:: A crise dos mísseis quase levou o mundo à extinção.


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Local onde foram instalados os lançadores de mísseis soviéticos em Cuba, em outubro de 1962.

A URSS e os EUA em igual medida provocaram a crise dos mísseis.

A instalação em Cuba de vários mísseis balísticos intercontinentais soviéticos foi uma resposta à decisão do governo dos Estados Unidos de instalar mísseis análogos na Turquia e na Itália, e as ameaças por parte da Casa Branca de invadir com mercenários a Cuba.

Durante vários dias em outubro de 1962, o mundo esteve prestes a uma Terceira Guerra Mundial na qual com toda segurança teria sido utilizado armamento nuclear com a consequente destruição de cidades inteiras e a desaparecimento de parte da humanidade.

Na sede da Agência de Informação russa RIA Novosti, na data do projeto “Não esquecer a História”, celebrou-se recentemente uma video-conferência com a participação de especialistas e periodistas.

O evento, sob o título, “A crise dos mísseis: reflexões sobre o destino mundial”, tratou sobre o significado e as conclusões daquele acontecimento histórico saturado de perigo e tensão para a humanidade.

Situação perigosa

O General e aposentado da KGB, e professor do colégio de Diplomacia da Universidade de Relações Internacionais de Moscow (MGIMO), Nikolai Leonov, considera que o mais complicado é responder a pergunta: “De quem foi a culpa?”

“Na maioria dos casos se tende a responsabilizar à URSS e pessoalmente ao líder soviético, Nikita Kruschev, quem tomou a decisão de instalar em Cuba os mísseis balísticos soviéticos”, indicou Leonov.

No entanto, o catedrático considera que essa crise sucedeu como ocorre na maioria dos acidentes na estrada, quando é quase impossível estabelecer se o culpado foi o condutor que avançou sobre o outro veículo, ou este, ao criar uma situação perigosa que inevitavelmente conduziu à colisão.

“Foi os Estados Unidos o responsável ao criar uma situação ameaçadora no Caribe”, – explicou sua posição Leonov.

Segundo o catedrático, depois que Fidel Castro tomou o poder em Cuba, em 1959, o governo dos EUA lançou inúmeras ameaças contra as novas autoridades na ilha. Os dirigentes cubanos, então, buscaram proteção e a encontraram na URSS. Mas não foi em seguida, porque a princípio nem sequer existiam relações diplomáticas entre Cuba e a União Soviética.

Em termos gerais, a posição Leonov foi compartilhada pelo catedrático de História e Relações Internacionais da Universidade George Washington, o americano James Hershberg.

“Os líderes dos dois países foram irresponsáveis, não se detiveram a pensar sequer nos interesses e na segurança de seus povos”, afirmou Hershberg.

Tanto o desembarque dos soldados americanos na baía de Cochinos, organizado pela CIA, como o envio dos mísseis balísticos a Cuba foram demonstrações aventureiras. “Não deveriam permitir que a situação desembocasse em uma crise, deveriam negociar em seguida”, acrescentou o especialista americano.

Uma lição positiva

Para o diretor do Instituto da América Latina Vladimir Davydov, a crise dos mísseis foi inevitável e proveitosa. “Se não tivesse ocorrido, teria que inventá-la, – disse Davydov,- aqueles acontecimentos serviram como um cursinho de História para os líderes dos Estados Unidos e da União Soviética que aprenderam a encontrar fórmulas de compromisso para situações delicadas e inesperadas”.

A diretora adjunta para Projetos Internacionais da Universidade de História, Olga Pavlenko, destacou que precisamente depois da crise dos mísseis de 1962, ficou evidente que não haveria uma nova guerra e que um enfrentamento nuclear não teria ganhadores.

“Por outro lado, a raíz da crise surgiram outras ameaças, mas assim é a política, como um campo minado, como disse certa ocasião o ex-ministro de Assuntos Exteriores da Rússia, Evgueni Primakov”, destacou o especialista.

Vulnerabilidade e pânico

Ao analisar outros aspectos desses sucessos históricos, Hershberg concluiu que a “crise de Outubro”, como se conhecem aqueles acontecimentos nos Estados Unidos, chegou a constituir um momento crucial tanto na Guerra Fria como na corrida armamentista.

Até aquele momento, o presidente americano, Dwigt Eisenhower, e Kruschev, estiveram dominados pela euforia de dispor de armas nucleares. É por isso que o momento vinha marcado por uma corrida pela posse de armamento nuclear, em detrimento do convencional. Ainda assim, depois de 1962 as partes se deram conta de que seria impossível desfrutar de uma vantagem unilateral e passaram à política da contenção e da paridade nuclear.

“Por outro lado, a princípios dos anos 60 os Estados Unidos estava invadido pelo pânico, o “terror nuclear” havia alcançado seu ponto auge – recordou Hershberg. Durante demasiado tempo tínhamos nos sentido completamente a salvo, separados de todas as ameaças a partir dos oceanos, o Pacífico e o Atlântico. E de repente surgiu um sentimento de vulnerabilidade; era novo e assustava”.

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Mísseis soviéticos instalados em Cuba.

Leonov explicou este fenômeno a sua maneira, ao explicar para esses anos, os soviéticos já estavam acostumados a viver sob uma situação de perigo. Durante anos estiveram rodeados de bases militares norte-americanas, porta-aviões dos EUA navegavam ao longo do seu litoral e aviões que sem impedimento algum voavam sobre seu território.

“Ao contrário, os norte-americanos não estavam acostumados a isso. Sempre quiseram ter a vantagem em tudo, não reconheciam a ninguém como igual e, por essa razão, não queriam aceitar o principio de segurança mútua”, indicou Leonov.

Comparado a isso, Hershberg afirmou que, “na URSS a população não sentia pânico, não tanto, por desconhecer a informação completa do que sucedia”.
Contudo, o catedrático reconheceu que “entre os dois países existia uma profunda incompreensão psicológica, que impedia compreender quem ameaçava a quem e, como resultado, os dois países viveram o pior dos cenários possíveis. E só de maneira conjunta poderia encontrar uma saída”.[1]

A crise do Caribe pos o planeta a beira de uma guerra nuclear

Há meio século, em 14 de outubro de 1962, o Serviço de Inteligência dos Estados Unidos tomou conhecimento do desenvolvimento dos mísseis nucleares soviéticos em Cuba.

Irrompeu a chamada ‘crise dos mísseis’, um período de intenso balanço a beira da guerra nuclear, cujo desenvolvimento e desfecho determinou em grande parte o perfil do mundo atual.

Notícias inesperadas do quintal

O voo de reconhecimento do avião norte-americano U-2 sobre o território cubano deu resultados absolutamente inesperados. Decifrando as imagens obtidas e enxugando o suor frio, os analistas perceberam as instalações dos mísseis soviéticos de meio alcance R-12.

Desde sua posição nas proximidades da cidade cubana de San Cristóbal os mísseis alcançariam Washington e Dallas. Voos adicionais permitiram aos Estados Unidos revelar que estavam presentes em Cuba os R-14, cujo alcance cobria todo o território dos EUA, a excepção do Alaska, Hawai e uma reduzida superfície da costa entre San Francisco e Seattle. O tempo estimado de voo equivalia a 10 minutos.

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Distâncias das maiores cidades americanas em relação a Cuba.

Estados Unidos, que anteriormente se sentia invulnerável por estar separado de seus inimigos pelos Oceanos, se viu completamente indefeso. A situação era por isso delicada, escandalosa e de consequências imprescindíveis. Poucos se haviam atrevido a molestar ao tigre atlântico em sua própria toca.

Começou um dos períodos de maior tensão da história mundial que foi batizado posteriormente como ‘crise de outubro’ o Cuba, ‘crise dos mísseis’ o Estados Unidos e ‘crise do Caribe’ na URSS.

Operação ‘Anadyr’

No final dos anos cinquenta do século passado a União Soviética se encontrou numa situação altamente desagradável: estava rodeada por todas as partes de bases militares americanas, a princípio, aéreas e mais tarde de mísseis, e não tinha quase nenhuma possibilidade de alcançar o territorio do “hipotético inimigo” com mísseis nucleares.

As autoridades soviéticas se sentiam especialmente preocupadas pela instalação dos mísseis PGM-19 Jupiter em 1959 na Itália e em 1961 na Turquia. Desde suas posições na periferia de Esmirna os mísseis americanos cobririam nesse caso todo o território europeu do país, incluindo Moscow e Leningrado. Isso, sem contar os potentes bombardeiros com armas nucleares que estavam montando guarda ao longo das fronteiras da URSS.

Não era nada fácil oferecer uma resposta a esse tipo de assédio. O foguete R-7 que havia levado Yuri Gagarin ao espaço, era o primeiro portador intercontinental do mundo, mas era complicadíssima a sua preparação e não tinha unidades suficientes instaladas. A base sólida das tropas espaciais da URSS eram os mísseis tático-operacionais R-12 e R-14, mas seu alcance não superava os 2.000 e os 4.500 quilometros, respectivamente.

Esses foram os motivos da operação ‘Anadyr’, um atrevido plano do líder soviético Nikita Kruschev que consistia na implantação dos mísseis nucleares de meio alcance no território cubano, onde acabava de triunfar a Revolução Socialista. Não era esperado de Moscow semelhante insolência, dado que o Serviço de Inteligência dos EUA insistia na tese de que a URSS não instalaria as armas nucleares fora do país. De modo que se conseguiu transportar os mísseis à ilha sem impedimento algum.

Foram implantados em Cuba 16 lançadeiras para os R-14 (com 14 mísseis), e 24 lançadeiras para os R-12 (36 mísseis). Cada míssil R-12 levava a carga com uma potência de cerca de um megaton, e os R-14, com algumas cargas superiores a 2 megatons.

As tropas soviéticas em Cuba, sob o comando do general Issa Pliev, tinham a sua disposição vetores de armas nucleares táticas para empreender a defesa do território da ilha: doze sistemas de mísseis de curto alcance 2K6 Luna, 80 mísseis alados FKR-1, seis bombardeiros Il-28 com seis bombas atômicas e seis mísseis anti-navio Sopka.

Estava previsto enviar também a Cuba uma brigada de mísseis táticos R-11M com 18 mísseis nucleares, porém o desenrolar dos acontecimentos impediu a continuidade deste feito.

Os primeiros mísseis R-12 foram transportados a Cuba em 8 de setembro de 1962. Na realidade deveriam ter sido detectados muito antes, quando as instalações ainda não estavam montadas, mas em 5 de setembro de 1962 o presidente Kennedy tomou a decisão de não provocar tensões nas relações bilaterais e proibiu os vôos de reconhecimento sobre Cuba.

Graças a isso, o fornecimento da maior parte dos mísseis passou desapercebido. Tudo foi descoberto com o reinício dos vôos, em 14 de outubro de 1962.

Obrigados a submeter-se à hierarquia militar

O alto escalão militar começou a incitar Kennedy a empreender uma operação militar contra os mísseis soviéticos. O chefe do Estado Maior Conjunto, o general Maxwell Taylor, e o chefe do Comando Aéreo Estratégico, o general Curtis LeMay, insistiam por um ataque aéreo preventivo contra os mísseis transportados à ilha e pela intervenção no território cubano. O general LeMay oferecia ao presidente Kennedy garantias de que no primeiro ataque se destruiria uns 90% dos mísseis. “E o resto?”, perguntou retóricamente Kennedy. Curtis Lemey, quem havia orquestado a guerra aérea contra o Japão (por sua iniciativa Tóquio foi arrasada pelo fogo em março de 1945 enquanto que Hiroshima e Nagasaki foram submetidas a bombardeios atômicos), fez como que não se inteirava do sentido da pergunta.

Quatro ou cinco cargas de um megaton penetrariam no território americano e destruiriam cinco ou seis megalópoles. Mesmo assim, aos representantes do Pentágono lhes parecia que os “bolcheviques haviam se arraigado no pátio traseiro dos EUA e o presidente não fazia mais que perguntar loucuras”.

Ao escutar aos militares Kennedy se deu conta de que estava se encurralando, forçado a obedecer cegamente. Os procedimentos, instruções e maneiras de atuar que saíram da forja da Segunda Guerra Mundial se tornaram obsoletas num mundo que possuía tecnologias nucleares.

O presidente, indignado, viu com clareza que não tomavam realmente decisões sobre as armas nucleares do país: O direito de uso, concedido em 1948 de manera formal ao líder da nação, estava submetido a uma série de diretrizes e normativas, que exigiam transparência e responsabilidade na tomada desta difícil resolução.

Na URSS nem tudo era tão simples: considera-se que o comandante do contingente soviético em Cuba, o general Issa Plíev, tinha direito a tomar decisões independentes sobre o uso das armas que estavam a sua disposição. Não é a versão correta, dado que as instruções pertinentes proibiam a instalação das cargas nucleares sobre foguetes e seu lançamento sem a correspondente ordem de Moscow.

Contudo, um dos participantes daqueles dramáticos acontecimentos, o representante do Estado Maior soviético em Cuba e general Anatoli Gribkov, insistia que Plíev havia recebido a seguinte ordem oral do Secretario General do PCUS, Nikita Kruschev: usar segundo as circunstâncias as armas nucleares táticas, mas não estratégicas. O Estado Maior inclusive começou a escrever uma diretiva sobre o uso de armas táticas, mas o processo foi suspendido pelo ministro da Defesa, Rodion Malinovski, quem disse não ser necessário porque o comandante das tropas em Cuba estava ciente de como tinha que proceder.

Versões muito parecidas como dois submarinos com torpedos nucleares a bordo que estavam de patrulha nas águas do Caribe foram oferecidos. A orden era atuar segundo a situação, apesar de que formalmente as decisões independentes estavam proibidas.

As partes chegaram tão próximas ou seus jogos com os “fósforos nucleares” que é de surpreender que não tenham queimado por acidente nossa casa comum.

O inesperado desenlace

O presidente Kennedy não sucumbiu ante as promessas dos militares e, apoiando-se aos membros de confiança de sua equipe, de concreto, o ministro da Defesa, Robert McNamara, e seu irmão, o Fiscal General Robert Kennedy, conseguiu promover um plano muito especial de bloqueio a Cuba.

Esse adiava mas, não eliminava a tomada de decisão. Os EUA buscou aproveitar todos os mecanismos de pressão sobre a URSS, mas Moscow evitava comentar o tema.

A tensão ia subindo de nível. Em 26 de outubro, o chefe da estação do Serviço de Inteligência soviético, Alexander Feklísov, começou a sondar o terreno para um desenlace negociado da crise através do colaborador da cadeia de televisión ABC, John Scully. Mas no sábado, 27 de outubro, a tensão se voltou insuportável: os efetivos russos derrubaram o avião de reconhecimento U2 com um míssil S-75, ocasionando a morte do piloto, o major Rudolf Anderson.

Até hoje se desconhece quem deu a ordem de abater o alvo. Pode-se dizer com toda segurança que não foram Moscow nem o general Plíev, a decisão foi tomada em Cuba. É uma mostra mais que convincente do precário equilíbrio da situação.

O mesmo dia foram atacados os aviões de reconhecimento da Marinha americana RF-8 Crusader, que intentaram penetrar as zonas da ilha que eram de seu interesse.

Ao final da jornada os destroyers norte-americanos começaram a perseguir os submarinos soviéticos do projeto 641, tentando obriga-los a emergir. Mais tarde se supôs que os submarinos levavam torpedos nucleares a bordo e seu uso estava sendo considerado seriamente.

Aquele dia a guerra podia estalar a qualquer momento, por culpa dos nervos de algum dos comandantes. Contudo, pela noite se celebrou a reunião de Robert Kennedy com o embaixador da URSS, Alexei Dobrinin, e se produziu um intercâmbio de propostas claras encaminhadas a “desescalar” a crise. A postura de Washington foi transferida a Moscow.

O resultado é bem conhecido: Estados Unidos, em troca pela retirada dos mísseis soviéticos, ofereceu suas garantias ao regime de Fidel Castro e, sem chamar a atenção de nada, desmantelou os mísseis Júpiter implantados na Turquia.

Em 28 de outubro pela manhã Nikita Kruschev tomou a decisão de aceitar as propostas de John Kennedy. Às 16.00 horas (hora de Moscow), antes todavia do anuncio oficial, o general Plíev recebeu a ordem de iniciar o desmantelamento das instalações.

A herança da crise

Os pensamentos dos líderes soviéticos durante a crise eram um enigma, a excepção de que evidentemente não estavam dispostos a lançar os mísseis. O único que sabemos é que em 25 de outubro todos os membros do Politburo, por iniciativa de Kruschev, se dirigiram ao Teatro Bolshoi de Moscow para relaxar as tensões e demonstrar desta forma a Washington sua boa vontade.

No entanto, os sentimentos de John Kennedy estão melhor descritos. Contavam muitas testemunhas que naquele outono o livro de cabeceira do presidente era a obra de Barbara Tuckman ‘Os Canhões de Agosto’. Não é uma investigação demasiadamente precisa do início da primeira Guerra Mundial, mas contêm um perfil psicológico surpreendentemente certeiro da crise política e militar de julho-agosto de 1914.

Tuckman descreve a enorme bagagem diplomática e militar, completamente inadequada para funcionar ou as novas condições que, seguindo as normas do ano passado, ia arrastando ao abismo aos Governos e os Estados Maiores das principais potências europeias, envolvendo-os contra sua vontade na guerra.

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Navio americano lado a lado com navio transportador soviético durante o bloqueio naval imposto pelos EUA no auge da crise dos mísseis, em outubro de 1962.

Estas imagens literárias impressionaram a John Kennedy a tal ponto que não podia aparta-las de sua mente ao longo de todo o outono de 1962. Tudo parece indicar que deixava à autora guiar sua imaginação ou busca de uma saída: demasiado grave era a semelhança daquele outubro de 1962 e aquele outono de 1914, seguido por sangrentos acontecimentos e desastres sociais.

Alguns testemunhos colhem as palavras do presidente John Kennedy: “Se em nosso planeta em algum momento se desencadear uma devastadora guerra nuclear e os sobreviventes desta catástrofe forem capazes de superar o fogo, a intoxicação e o caos, não quero que para a pergunta de um – como isso pode ter acontecido? O outro responda “se eu soubesse, nunca teria permitido”.

Um ano mais tarde John Kennedy seria assassinado em Dallas e dois anos mais tarde Nikita Kruschev seria destituído pelos conspiradores de todos os postos que ocupava.

Os timoneiros daquela crise militar e política, a mais grave e perigosa de toda a Historia da humanidade, dariam lugar a vínculos não declarados, mas mais estreitos, estabelecidos pelos dois sistemas. O final dos sessenta e prolongando-se pelos anos setenta se converteram na época de uma crescente influência dos organismos não governamentais, que se encarregariam de manter a comunicação entre as elites políticas da União Soviética e dos Estados Unidos em ambos os lados da Cortina de Ferro. Eram o Clube de Roma, o Instituto Internacional para Análises de Sistemas Aplicados e outros.

Surgiram outros e bastante reconhecíveis símbolos de nossos tempos: a “linha vermelha” estabelecida entre Moscow e Washington, que tornou necessário o complicadíssimo intercâmbio de notas que teve que realizar-se durante a crise. E os líderes de ambos os países receberam as chamadas “maletas nucleares”, bagagens de uns 20 quilos que continham os códigos requeridos para emitir uma ordem autorizando o uso de armas nucleares.

Trata-se de outro mundo: o nosso, o habitual. O antigo foi devastado pelo fogo provocado pelas explosões nucleares, embora só existiram na imaginação de determinadas pessoas. No entanto, pareceu suficiente e se decidiu evitar o experimento em “tempo real”. [2]

A crise dos mísseis, meu primeiro drama pessoal

Eu chorava ao me separar da boneca sem saber que 100 milhões de pessoas estavam a um passo da morte naquele dia.

A crise dos mísseis em Cuba em outubro de 1962 se converteu, por estranho que pareça, no meu primeiro drama pessoal. Tinha três anos e meio e tive que enfrentar pela primeira vez na vida uma situação bastante dura para uma menina. “Temos que ir urgentemente, você só pode levar um brinquedo”, disse minha mãe com uma voz firme. Meu pai, que achava tudo uma piada, tão pouco explicou nada, disse somente que teria que ir trabalhar, pois uma pistola sem funda no bolso e se foi.

Não sei exatamente que dia era. Talvez 22 de outubro, quando o presidente americano John Kennedy se dirigiu à nação propondo estabelecer um bloqueio militar a Cuba. Durante seu discurso televisionado disse que qualquer ataque nuclear lançado desde Cuba contra qualquer nação no hemisfério ocidental seria considerado como um ataque da URSS contra os EUA, com todas as consequências. “A confrontação entre a União Soviética e os Estados Unidos chegou ao seu ponto crítico” escrevia o diário The New York Times em 23 de outubro de 1962. “Não resta dúvida que o senhor Kennedy, que hoje encontrou tempo para nadar na piscina, é o inquilino da Casa Branca mais impassível… Enquanto isso, a notícia provocou a venda em massa de ações da Wall Street”.

Ou talvez tenha sido 24 de outubro, quando Nikita Kruschev, o então líder soviético, enviou à Casa Branca um telegrama dizendo que a URSS via o bloqueio como uma agressão.

Enquanto isso, os navios soviéticos se dirigiam a Cuba. Minhas irmãs maiores cantavam uma canção sobre a pequena Panchina que dançava samba. O refrão dizia: “Cuba sim! ianques no!” Eu não entendia o refrão mas cantava junto com as minhas irmãs.

No entanto, em seguida compreendi que as lágrimas não serviriam de nada e fui me despedir dos meus brinquedos. Despedi-me de minha primeira boneca com o pelo “de verdade”, do cachorro de pelúcia, do mono e um monte de bonecas para as quais havíamos fabricado móveis com as caixas vazias de fósforos.

O relógio de corda e o cavalo mecânico também ficaram no nosso chão de Minsk (Bielo-Rússia), só pude levar um brinquedo ainda assim todos eles para mim estavam vivos, eram amigos. Meu coração fazia-se em pedaços só de pensar que tinha que abandoná-los a sua sorte ante uma ameaça desconhecida. Escolhi o cachorrinho. Na manhã seguinte minha mãe anunciou que nós ficaríamos.

“Seguramente foi 25 de outubro”, está convencido Jim, meu amigo americano. Enquanto eu me despedia de meus brinquedos, ele e seus companheiros da equipe de pedreiros esperavam em Nova Iorque um ataque nuclear, igual ao que os meus pais no hemisfério oposto.

Recorda que o prazo do ultimato de Kennedy, que anunciou que se Kruschev não desse fim à ameaça dos mísseis um ataque dos EUA contra Cuba seria plausível, expirava aquele dia às onze da manhã. Todos os que trabalhavam na construção do edifício na Sexta Avenida com a rua 50, no mesmo coração de Manhattan, saíram à rua e se sentaram nas faixas. Tomavam cerveja e contavam piadas sombrias : “Não fica preocupado, Billy, eu cuidarei da sua mulher”, “manda um telegrama para a sua tia do Alaska, para vir a recolher nossos ossos depois do ataque”. Olhavam o relógio a cada minuto.

Começou a sair mais gente à rua, empregados dos escritórios e dos hotéis. Parecia que o tempo havia parado. De repente na painel na fachada do escritório da cadeia de televisão CBS foi possível ler a notícia: “Os navios soviéticos deram meia volta”. E todos gritaram de alegria.

Aquele dia a URSS transmitiu aos 14 navios que se dirigiam ao litoral cubano a ordem de interromper a travessia. Mesmo assim, o presidente Kennedy autorizou pelo memorando secreto 199 carregar com armas nucleares os aviões sob o comando do Supremo Comandante Aliado na Europa para um eventual ataque contra a URSS.

“A defesa anti-aérea não deixará que chegue até Moscow”, pensavam meus pais, “mas até Minsk poderiam chegar perfeitamente”. “Na 22ª hora do ultimato o Pentágono informou que uns 60 milhões de pessoas poderiam refugiar-se nos 112.000 refúgios… Muitos cidadãos fazem reservas de àgua, alimentos em conserva e outros víveres”, informou o The New York Times da sexta-feira do dia 26 de outubro.

A crise dos mísseis deixou rastro na vida da minha família. Minha mãe disse que precisávamos encontrar um local seguro se a guerra nuclear se iniciasse. Foi assim que construímos uma casa de madeira no meio do bosque a uns 100 quilômetros de Minsk. Minha mãe dizia que a madeira absorve a radiação. A casa tinha duas saídas, uma normal, pela porta, e a outra por uma passagem subterrânea que desembocava no bosque.

“Uma casa no bosque?”, dão risada meus amigos americanos. “Muitos nova-iorquinos então voaram para o norte do estado onde construíram uns bunkers de concreto armado para o caso de explodir a guerra nuclear. Naquela época se produziu um boom de construção de refúgios pessoais equipados com geradores de energia elétrica e sistemas de depuração de água”, conta Jim. Os soviéticos não podiam nem sonhar com tal luxo…

“Na frente da Casa Branca se realizou um comício após o outro, uns manifestantes chaman a tomar duras medidas contra Cuba, outros exigem salvaguardar a paz a qualquer preço”, lia-se no The New York Times. Meu amigo Jim confessa que ele, tal qual os seus companheiros, estavam assustados: os mísseis soviéticos se encontravam a 130 quilômetros da fronteira dos EUA.

Está bem que a crise dos mísseis servira de lição também para os políticos. Nesse momento entrou em vigor o chamado telefone vermelho, linha direta entre a Casa Branca e o Kremlin, com a finalidade de agilizar as conversações entre ambas as potências durante os períodos de crise. Os líderes da URSS e dos EUA finalmente se deram conta que tinham que aguentar a presença um do outro no planeta e dialogar de alguma maneira.

Agora eu, uma russa, estou rindo com meus amigos americanos em Nova Iorque e me pedem que conte novamente como meus pais tinham me proibido recolher objetos brilhantes e bonitos do solo, pensando que podiam ser artefatos explosivos mandados pelos americanos. E como meus pais escutavam em segredo a emissora ‘A Voz da América’ e me pediam para não contar a ninguém. E eu, uma criança, guardei o segredo familiar até a morte deles…

Explico aos meus amigos que a minha infância os americanos eram apresentados a nós como uns senhores gordos com cartolas e uma bomba atômica na mão. Eles me contam que os soviéticos eram mostrados nos EUA como pessoas esqueléticas também com a bomba atômica. Agora parece estranho que há 50 anos estávamos dispostos a nos matar. O que é uma simples casualidade que não chegamos a fazer? [3]

Fidel Castro critica atuação de Kruschev durante crise de mísseis em Cuba

O líder da revolução cubana, Fidel Castro, comenta sobre um artigo publicado na web Cubadebate que a atuação do dirigente soviético Nikita Kruschev durante a crise dos mísseis, em outubro de 1962, supôs um forte revés político para a URSS.

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Nikita Kruschev recebe a visita de Fidel Castro.

“Aqueles acontecimentos sem duvidas custaram o cargo a Nikita Kruschev, que subestimou o adversário, desconsiderou critérios que lhes foram informados e não consultou sua decisão final com os que estavam na primeira linha. O que poderia ser uma importante vitória moral se converteu assim num custoso revés político para a URSS”, escreveu Castro, “A fruta que não caiu”, faz parte da série “Reflexões”.

Ao próprio tempo, Castro reconhece que Kruschev “teve gestos extraordinários” com Cuba e manifestou “extraordinária solidariedade em momentos difíceis e decisivos (…) e sua histórica batalha pela independência e a revolução frente ao poderoso império dos Estados Unidos”.

Quando os EUA interrompeu o fornecimento de petróleo a Cuba, suspendeu a cota de açúcar cubano no mercado americano e proibiu o comércio com a ilha, a URSS “respondeu a cada uma dessas medidas” abastecendo combustível, adquirindo açúcar, comercializando com Cuba e “finalmente oferecendo as armas que Cuba não podia adquirir em outros mercados”.

O líder da revolução cubana recorda que os acontecimentos de outubro de 1962 “puseram ao mundo a beira de uma guerra nuclear total, da qual nenhuma das duas nações e nem a própria humanidade poderia sobreviver”. Atribui aquela crise a “uma campanha sistemática de ataques piratas organizados pela CIA, as sabotagens e as ações militares (…) que culminariam em uma invasão militar dos Estados Unidos a Cuba”.

Por “crise dos mísseis” se conhece um dos episódios mais dramáticos da guerra fria entre Moscow e Washington. Um avião espião americano descobriu em meados de outubro de 1962 que a URSS estava construindo em Cuba bases de mísseis nucleares capazes de alcançar boa parte do território continental dos EUA. No final do mesmo mês, a URSS aceitou retirar esses projéteis em troca de que os EUA desmantelaria os mísseis similares na Turquia e se comprometeria a não invadir Cuba. [4]

[1] fonte: http://sp.rian.ru/opinion_analysis/20101024/147793441.html

[2] autor: Konstantín Bogdánov, fonte: http://sp.rian.ru/opinion_analysis/20121016/155279293.html

[3] autora: Larisa Saenko, fonte: http://sp.rian.ru/opinion_analysis/20121029/155404412.html

[4] fonte: http://sp.rian.ru/international/20120125/152545827.html