:: Korolev lutou para a Rússia enviar o primeiro homem à Lua.


                                          Korolev, o visionário das estrelas.

 Korolev estava convencido de que poderia levar russos primeiro à Lua, antes de morrer. Um herói anônimo, magoado, mas cheio de convicções — entre elas a de que os russos poderiam ter vencido os americanos na corrida para a Lua. Esse foi Sergei Pavlovich Korolev, homem que projetou o Sputnik, primeiro satélite artificial da Terra, há exatos 50 anos. O retrato é pintado por sua filha, a médica e professora Natalia Sergeevna Koroleva. Ela conversou com o G1 sobre seu pai, os planos que ele tinha para o futuro, sua convicção na União Soviética e seu espírito sonhador, informa a G1.

“Papai lutou para tornar a Rússia o primeiro país a enviar um homem à Lua e estava convencido de que isso era possível”, afirma Koroleva. Para ela, os soviéticos só perderam a corrida pela conquista da Lua para os americanos por conta da morte prematura de Korolev (pronuncia-se “Caralióv”), em janeiro de 1966, vítima de um câncer de cólon.

1912, Korolev era um menino em Nizhyn.

Só depois de sua morte Korolev teve sua identidade relevada ao mundo. Antes, ele era mencionado pela imprensa oficial apenas como o “Projetista-Chefe” do programa espacial soviético. O segredo era destinado a evitar que especialistas-chave do país acabassem indo parar nas mãos do inimigo. A situação magoava Korolev. “Claro que seus sentimentos foram feridos pelo anonimato, mas ele considerava esse fato um elemento inevitável da Guerra Fria”, conta Koroleva. Foi essa necessidade que impediu o projetista-chefe de conquistar um Prêmio Nobel, recusado pelo ditador Nikita Khrushchev, por considerar que o Sputnik era um feito “de todo o povo soviético”.

Não custa lembrar que Khrushchev foi o líder soviético mais “bonzinho” com Korolev. Antes dele, durante o governo de Joseph Stálin, o cientista de foguetes foi acusado de traição, preso e enviado a um gulag — campo de trabalhos forçados do antigo regime soviético.

Inabalável amor à pátria

A despeito dessa passagem pela prisão, Korolev jamais perdeu a fé no ideal comunista e no governo soviético, segundo sua filha. “Meu pai entendia que o comportamento de alguns políticos russos era errado”, diz Koroleva. “Ainda assim, isso não influenciava seu patriotismo. Os líderes soviéticos ajudaram-no a ter as condições necessárias para sua atividade criativa.”

Monumento para o heroi da pátria e o seu míssil R-7.

E não era por prestígio pessoal que Korolev queria vencer todas essas batalhas, a maior delas na corrida espacial contra os Estados Unidos. “Papai queria bater os americanos não pela glória pessoal, mas pelo prestígio de seu país e pela criação de sua capacidade de defesa”, diz, lembrando que o R-7, foguete que impulsionou o Sputnik ao espaço, foi criado inicialmente para fins bélicos — o primeiro míssil balístico intercontinental da história.

Mas Korolev tinha um olho na exploração pacífica do espaço. Aliás, partiu dele a iniciativa de tentar convencer Khrushchev de que os soviéticos poderiam se beneficiar do lançamento do primeiro satélite em órbita. O esforço foi autorizado pelo governo com a condição de que não atrasasse o desenvolvimento dos mísseis balísticos.

Assim nascia o primeiro artefato a orbitar a Terra — simples, feito às pressas para colocar a União Soviética na frente, mas o primeiro passo de uma longa cadeia de sucessos.

     Laika, o primeiro cachorro no espaço, originalmente chamada Kudryavka.

Em 7 de novembro de 1957, no Sputnik 2, voou a bordo a cadela Laika, que provou a possibilidade de vôo espacial para seres vivos. E, quatro anos, em 12 de abril de 1961, Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem a entrar em órbita, inaugurando a era das missões tripuladas. Todos esses foram projetos de Korolev, que encarava cada um dos passos com a mesma intensidade.

Idealismo cósmico

“Todos esses eram elos da mesma corrente, todos eles eram a coisa mais importante para ele”, diz Koroleva. “Papai via sua atividade na exploração espacial como uma fase historicamente necessária da evolução da civilização humana.”

A principal inspiração para o projetista-chefe foram os trabalhos de outro russo, Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935). Tido hoje como o pai da astronáutica, ele elaborou as primeiras equações que demonstravam a viabilidade do uso de foguetes para a exploração espacial.

“Ele era um sonhador — a conquista do espaço era a meta de sua vida”, diz Koroleva. “Ele estava convencido da implementação do sonho de Tsiolkovsky de que a humanidade não iria permanecer eternamente na Terra.”

E os cosmonautas — termo historicamente usado pelos russos para designar seus viajantes espaciais — eram especialmente respeitados por Korolev. “Papai adorava os cosmonautas, chamava-os de ‘águias'”, revela Koroleva. “Ouso dizer que ele gostava do Gagarin mais que dos outros.”

Em Baikonur, no Cazaquistão, centro de onde partiam os foguetes e espaçonaves preparados por Korolev, haviam duas casas lado a lado: uma para o projetista-chefe, outra para os cosmonautas que viajariam ao espaço nos próximos dias.

                Yuri Gagarin – primeiro homem no espaço – e Sergei Korolev.

Korolev passou muito tempo lá e ajudou a supervisionar a ampliação gradual da infra-estrutura do centro de Baikonur. Para sua filha, pouco tempo restava para o resto de sua vida. “Papai estava tão sobrecarregado com seu trabalho que ele tinha pouco tempo para qualquer outra coisa. E ele não falava quase nada sobre seu trabalho, por conta dos segredos envolvidos”, afirma Koroleva.

Ainda assim, ela tem uma lembrança terna do pai. “Bonito, inteligente, forte, convencido da necessidade e da importância da atividade a que ele devotou a sua vida”, diz. “Ser filha de Korolev é uma honra e uma responsabilidade. Tenho muito orgulho do meu pai.”

A saga da entrevista

Conversar com Natalia Koroleva envolveu um esforço quase sobre-humano de reportagem. Embora ela seja uma médica e professora prestigiada da Academia Médica de Moscou, Koroleva não possui e-mail pessoal, e a academia também não tem uma lista de contatos de seus membros.

Para contatá-la, o G1 teve de conseguir, com suas fontes na Rússia, o telefone residencial da pesquisadora e, por meio de um intérprete russo, requisitar a entrevista.

As perguntas foram então enviadas a Alexander Sukhanov, um cientista espacial russo que divide seu tempo entre o IKI (Instituto de Pesquisas Espaciais), em Moscou, e o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em São José dos Campos (SP), e que gentilmente concordou em ajudar o G1 nessa empreitada.

Ele traduziu as questões do português para o russo e tentou enviá-las, por fax, para o número dado por Koroleva. Não deu certo. A solução foi então dispará-las, por e-mail, para um colega no IKI, que de Moscou transmitiu as perguntas por fax para Koroleva.

As respostas foram redigidas à mão e enviadas por fax para o IKI, em Moscou, onde chegaram ao colega de Sukhanov. Ele, por sua vez, as enviou para o cientista russo do Inpe, que as traduziu para o inglês e despachou, por e-mail, para a reportagem do G1, onde foram vertidas para o português.

Fonte: Pravda.ru <publicado em: 04.10.2007>