “A Terra é uma esfera, e o primeiro satélite também deve ter formato esférico”, ele teria dito, segundo recorda Chertok, por muito tempo o principal assistente de Korolyev. A superfície do Sputnik recebeu polimento impecável a fim de melhor desviar os raios do sol e evitar superaquecimento. O lançamento havia sido marcado inicialmente para o dia 6 de outubro. Mas Korolyev suspeitava que os americanos pudessem estar planejando lançar um satélite um dia antes. O KGB foi instruído a verificar, e informou não ter descoberto coisa alguma.

Roupa espacial soviética, note no emblema as bandeiras de URSS-EUA da missão conjunta Soyuz-Apollo.

Mas Koroylev não queria arriscar. Imediatamente cancelou alguns testes de último minuto e adiantou o lançamento por dois dias, para o 4 de outubro de 1957. “Melhor que ninguém, Koroylev compreendia o quanto era importante abrir a era espacial”, disse Grechko. “A Terra teve apenas uma lua por um bilhão de anos, e subitamente haveria uma nova lua, esta artificial”. Pouco depois do lançamento, das áridas estepes da república soviética do Cazaquistão, o satélite enviou ao mundo o seu mais famoso bip. Mas os engenheiros em terra não compreenderam a importância da missão de imediato. “Naquele momento, não conseguíamos compreender plenamente o que havíamos realizado”, relembra Chertok. “Nós só nos sentimos extasiados a respeito mais tarde, quando o mundo todo enlouqueceu a respeito. Demoramos quatro ou cinco dias para compreender que se tratava de um ponto de inflexão importante na história da civilização”.

Imediatamente depois do lançamento, Korolev ligou para o líder soviético Nikita Khrushchev, com o objetivo de reportar o sucesso da empreitada. O filho do líder, Sergei, que estava na companhia do pai naquele momento, lembra que eles ouviram pelo rádio os bips transmitidos pelo satélite, e depois foram dormir. Sergei Khrushchev disse que eles inicialmente viram o lançamento do Sputnik como apenas mais uma de uma série de realizações tecnológicas soviéticas, tais como a criação de um novo jato de passageiros ou a da primeira usina nuclear de uso civil. “Todos nós – o pessoal de Koroylev, as pessoas do governo, Khrushchev e eu – percebemos o satélite como simplesmente mais uma realização, uma demonstração de que a economia e a ciência soviéticas estavam no caminho certo”, disse Sergei Khrushchev, hoje pesquisador sênior do Instituto Watson de Estudos Internacionais, na Universidade Brown, em entrevista por telefone.

O pequeno Sputnik era invisível a olho nu. Entusiasmado com a reação mundial, Khrushchev ordenou que Korolyev imediatamente preparasse o lançamento de um segundo satélite, dessa vez em tempo para celebrar o aniversário da revolução bolchevique, que aconteceu em 7 de novembro de 1917. Trabalhando dia e noite, Koroylev e sua equipe construíram um novo veículo orbital, em menos de um mês. Em 3 de novembro, lançaram o Sputnik 2, satélite dotado de mais equipamentos e com peso de 500 kg.

O veículo transportava o primeiro passageiro vivo, uma cadela vira-latas chamada Laika, em uma pequena cabine pressurizada. A cadela morreu devido ao intenso calor do espaço depois de uma semana, atraindo protestos dos defensores dos animais. Mas a missão provou que era possível a um ser vivo sobreviver no espaço, o que abriu caminho para vôos tripulados. O primeiro Sputnik enviou seus bips do espaço por cerca de três meses, antes de deixar a órbita e queimar em sua reentrada na atmosfera. O satélite circulou a Terra mais de 1,4 mil vezes, com tempo de pouco menos de 100 minutos por órbita.

Anonimato

Para Koroylev, houve amargura, além do triunfo. Ele jamais foi mencionado nos relatos contemporâneos sobre o lançamento, e seu papel crucial era conhecido apenas de alguns funcionários do governo e projetistas de espaçonaves. Leonard Sedov, um membro da Academia Soviética de Ciências que não tinha qualquer conexão com o projeto espacial, foi identificado erroneamente no Ocidente como o “pai do Sputnik”. Koroylev, enquanto isso, só foi autorizado a publicar as porções mais inócuas de suas pesquisas, sob o pseudônimo “professor K. Sergeyev”.

Valentina Vladimirovna Tereshkova, primeira mulher na consquista do espaço.

Khrushchev rejeitou a oferta do comitê do Nobel, que desejava nomear Korolyev para um prêmio, insistindo em que a realização cabia “a todo o povo soviético”. Sergei Khrushchev acreditava que ressaltar o papel de Korolyev irritaria os demais projetistas e prejudicaria o programa espacial e o de mísseis. “Aquelas pessoas eram como atores, e teriam ficado loucamente enciumadas de Korolyev”, ele diz. “Creio que a decisão de meu pai tenha sido a correta, em termos psicológicos. Mas, claro, Koroylev ficou muito magoado”.

Natalia, a filha de Korolyev, relembra em um livro o quanto o véu de segredo incomodava seu pai. “Somos como mineiros – trabalhamos nos subterrâneos”, ela se lembra de ouvi-lo dizer. “Ninguém nos vê ou ouve”. A União Soviética e o resto do mundo só descobriram o nome de Korolyev depois que ele morreu, em 1966. Hoje, a casa em que viveu durante muito tempo em Moscou serve como museu em honra ao diretor científico do programa espacial soviético, e foi nela que Chertok recebeu os repórteres. Chertok mesmo só foi autorizado a começar a viajar ao exterior no final dos anos 80, depois que o líder soviético Mikhail Gorbatchóv deu início à abertura na União Soviética.

Yuri Gagarin, primeiro cosmonauta e Sergei Korolev, diretor cientifico.

Os líderes sobreviventes do programa espacial soviéticos já não são anônimos, nem precisam manter o sigilo, e apreciam muito os elogios que lhes foram negados por tantas décadas. “A rivalidade no espaço, ainda que tivesse motivos militares, serviu para promover o avanço da humanidade”, disse Valery Korzun, um cosmonauta russo que serve como diretor adjunto do centro de treinamento de cosmonautas conhecido como Cidade das Estrelas. “Nossas atuais realizações derivam daquele período de intensa competição”. No final, foram os americanos que venceram a corrida à Lua, quase 12 anos mais tarde. Khrushchev não tinha grande interesse em explorar o satélite natural, diz o filho dele, e o esforço nesse sentido que começou sob seu sucessor, Leonid Brezhnev, não dispunha de recursos suficientes e foi prejudicado por cisões cada vez mais graves entre Korolev e outros projetistas.

“Não haveria como chegarmos primeiro à Lua, de qualquer jeito”, diz Grechko. “Perdemos a corrida porque nosso setor de eletrônica era muito inferior”. Hoje, no momento em que o Sputnik se torna cada vez mais um tema reservado aos livros de História, as lembranças sobre ele e sobre a era continuam a exercer forte atração. Em agosto, quando uma bandeira russa foi plantada no leito do mar sob o Pólo Norte, o Kremlin comparou o momento ao desembarque do americano Neil Armstrong na Lua – uma indicação, talvez, de até que ponto os russos ainda apreciam aquela primeira vitória na corrida espacial.¹

Tradução: Paulo Migliacci

Fonte: Pravda.ru <publicado em: 04.10.2007>