:: A reforma militar na Rússia parece um concurso de projetos utópicos.


Um aviso importante para quem não está inteirado: uma reforma militar está acontecendo na Rússia.

É um processo que não está isento de certas dificuldades. O que ocorre é que seus participantes não conseguem chegar a um acordo sobre os aspectos que hão de submeter-se a dita reforma. Este obstáculo preocupa a muitos e de uma maneira intensa.

No âmbito do assunto, existe uma notícia boa, o Exército não se vê diretamente afetado; e uma má, o problema é muito mais profundo do que parece. Tem a ver com o futuro de todo o país e não só com o futuro dos militares.

Uma reforma militar não é uma mera sequência de ações planificadas segundo os propósitos levantados e desenvolvidos de uma forma mais ou menos estrita. Nem é questão de introduzir um novo uniforme militar, nem colocar as insígnias em um lugar um pouco mais distinto.

Uma reforma militar precisa de uma clara percepção do mundo, que dará lugar à formação do conceito das mudanças necessárias. O referido conceito deve traduzir-se mais tarde na realização dos programas e projetos concretos.

Uma boa ferramenta da formação de uma adequada visão do mundo é um detalhado estudo independente. O ideal é que contemple as tendências do desenvolvimento do país e seja suficientemente profissional, para não deixar-se levar “pelos pouco precisos interesses da segurança nacional”, mas com base nas necessidades do setor.

E é aqui, onde começam as dificuldades.

Não há consenso entre os membros da comunidade profissional.

Para poder levar a cabo uma reforma militar, precisa ser elaborado um inventário de axiomas como base, aos quais sejam discutidos os pormenores da estratégia e da tática a seguir. E tão pouco faria mal o consenso da comunidade profissional, um consenso generalizado ao máximo, mas nem por isso menos útil.

E o que é que estamos presenciando nesse nesse caso? Qual é este consenso básico dos especialistas no tocante à reforma militar? Tudo parece indicar que o que prevalece são as ilusões e os projetos utópicos.

Eis aqui o projeto de um Exército profissional pouco numeroso que supõe um custo exorbitante de mantenimento. Os soldados tem de ir munidos com os últimos avanços tecnológicos, supostamente facilitados por fabricantes estrangeiros e as empresas russas do setor da defesa que de repente têm sacudido a sonolência. Será que por alguma razão misteriosa terão melhorado os parâmetros da produtividade da economia russa e temos nos convertido no líder mundial na esfera de altas tecnologias, adquirindo ao mesmo tempo o status do centro financeiro do mundo?

Ou esta outra intenção de cobrir as vastas planícies russas com uma infinidade de tanques e veículos de combate, fabricar centenas de milhares de fuzis ao ano e introduzir para o serviço militar obrigatório prazos entre três e cinco anos. Os que intentem evitá-lo vão ver reduzidos todos seus direitos civis. Enquanto isso, a população e os agradecidos camponeses terão de manter de boa vontade toda esta parafernália, removendo da mesa o último pedaço de pão para os seus filhos.

Os grandes mestres do vazio

Vejamos com cuidado. O que é que está construindo toda esta gente? Para o Exército de que país estão fazendo eles os seus planos? Para a Rússia de antes da Revolução, aquela das valsas de Schubert, toalhas de mesa impecáveis e pães doces rígidos? Ou seria para a União Soviética, com seus acampamentos de pioneiros e os sorvetes tão desejados de alguns? Para um império asiático, de composição imprecisa mas ambições sem medidas e valores éticos de todos os calibres? Para um belo e moderno país, Innovacia o chamaríamos, onde atrás de cada arbusto se pode vislumbrar uma nova Silicon Valley repleta de dispositivos eletrônicos?

Não é mais que um combate de ilusões e o ganhador gozará do direito a enganar as pessoas, mais simples. Nenhum destes modelos, qualificados como vitais e amplamente difundidos no espaço midiático, é idôneo para a Rússia atual. Quanto mais oco o conteúdo, mais pomposa é a forma.

O último projeto de propósitos construtivos e realistas existiu na URSS. Mas sua duradoura e oculta erosão nos anos setenta e oitenta do século passado previsivelmente acabou na desintegração do país a princípios dos noventa. Na realidade, o país havia perdido sua essência bastante antes e desde então se prova incapaz de recuperá-la.

Os acalorados debates que estamos presenciando é a mais vulgar prova de que se tem desviado do caminho. O país não chega a encontrar algo que o una, a exceção dos três principais canais da televisão nacional.
Primeiro o Estado e logo, o Exército.

Como vão saber que exército vertebrar, se nem sequer há entendimento de para quém nem para quê tudo isso é feito? O Exército não é senão uma ferramenta de força destinada a garantir o desenvolvimento, não tem valor em si, dado que é fruto da visão de mundo aprovada pela nação como a única e adequada.

Quem somos? Muito depende da resposta que se dê a esta pergunta, e em nosso caso concreto, sem responder não se poderá dar nem um passo. Já dizia Carl von Clausewitz que a guerra é a continuação da política por outros meios. Se um é incapaz de formular algum objetivo, parece algo prematuro planejar batalhas por esta inexistente meta e discutir sobre a melhor estrutura do Exército.

Todos os modelos da ordem mundial, tanto o liberal e cosmopolita como o imperial ou algum outro estão envolvidos de maneira irremediável em uma luta geopolítica sem fórmulas de acordo possíveis.

E as vozes dos especialistas apolíticos, que têm uma visão realista do mundo não só na esfera militar, mas que também percebem com claridade os vínculos que esta tem com as tendências mundiais, apenas se ouvem. E não é culpa dos meios de comunicação, nem das autoridades incapazes de selecionar especialistas que valham a pena, porque na realidade sentem-se mais que satisfeitos com os profissionais de tão escassa competência.
Uma vez que há coisas para fazer, podem se envolver em fantasias.

De modo que o problema da falta de especialistas independentes e capacitados que influam na tomada de decisões é muito importante. Na Rússia a perícia em temas militares frequentemente é substituída por especialistas em relações públicas, muito hábeis até a hora de soar convincentes. Os poucos capazes de gerar alguma idéia valiosa, geralmente trabalham na esfera da indústria ou da cooperação técnico-militar. E desde ali suas opiniões não se ouvem, não é o formato apropriado.

Um profissional que entende das particularidades do complexo militar industrial geralmente é muito específico em seus objetivos e critérios, de modo que lhe resulta difícil abarcar “problemas de caráter generalizado”.

É por esta razão, por isso que os meios de comunicação descarregam sobre o público uma massa verbal, gelatinosa e mal digerida, composta por “idéias particulares sobre a necessária organização das Forças Armadas”. Umas idéias abstratas e muito distantes da realidade.

Autor: Konstantín Bogdánov

Fonte: http://sp.rian.ru/opinion_analysis/20121231/156035827.html

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