:: O segredo da sobrevivência da Coréia do Norte.


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Coréia do Norte volta a chamar a atenção de todo o mundo.

O lançamento do satélite ‘Kwangmyongsong-3’ (‘Estrela Brilhante’) a bordo do foguete portador Unha-3 (‘Via Láctea’), planejado para semana de abril de 2012 com a finalidade de comemorar o centenário do nascimento do fundador do país comunista, Kim Il-sung, não deixou dormir tranquilos todos os seus vizinhos, nem os EUA. Apesar da ênfase no alto nível de transparência do sucesso, pouco habitual para o país, nada crê que seja um programa espacial pacífico senão um ensaio de um míssil balístico. Além disso se sabe por experiência que os artefatos norte-coreanos podem desviar-se de seu curso e cair aleatoriamente.

Há 20 anos, quando caiu a URSS, o regime norte-coreano do ‘Juche’ ficou sem apoio material e o tomaram por condenado a desintegrar-se também. Em 1994, quando faleceu Kim Il-sung e em seu lugar ocupou o cargo seu filho, com fama de ser um ‘playboy’ incapaz de governar um país, o colapso também se considerava inevitável. Agora que ao mando se encontra o neto do pai da nação, jovem e de pouca experiência, de novo se auguram a caída do regime. Veremos quais serão os resultados dentro de uns anos…

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A excepcional estabilidade do socialismo coreano se deve a vários fatores. O primeiro, que a pressão implacável de Pyongyang nunca há cedido lugar para ideologias alternativas ao regime, se comparado com a experiência de outros países socialistas que tem mostrado que uma liberalização controlada deixa de ser controlada muito breve.

Além disso, as autoridades norte-coreanas esperam manter um hermetismo da sociedade que não tem comparação no mundo contemporâneo: não há outro Estado que este tão isolado das influências externas. Isto assegura um nível de proteção muito alto ante acontecimentos similares à primavera árabe.

O segundo fator é que quando a nova situação mundial estava se formando, Pyongyang apostou no programa nuclear. Como resultado, quando a administração estadunidense decidiu, às portas do século XXI, trocar regimes indesejados pela força, resultou demasiado arriscado tocar a Coréia do Norte por perigo de provocar uma resposta nuclear que haveria feito danos inadmissíveis tanto ao adversário como ao próprio país. Resulta muito proveitoso que todo o mundo saiba que não há nada que lhe detenha a um. A Coréia do Sul, por exemplo, se abstêm de cruzar certos limites apesar de suas declarações e ameaças. Nada sabe a ciência certa se a Coréia do Norte está pronta para cometer um suicídio de verdade, mas tão pouco há quem queira verificá-lo. Ao dar-se conta disto, Pyongyang está protegendo sua imagem de um sócio irracional, perigoso e imprevisível.

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Em terceiro lugar, um papel decisivo o tem o apoio de Pequim. China foi o patrão de Pyongyang ainda na época soviética, chegando a ser seu protetor principal desde os 90. Isto não está relacionado com a ideologia: os pragmáticos chineses são estranhos ao dogmatismo norte-coreano. A China parte da idéia de que o ‘status quo’ lhe é mais proveitoso que qualquer das alternativas: seja uma Coréia unida pró estadunidense ou uma ‘grande Coréia’ com suas ambições e ânimos nacionalistas, Pequim perderá ou ambos casos.

Em quarto lugar, na prática nada está interessado na união das duas Coreias. Pyongyang não pensa na expansão desde há muito, sua tarefa primordial é a de sobreviver. Seul, ou o caso da unificação, corre risco de quebrar. O Japão que, ainda teme aos norte-coreanos imprevisíveis, não vai querer ver uma Coréia unida nem sequer sob os auspícios de Seul, pois as múltiplas reclamações que acumularam os coreanos contra seus vizinhos ou estes cem anos estão dirigidos sobre todo o Japão.

É curioso que a Rússia ganhou mais que nada ou o caso da união das duas Coreias. As relações especiais com a Coréia do Norte não são nada mais que uma fantasia. Mas, unidas as Coreias, haveria um país de peso e influência, que apenas tem reclamações históricas ou de algum outro tipo contra Moscow. A Rússia, com seu novo interesse pela Ásia, espera diversificar suas relações para evitar a dependência absoluta da China: a Coreia poderia converter-se num sócio mais cômodo. Além disso, recordemos os planos relativos às artérias de transporte e energia, que amarra em disputas ambas as Coreias. Tudo isto explica os esforços da Rússia por mudar o enfoque do arranjo do conflito: do fracassado planejamento estadunidense com intenção de interessar a Pyongyang por meio de dividendos econômicos, como o projeto do gasoduto transcoreano.

Em definitivo, para os EUA a questão norte-coreana não está tão clara como parece. É certo que Washington não pode permanecer tranquilo quando existe um país imprevisível que não deixa de molestar à superpotencia com seus ensaios nucleares, lançamentos de mísseis e outros truques. Contudo, analisada a situação a longo prazo, o Pyongyang de hoje resulta útil para os EUA.

A tarefa primordial dos EUA para o próximo decênio consiste em proteger suas posições na Ásia e no Pacífico, o qual já tem sido dito oficialmente. A competência estratégica com a China todavia não é um fato, mas sua probabilidade vai aumentando rapidamente. Seria uma provocação demasiadamente atrevida lançar a Pequim um desafio, começando a “rodea-la” (ainda que a ativação da diplomacia estadunidense no Vietnã, Myanmar e por todo o Sudeste Asiático é evidente). A interdependência econômica em diferentes níveis não permite atuar a queima-roupa. Mas a existência na região de um regime agressivo que além de tudo está confirmando esta reputação conscientemente que para o temor de seus vizinhos, sócios dos EUA, é um perfeito pretexto para consolidar suas alianças e aumentar a presença político-militar, desde a terrestre e marítima até a anti-aérea.

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Partindo deste ponto de vista, Pequim deveria fazer optar aos seus tutelados por uma via de transformação pacífica, mas por hora parece que não pode conseguir isso. Não basta tentar persuadir aos líderes norte-coreanos, é evidente que é impossível. E a idéia ocidental de que Pyongyang retroceda se a China reduzir ou suspender a ajuda econômica pode resultar errônea. As autoridades da Coréia do Norte se dão conta de que seus sócios chineses se esforçam por evitar uma exacerbação que pode mudar o ‘status quo’ prejudicando a própria China. E isto significa que a idéia da dita radicalização pode ser objeto de chantagem, não só contra os EUA, Japão e Coréia do Sul, senão contra a China também. Por isso a pressão por parte de Pequim pode provocar uma agressão de Pyongyang contra Seul ou Tóquio, o que causará uma escalada de tensão com a participação dos Estados Unidos, fazendo dano a China. É um paradoxo: a sobrevivência de um regime anacrônico, um estranho fruto de uma época acabada e de uma ideologia fracassada, asseguram as complicadas relações entre as potências asiáticas e a dura rivalidade que todavia está por chegar.

*Fiodor Lukianov, é diretor da revista “Rússia na política global”, uma prestigiosa publicação russa que difunde opiniões de especialistas sobre a política exterior da Rússia e o desenvolvimento global. É autor de comentários sobre temas internacionais da atualidade e colabora com vários meios noticiosos dos Estados Unidos, Europa e China. É membro do Conselho de Política Exterior e Defesa e do Conselho Presidencial de Direitos Humanos e Sociedade Civil da Rússia. Lukianov se graduou na Universidade Estatal de Moscow.

Autor: Fiodor Lukiánov

fonte: http://sp.rian.ru/opinion_analysis/20120412/153396603.html