:: EUA só poderá afirmar sua dominação se conseguir projetar e sustentar operações de grande escala sobre grandes distâncias.


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Lord Acton, historiador e político britânico do século 19, disse, em frase que ganhou fama, que o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. Quase parece que os EUA tiveram acesso a documento actoniano secreto que autorizaria uma ressalva: “Mas e a dominação pelo poder dos EUA? Ah, bom! Aí, é diferente. Aí, pode!” – porque o governo em Washington parece gostosamente cego e surdo a todos os perigos, os riscos, os custos de adquirir e afirmar sua (de Washington) dominação global total. 

 

“Dominar” – ter capacidade não superada para dirigir os eventos, praticamente o contrário de ter poder suficiente só para proteger e deter – é coisa que parece misturada e assada na própria massa da política dos EUA. 

 

Como o presidente Barack Obama disse em documento intitulado “Sustaining US Global Leadership” [Sustentar a Liderança Global dos EUA] (no qual, compreensivelmente, prefere dizer que a liderança dos EUA é “demandada”[1] pelo resto do mundo, em vez de dizer que é buscada pelos EUA, porque interessa aos interesses dos EUA):

 

“Estou decidido a conseguir que superemos com responsabilidade os desafios desse momento e que possamos emergir ainda mais fortes, de modo que preserve a liderança global norte-americana, [e] mantenha nossa superioridade militar (…) superar aqueles desafios não pode ser trabalho só dos militares, razão pela qual reforçamos as ferramentas do poder norte-americano (…) num mundo em mudança que demanda nossa liderança, os EUA permanecerão como a maior força pela liberdade e pela segurança, que o mundo jamais conheceu.”

 

Como se lê na edição mais recente da Quadrennial Defense Review:[2]
 
 

“Os interesses e o papel dos EUA no mundo exigem forças armadas com capacidades não superadas e disposição da nação para usá-las em defesa de nossos interesses e do bem comum. Os EUA continuam a ser a única nação capaz de projetar e sustentar operações de grande escala sobre grandes distâncias. Essa posição exclusiva gera uma obrigação de ser guardiões do poder e da influência que recebemos da história, de nossa determinação e da circunstância.”

 

Como se lê, da Agência da Defesa Para Projetos de Pesquisa Avançada [orig. DARPA, Defense Advanced Research Projects Agency):[3] A missão da DARPA é manter a superioridade tecnológica dos militares norte-americanos e impedir surpresa tecnológica que cause dano a nossa segurança nacional, mediante o financiamento de pesquisa revolucionária, de alto resultado, que preencha a distância entre descobertas e invenções fundamentais e seu uso militar. 

 

E como se lê da irmã menos afamada da DARPA, a IARPA[4], que serve à CIA, à Agência de Segurança Nacional e ao resto da comunidade da espionagem:

 

“A Atividade de Projetos de Pesquisa de Inteligência Avançada [orig. Intelligence Advanced Research Projects Activity (IARPA) investe em programas de pesquisa de alto risco e altos resultados que têm potencial para suprir os EUA com vantagem notável de inteligência sobre futuros adversários.”

 

Deve-se notar que o elemento que mais chama atenção nas revelações de Edward Snowden sobre a Agência de Segurança Nacional e na resposta do governo Obama, é que a ASN teria a atribuição de “guardar tudo”, quer dizer, teria total dominação sobre toda a vigilância em todas as jurisdições não norte-americanas, e parece visceralmente e constitucionalmente incapaz de tolerar qualquer tipo de limite teórico às suas habilidades para interceptar todas e quaisquer comunicações. 

 

Dominação é vício que custa caro, em termos políticos, sociais e, também financeiros. Com a parte que cabe aos EUA no latifúndio planetário já diminuindo a olhos vistos, não surpreende que a dominação pelos EUA esteja sendo desafiada; e mais indiretamente, em termos de desintermediação (o surgimento de estruturas alternativas não centradas nos EUA, de uma das quais já se ouviu falar, na ameaça, feita pelo Brasil, de desconectar-se da Internet Norte-americana), que em algum tipo de confrontação mano a mano. 

 

O resultado é instabilidade assustadora, em vez da ordem tranquilizadora que se espera obter de uma hegemonia não desafiada. 

 

O maior desafio contra a dominação dos EUA é a Ásia. 

 

No Oriente Médio, onde a força militar decisiva estava nas mãos de nossa aliada, Israel; o nosso adversário designado, o Irã, era uma clara potência de terceira ordem; os EUA tinham a notável, servil assistência da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, para organizar e liderar seus aliados; e campanhas contra cinco potências refratárias (Iraque, Afeganistão, Irã, Síria e Líbia) produziram vastos resultados que podem ser divulgados como Vitória”, os EUA ainda encontraram considerável e custosa resistência, quando tentaram falar como manda-chuva. 

 

E que fim levou o “movimento de pivô” do governo Obama rumo à Ásia, onde nosso adversário não designado, a República Popular da China, tem população de 1,6 bilhões, bombas atômicas, e a segunda maior economia do mundo, e nosso aliado chave, o Japão, está emergindo como força regional independente? 

 

Essa não é receita para dominação confortável, nem unilateralmente nem como líder de uma coalizão regional. 

 

O indicador chave das ambições de dominação dos EUA na Ásia é a notória “Batalha Ar-Mar” [orig. “AirSea Battle”], peça quase pornográfica de autogratificação de think-tank[5] que recomenda que os EUA construam colossal presença militar no Pacífico Ocidental para sobreviver (e, claro, triunfar) no pior cenário possível de ataque de “pleno espectro”, pela China, contra instalações militares dos EUA. 

 

A “Batalha Ar-Mar” está agora em situação de hiato, não por suas premissas improváveis, suspeito eu, mas por causa do caráter explode-orçamento daquele esforço para enfiar, como penetra em baile, alguma absoluta dominação militar norte-americana na equação da segurança asiática. 

 

Mesmo que a “Batalha Ar-Mar” esteja posta de lado, nem assim vejo qualquer indicação de que os EUA deem-se conta da preocupante implicação, pela qual essa ambição de dominação militar absoluta pelos EUA, nos desmesuradamente caros confins da Ásia, é sonho inatingível; nem creio que os EUA tenham consciência – nem, tão pouco, doutrina ou estratégia -, para lidar com a mais apavorante das contingências: um “mundo multipolar”, no qual os EUA, como outras potências regionais – Índia, Brasil e África do Sul -, são forçados a definir, refinar e buscar os próprios interesses, sempre mediante dura barganha com uma nuvem sempre mutável de parceiros militares, econômicos e diplomáticos oportunistas. 

 

No meu artigo de final de ano, para Asia Times Online, (Erase that war with China ‘in 2014’, 23/12/ 2013), escrevi que o último ano do governo Obama parecia reconhecer, parcialmente, a existência de uma hegemonia-charada da Ásia; e tinha recuado da confrontação “na cara deles” que Hillary Clinton e o tal “movimento de pivô” encarnavam. 

 

Como sintoma – que é o contrário de “causa” – falei da migração do portfólio “China”, para bem longe de Susan Rice, primeira escolha do presidente Obama para sua Secretária de Estado (além de autora dos desastres líbio e sírio, e cápsula viva a injetar vitríolo anti-Rússia e anti-China na ONU), e na direção do secretário “sempre se dará algum jeito” (e arquiteto da reaproximação Vietnã-EUA) John Kerry. 

O governo da República Popular da China tem esperanças, creio eu, de que esse desenvolvimento represente uma evolução do pensamento norte-americano, de afastar-se da estratégia da “contenção-só-que-mudou-de-nome” chamada “pivô”, que parecia somar uma catarata estratégica e uma catarata econômica de tensões extremadas entre as democracias asiáticas e a China, para um arranjo de poder mais bem equilibrado, que reconhece as vantagens de os EUA ocasionalmente aliarem-se à China para moderar as ações desestabilizadoras do Japão e de outros países asiáticos, excessivamente reforçadas pelo “movimento de pivô”. 

 

Por baixo do rancor (e da cobertura negativa) gerado pelo abuso serial, pela China, contra jornalistas de veículos ocidentais de prestígio, foi o que aconteceu em 2013, com os EUA cautelosamente colhendo alguns ganhos geopolíticos do pivô, especialmente Mianmar, mas lutando para manter o Japão na categoria de “poodle britânico” dos aliados úteis, sem deixar que caísse na categoria “Israel do Pacífico” e perpétua dor de cabeça, sempre a explorar o poder dos EUA. 

 

No longo prazo, não estou otimista: não conto com que os EUA aceitarão um arranjo de equilíbrio de poder na Ásia. 

 

A irrazoabilidade dos EUA no Pacífico em 2013 foi, com certeza, questão de conveniência e tática, não de convicção.

 

Na Europa Oriental, tratou-se de contenção, como sempre, com EUA e forças ocidentais combinadas para malhar Vladimir Putin por sua política externa desagradavelmente assertiva e independente. Aí se incluem atividades como a inserção de apoio ocidental pró elementos europeus na crise política da Ucrânia, e esforços infantilóides para arruinar para Putin os Jogos Olímpicos de Putin, anunciando o envio legiões de atletas homossexuais, em lugar de chefes de Estado, para as cerimônias de abertura em Sochi.

 

Espero ansiosamente que aconteça o concerto da banda Pussy Riot para o presidente Obama, no Kennedy Center, com os pagãos da empresa-imprensa ocidental em êxtase ante aquela mágica convergência de arte, ativismo e princípios. 

 

Seja como for, de volta à Ásia. 

 

Prevejo que, tão logo Japão e EUA alcancem um encontro das mentes (o qual incluirá provavelmente os EUA aceitarem a completa reconstrução militar do Japão e o abandono da Constituição pacifista, enfiando-se embaixo do tapete a certeza de que o Japão já está no limiar, como potência nuclear; em troca de alguma obediência pública ao princípio, se não à realidade, da liderança dos EUA na Ásia), a República Popular da China terá pela frente uma renovada campanha de mentiras, pressão e desprezo. 

 

Trabalho com a hipótese-aposta de que o ponto de virada bem pode ser Taiwan. 

 

Se os índices de desaprovação de Ma Ying-jeou, atual líder supremo do Kuomintang, são indicativos de alguma coisa, é bem possível que, à altura de 2017, o governo de Taiwan venha a estar nas mãos do Partido Democrático Progressista [orig. Democratic Progressive Party (DPP)], tradicionalmente o partido dos taiwaneses nativos (em oposição aos ‘continentais’ pós-1949), que não se interessam pela “reunificação” com o continente e têm declarada preferência por formalizar a independência de facto de Taiwan. 

 

Taiwan, desde 1895, recebe os efeitos inegavelmente benéficos da atenção imperial japonesa, e muitos taiwaneses da velha geração ainda guardam lembranças positivas fortes de seu relacionamento com o Japão. Lee Teng-hui, o primeiro líder taiwanês nativo da República da China e figura política ainda importante, não tem feito segredo de que prefere o Japão à República Popular da China. Depois que deixou o poder, visitou o Japão e visitou, até, o afamado Santuário Yasukuni,[6] para prestar homenagem ao seu irmão, que morreu como soldado japonês nos anos 1940s. 

 

Os nacionalistas japoneses de direita (em cujas hostes brilha o primeiro-ministro Shinzo Abe), embora esse seja um dos fatos desconfortáveis fixados por jornalistas ocidentais entre os males da República Popular da China, e que as virtudes do Japão democrático não parecem capazes de engolir), cultivaram relações com o Partido Democrático Progressista , antecipando o momento em que um regime de um DPP hostil à República Popular da China e amigo do Japão possa voltar ao poder. 

Quando Su Tseng-chang, presidente do DPP e provável candidato presidencial na próxima eleição, visitou o Japão em fevereiro de 2013, a mídia em Taiwan noticiou que ele tinha planos para visitar Shintaro Ishihara, nacionalista japonês muito conhecido, que iniciou a compra nacional das três ilhas Senkaku. (No artigo de final de ano para Asia Times Online, escrevi, talvez incorretamente, que o encontro aconteceu; o grupo de Su declarou que não haveria encontro; mas desconfio que não passasse de formalidade – “não há encontros individuais formais previstos na agenda de viagem” -, e que Su e Ishihara deram jeito de reunir-se). 

 

Ideia popular dentro do DPP é que as Senkakus pertencem ao Japão; seja como for, há poucos votos a obter dentro do DPP para quem se posicione a favor da China e contra o Japão, na questão das ilhas. 

 

Se, em 2017, o DPP estiver no poder em Taiwan e o grupo de Abe do LDP ainda tiver votos no Japão, o cenário estará pronto para uma escalada interessante e bastante perigosa, que talvez envolva Taiwan renunciar aos direitos que diz ter sobre as ilhas, em favor do Japão. O pior caso, é claro, é que se anuncie um referendum da independência de Taiwan, apoiado pelo governo japonês. 

 

Nessa situação, os EUA, ante essa “escolha de Hobson” (“escolha o que quiser” – mas, de fato, você só pode escolher uma das alternativas), entre repudiar a independência de Taiwan e a posição do Japão-aliado, ou apoiar a tirania da República Popular da China, ficará absolutamente sem espaço para barganhar. 

 

E o resultado paradoxal do vício obcecado pela dominação será os EUA já reagindo, encurralados pelos eventos na Ásia, em vez de comandando os eventos na Ásia. *****
 

Autor: Peter Lee

[1] Em http://www.defense.gov/news/defense_strategic_guidance.pdf

[2] Em http://www.defense.gov/qdr/images/QDR_as_of_12Feb10_1000.pdf

[3] Em http://www.darpa.mil/About.aspx

[4] Em http://www.iarpa.gov/whatis.html

[5] http://chinamatters.blogspot.com.br/2013/09/5000-pretexts-for-war.html

[6] Sobre o santuário Yasukuni, ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Santu%C3%A1rio_Yasukuni [NTs].

 Fonte: http://www.atimes.com/atimes/World/WOR-01-080114.html